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Dez 01

O Grêmio, a bolsa e o Cirano de Bergerac

por Equipe De Primeira15h02

por Airton Gontow

Aconteceu na manhã do último domingo, 29 de novembro, no mercado Ver-o-Peso, na bela Belém do Pará. No último dia de uma rápida viagem a trabalho, encontrei tempo para fazer compras pessoais e, claro, procurar alguns presentinhos para a família. Ao chegar a uma banca de bolsas, vi que havia duas interessantes. Uma era colorida e muito bonita. E tinha a cara da minha mulher! A outra, embora também tivesse lá a sua beleza, era menos encantadora e, definitivamente, não fazia o estilo da minha esposa!

Infelizmente, um jornalista – o jovem repórter Rafael Seixas, do jornal “A Crítica”, de Manaus, chegou um pouco antes. O rapaz descobriu as duas bolsas e decidiu que levaria uma. Olhou para mim e disse: “Eu não tenho bom gosto para este tipo de coisa. Qual você acha mais bonita?”

Meu coração bateu forte. Pensei em dar a resposta errada. Dizer que a mais bela era justamente a bolsa que eu não queria levar. O presente era para a minha mulher!

Olhei para o repórter amazonense e disse, ainda que com dor no coração: “a mais bonita, sem dúvida, é a colorida.”

Por que eu disse a verdade? A resposta é simples e até óbvia: porque era o correto, independente do meu desejo.

Penso nesta pequena história vivenciada ontem diante do dilema de qual deve ser a atitude do meu Grêmio no decisivo jogo de domingo, contra o Flamengo, no Maracanã: o Grêmio deve entrar com o time titular contra a equipe carioca, lutar com todas as suas forças para empatar ou ganhar e, indubitavelmente, dar o título de campeão brasileiro ao grande e tradicional adversário? Ou deve entregar o jogo para não ajudar a dar mais uma glória ao terrível e centenário rival?

Para mim não há discussão. O Grêmio deve jogar com toda a sua tradicional garra e matar-se em campo em busca da vitória, ainda que o Inter conquiste pela quarta vez o título brasileiro.

Não importa que o Inter tenha jogado com o time reserva no ano passado contra o São Paulo, ainda que em contexto completamente diferente, já que disputava simultaneamente a taça sul-americana; não importa que o dirigente Fernando Carvalho, não bastasse a trapalhada que fez com a história do vídeo denúncia, já tenha voltado a falar bobagens; não importa que, com mais essa conquista, o colorado gaúcho aumentará consideravelmente o seu já espantoso número de associados, venderá mais camisetas e diminuirá a desvantagem que tem em número de torcedores em relação ao Grêmio. Não importa nem mesmo a opinião momentânea da maioria da torcida gremista, que é favorável à entrega da partida.

O Grêmio deve buscar a vitória ou empate contra o Flamengo porque – apenas isso – essa é a atitude correta. Independente dos nossos desejos e sentimentos.

Como gremista, só detesto o Internacional porque o respeito como adversário. E certamente há apenas um time que respeito mais que o grande rival. Este time é o Grêmio. E por respeitar o meu imortal tricolor exijo a dedicação total na partida do Maracanã.

Além disso, convenhamos, mesmo com o quarto título brasileiro os colorados não vão poder se vangloriar por estarem em vantagem em relação ao Grêmio. Terão quatro Brasileiros e uma Copa do Brasil contra dois títulos do Brasileiro e quatro Copas do Brasil gremistas. E uma Taça Libertadores contra duas do Grêmio.

Os colorados gostam de tripudiar em cima das quedas gremistas para a segunda divisão do país, mas é justamente aí que mora a principal diferença entre os dois grandes clubes gaúchos. Por maior que seja, o Internacional não tem a dimensão épica gremista. Não tem a incrível história do goleiro Eurico Lara. Não tem um único título importante conquistado na casa do adversário fora do Rio Grande, como o Grêmio em 81, no Morumbi lotado de são-paulinos; no Maracanã, repleto de flamenguistas, em 97, e novamente em São Paulo, em 2001, na Odisséia do Morumbi, em cima do Corinthians. Não tem a Batalha dos Aflitos. O que poderia ser desonra, para nós, gremistas, é motivo de filme! Que outra torcida no mundo tem, no fundo, mais orgulho de uma inacreditável conquista na Segunda Divisão arrancada com sangue, suor e lágrimas, com sete jogadores, em um acanhado de Recife, que do título mundial, conquistado em Tóquio?

O jogo do Maracanã, com todos seus dilemas, poderá ser um novo capítulo épico na memorável história gremista. Vencer e dar o título ao Inter, apesar da maior rivalidade do país, segundo votação recente entre jornalistas esportivos de todo o Brasil. A dor de ser digno e beneficiar o inimigo. A tristeza de ouvir os rojões colorados infernizando durante toda a noite o sono dos gremistas. A tristeza – e o orgulho – de ser um Cirano de Bergerac. Ajudar o rival na conquista da mulher amada. Com bela e digna melancolia.

É preciso lutar – com garra e espada mosqueteira - no Maracanã. É melhor não dormir devido ao barulho ensurdecedor dos vermelhos, do que ter o sono estragado pela vergonha de não ter jogado com dignidade. É melhor aguentar o rival que sucumbir aos nossos mais primitivos anseios, como o de “entregar” a partida ou mentir sobre a bolsa desejada no mercado. Que atender ao grito desesperado e irracional da maioria. Vamos fazer o que é certo, Grêmio! Melhor assim, que Ver-o-Peso doendo na consciência e manchando nossa história épica e inigualável.

Airton Gontow, jornalista e cronista, cedeu o texto, publicado originalmente do Blog do Juca Kfouri, ao De Primeira

P.S – Espero que o Grêmio lute com todas as forças contra o Flamengo mas vou, como todos nós gremistas, torcer pela vitória da equipe carioca. E claro, também pelo Santo André. Já pensou se o Grêmio empata e o Inter não vence, mesmo no Beira-Rio? Seria demais para esse pobre e velho coração tricolor que, aliás, faz 48 anos de vida justamente no próximo domingo, dia 6 de dezembro....

3 comentários
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Comentários:


Comentário de: eliseu

O Grêmio vai entregar. Fim do campeonato.
Depois de tanta polêmica, pode até disfarçar um pouco. quem sabe fazer um golzinho. Mas não esperem uma "batalha dos aflitos" porque aflito mesmo, nessas horas, só os moranguinhos!

Engraçado que faz um ano que eles optaram por isso.
Mandaram reservas para enfrentar o São Paulo, diante dos mesmo argumentos de Tcheco e companhia. Vejam notícias da época. vejam a ZH. Esse papo de dignidade, decência e tals, não vai colar agora.

é triste ver o Flamengo guardar mais um título. e novamente discutível. Ganhou do Corínthians que não quis ajudar ao São Paulo e ganhará do Grêmio que não ajudará aos moranguetes.


PermalinkPermalink 04.12.09 @ 15:18



Comentário de: eduardo

e ne viadão de codido de barra ses droga

PermalinkPermalink 06.12.09 @ 17:56



Comentário de: eliseu

voltando aqui só para dizer, eu já sabia...rs

PermalinkPermalink 07.12.09 @ 13:18



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