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Dez 07

3 premissas e 5 medidas para um futebol mais profissional

por Adriano Brandão13h15

Escrevo muito pouco aqui no De Primeira. Mas, com o fim do Brasileirão e as cenas de batalha campal em Curitiba, é impossível ficar calado. Quem me conhece sabe que defendo, há muitos anos, uma "guinada radical" ao profissionalismo no futebol brasileiro. Os acontecimentos de ontem são prova, pelo menos para mim, de que ainda estamos na Idade da Pedra do futebol profissional.

Lá abaixo, algumas humildes sugestões para sairmos desse lodaçal - e rumarmos pelo menos para a Idade do Bronze. Mas, antes, é preciso mudar alguns conceitos que nós, brasileiros, gostamos de cultivar.

Premissa nº 1: Fim do mito do "12º jogador"

Os amantes de "crowd porn" que se mudem para a Coreia do Norte
Os amantes de "crowd porn" que se mudem para a Coreia do Norte.

Esse negócio de torcida que ganha jogo é engambelação. Quem ganha jogo é time. Os fetichistas de multidões são iludidos há décadas e ainda não perceberam. O culto à "democracia das massas" que supostamente existe nos estádios é pura manipulação. Vejam em que lugares esse tipo de ideia prospera: América Latina, Leste Europeu, África. Quanto mais "soberanas" as massas são nos estádios, mais exploradas são na vida real.

Vá à Europa. A final da Liga dos Campeões acontece em campo neutro, sem grupelhos vestidos de palhaços e musiquetas ensaiadas. Nunca vi jogador nenhum reclamar de "falta de apoio". O grito da multidão não é o que estimula os atletas. O que os move é dinheiro, conforto familiar, crescimento pessoal e segurança profissional - exatamente as mesmas coisas que fazem com que, nós, cidadãos comuns, trabalhemos todos os dias.

Premissa nº 2: Qualidade, qualidade, qualidade

O retrato do futebol brasileiro
O retrato do futebol brasileiro

Admitamos: o futebol jogado no Brasil é muito ruim. É abaixo da crítica de ruim.

Na verdade, a Globo deveria ter vergonha de transmitir o Brasileirão (e, mais ainda, os estaduais). Imagine se todos os atores globais famosos fossem trabalhar em outros países e as novelas daqui fossem feitas só pelo pessoal de Malhação, pelos refugos do SBT e por um ou outro ator em fim de carreira? O futebol brasileiro é isso. Os bons vão para qualquer outro lugar; só sobram aqui os novatos, os ruins e os velhos.

Some-se a isso a péssima experiência que o torcedor tem no estádio. O lugar é desconfortável, feio, totalmente isento de atrações. Onde você preferiria assistir a um filme qualquer? Em um cinema moderno e confortável, ou em uma sala tão desgraçada quanto um estádio de futebol brasileiro?

Premissa nº 3: O futebol deve ser auto-suficiente

Alguém aí assistiu a "Small time crooks", do Woody Allen?
Alguém aí assistiu a "Small time crooks", do Woody Allen?

Futebol, no Brasil, serve para tudo. Serve para fazer populismo e conseguir votos ou cargos. Serve para investidores lavarem dinheiro. Serve para dirigentes, empresários e intermediários de toda sorte encherem as burras mandando jogadores para o exterior. Menos para dar lucro diretamente.

O futebol, em si, dá prejuízo. Raríssimos são os clubes que conseguem fechar o ano no azul. Se você tirar o famoso "dinheiro da TV", todos ficam no prejuízo. O dinheiro dos ingressos, do material licenciado e da exploração econômica do estádio (alimentação, lojas etc) não cobre o custo do futebol, que é muito alto.

A explicação é óbvia: o objetivo nunca é o futebol. O sucesso é sempre acidental.

Agora, mais sucintamente, as medidas que sugiro para tornar o futebol brasileiro menos amador:

1. Estádios bons, bonitos, confortáveis, com salas vip, muitas lojas (de material licenciado e também de qualquer outra coisa), lanchonetes, quiosques, restaurantes, hotéis, estacionamentos, oficinas mecânicas, pet shops, museus. Devem ser praticamente shopping centers. Devem ser menores também: no máximo 20, 30 mil pessoas.

2. Ingressos caros, muito caros, absurdamente caros. Bom futebol é um espetáculo de produção dispendiosa. Quem quiser algum desconto que compre carnê antecipado da temporada inteira.

3. Fim do ingresso grátis. Para sócios, convidados, agregados, chupas-cabras e torcidas uniformizadas, todo mundo. Claro, todo esse povo poderá existir e assistir aos jogos, normalmente. Mas terão que comprar ingresso e pagar tarifa cheia.

4. Diminuição da liga principal para 14 ou 16 times. Jogos só aos domingos, em temporadas menores (a sobre-exposição vulgariza e desvaloriza o esporte). E manutenção do campeonato em pontos corridos. Todos os estádios devem oferecer espetáculo o ano inteiro e isso é o aspecto fundamental dessa fórmula. Lembrando: a receita deve vir principalmente do movimento dos estádios. Torneios mata-mata devem ser paralelos, nos meios de semana, para gerar movimento adicional. Fazer a liga principal nesse formato é deixar vários estádios fechados boa parte do ano: prejuízo certo.

5. Fim dos estaduais. É impossível reproduzir esse nível de qualidade em um número grande de clubes, ou em cidades pequenas. A profissionalização significa a extinção ou a ida ao amadorismo de muitas agremiações, é inevitável. Os estaduais fazem clubes mais estruturados perderem dinheiro, o que é inadmissível em uma era profissional. Torneios metropolitanos, estaduais ou regionais, podem continuar existindo para os amadores, ou para as ligas menores, por exemplo.

É isso. Não tem novidade nenhuma aqui: tudo meio óbvio, não? E por quê nada disso acontece? Cui bono?

4 comentários
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Comentários:


Comentário de: Zobaran · http://www.yougol.com.br

Muito bom!!!

Acho que poderíamos mudar o nome do esporte para críquete também. Além, é claro, de exigir que a filiação dos atletas esteja condicionada a comprovação de que fazem parte da elite brasileira e que, obviamente, são de familías europeias. Assim não tem erro.

PermalinkPermalink 07.12.09 @ 16:31



Comentário de: Matheus Cajaíba

Até acho que com a adoção dos pontos corridos o futebol brasileiro entrou no neolítico...

PermalinkPermalink 07.12.09 @ 17:13



Comentário de: Carlão

Excelente!

Viva o Futebol "Moderno"!

PermalinkPermalink 08.12.09 @ 10:36



Comentário de: William

hahaha, nunca vi tanta sugestão imbecil e elitista. Patético.

PermalinkPermalink 09.12.09 @ 12:44



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