Síndrome de abstinência
por Equipe De Primeira01h40
CAHUÊ MIRANDA
Não, a minha não é reação pela falta de nenhum tipo de droga. Pelo menos não dessas drogas tradicionais. Estou sentido os efeitos da falta de futebol no estádio. Da falta do Atlético e da Baixada, para ser mais específico. Desde o pré-histórico 7 de outubro de 2009 que meus pés anseiam pelo solo sagrado e o espírito sente a falta da comunhão com os irmãos de fé.
Culpa de uma tal doença de Crohn, que invadiu meu intestino e me mandou pra mesa de cirurgia. Foram dez dias na UTI e mais uns trinta no quarto do hospital. E foi nesse ambiente hospitalar que vivi, pelo radinho, os últimos momentos da deliciosa e doentia (mais do que nunca!) relação com o Furacão.
Não sabia se gritava gol ou gritava de dor, nos 3 a 0 sobre o Santo André. Quase arremessei o rádio na parede quando o Cruzeiro empatou no último minuto naquele cruel 1 a 1. E o jogo contra o Botafogo? Naquele dia, não estava no hospital. A Baixada me chamava, mas eu quase não podia andar, estava com 57 kg (tenho 1,87m de altura).
Não fui. Uma das decisões mais sensatas e mais infelizes da minha vida. Sabe quando o doutor recomenda àquele cara cardíaco que não vá mais ao futebol? Pois para mim seria a sentença de morte. Ouvir pelo rádio me deixa vinte vezes mais nervoso. Não ficar sabendo de nada, então, é uma verdadeira tortura. Ouvi no rádio, quase fiquei sem unhas e sem cabelo, mas comemorei emocionado a vitória por 2 a 0.
Falei que estou em síndrome de abstinência e esqueci de relatar os sintomas. Em primeiro lugar, ansiedade. A sensação de que alguma coisa está faltando, mas você não sabe o que é. Ou sabe muito bem, mas só lembra disso quando chega em casa e vê uma camisa rubro-negra dentro do armário. Daí vem aquele sentimento de nostalgia. A vontade de entrar na internet e ver todas as notícias. De rever aquele DVD do título brasileiro ou aquela fita com o gol do Berg... E tudo isso só serve para aumentar a saudade e o deixar o exílio ainda mais doloroso.
“Atlético, você não presta mas eu te amo”, já disse um torcedor, lá pelos idos de 1960 e poucos... Na época, o time não ganhava nada, mas continuava mostrando que é imbatível na hora de conquistar o coração de seu povo. Não existe atleticano que não seja um romeu apaixonado, um tarado futebolístico. Mesmo os mais discretos nutrem um amor secreto e enrustido, que hora ou outra transborda para todos verem.
Mas Cahuê! Você é jornalista. Não tem medo de mostrar tanta adoração por um clube? Pois não tenho, nem poderia ter. Esse sentimento é parte essencial de minha personalidade. Esconder isso do leitor seria uma desonestidade, um embuste, uma tremenda mentira. João Saldanha, Nelson Rodrigues, Armando Nogueira, Juca Kfouri... Eles nunca esconderam o time pelo qual torcem. Por que eu, que provavelmente nunca chegarei aos pés deles, iria esconder?
Sei que isso nunca me atrapalhou em minha profissão. Sei muito bem separar as coisas na hora de trabalhar. Já fui setorista do Coritiba, indo durante meses a fio no CT da Graciosa e no Couto Pereira. E sempre contei com o respeito de todos. No ano passado, até torci para o Coxa não cair. Pensando no bem do futebol do estado e no melhor profissionalmente. Mas, confesso, principalmente pela mágoa eterna contra o Fluminense.
Enfim... todo esse papo é para dizer que hoje a máquina de arrebatar corações chamada Atlético Paranaense entra em campo pela primeira vez em 2010. O jogo é lá em Toledo e está longe de ser um dos mais importantes do ano. Mas o time tem a obrigação da vitória, para fazer jus ao favoritismo e não maltratar a alma desse povo, que já se conta na casa do milhão.
A estréia para valer, porém, é na próxima quarta, contra o Operário, no nosso campo dos sonhos, a eterna Baixada. Não sei se poderei ir e já começo a roer as unhas...
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Marcão