Blitz na peixaria do Globoesporte.com
por Ana Carolina Moreno19h42
Vender o peixe da empresa é uma coisa (aliás, uma coisa infelizmente necessária), mas o Alexandre Abreu passou um pouco dos limites da sem-vergonhice.
Eis o texto que publicou no blog Conexão Gontijo na última sexta-feira (link direto):
O reconhecimento internacional da Musa do Brasileirão
A edição britânica da revista “FourFourTwo” descobriu e se encantou com a promoção “Musa do Brasileirão”. A revista dedicou uma página de sua última edição a falar sobre a promoção que agita este site. Todas as etapas da competição foram explicadas e uma foto foi para publicada para que o leitor tivesse uma completa idéia do evento, que já está virando uma tradição no futebol brasileiro. A ultima campeã foi dissecada pela publicação, que fez questão de mostrar o grande esforço das candidatas. A “FourFourTwo” é a maior multinacional das revistas de futebol em todo mundo; são seis edições além da matriz e a brasileira começou a circular no ano de 2009, podendo ser encontrada em todo o território nacional.
Estaria tudo muito bem, não fossem as incongruências que, espero, tenham sido fruto da falta de conhecimento do idioma e da situação da revista em questão. Porque me custaria aceitar que o GE necessita agir com tanta falta de rigor jornalístico.
O estilo "assessoria de imprensa", para mim, é inaceitável, mas se ele quiser, que o use à vontade. "Descobriu e se encantou"? "uma foto foi para(sic.) publicada para que o leitor tivesse uma completa idéia do evento"? "fez questão de mostrar o esforço das candidatas"? Só lamento.
Agora, mentira já é demais. E duas no mesmo texto, para distorcer os fatos e dizer que esse concurso já está virando "tradição no futebol brasileiro"?
A revista não se encantou com coisa nenhuma. Como os próprios leitores comentaram no blog do GE, a publicação ridiculariza o concurso e brinca com todos os possíveis esteriótipos brasileiros. Me diz o que Carnaval tem a ver com a Musa do Brasileirão? A própria linha fina, um dos elementos de primeira leitura da página, usa a expressão "a frankly exploitive competition", que em português se traduz por "uma competição francamente exploratória". Outro elemento de destaque é a legenda no topo da página: "E o vencedor é... todos os machos com sangue quente do mundo inteiro". Não é a mulher que vence, Alexandre Abreu.
Ela só não é mais direta para não atacar frontalmente o absurdo machismo praticado pelo Globo Esporte nessa competição, que para começar nem é uma competição. O regulamento diz claramente que é a equipe do GE quem escolhe as finalistas, ou seja, a mocinha inocente que compra mil biquinis com as cores do suposto time do coração e pede para os amigos produzirem ensaios sensuais caseiros é só massa de manobra para aumentar a audiência do site. A vencedora do concurso em 2007, por exemplo, já tinha feito curso de manequim, títulos de miss e acumulava no currículo aparições na novela global Marmelad... quero dizer, Malhação.
Mas voltemos à reportagem... Se por "bizarre challenges" (desafios bizarros) Alexandre de Abreu presume que o repórter Celso de Campos Jr. quis explicar o concurso passo a passo, para que o leitor tivesse a idéia completa do evento, eu diria que seria só uma versão resumida, mas que dá sim para pintar a imagem da competição. Os destaques da reportagem, que afirma que não é preciso muito mais do que um top rasgado para ganhar a contenda: um torneio de bambolê, usado "justificar o zoom de um minuto em cada garota chacoalhando os seus bens", o talento de cada candidata em sambar sobre salto alto e biquini característico da fantasia carnavalesca (é essa parte da tradição futebolística?), e, claro, o desfile em traje de festa, ainda que o autor ache estranho que a maioria delas pareça mais uma assistente de palco de um mágico do que uma mulher vestida para uma festa elegante.
Pelo nome, você já deve saber que Celso de Campos Jr. é brasileiro. Ele é jornalista formado pela Cásper Líbero e, entre outros trabalhos, publicou uma biografia de Adoniran Barbosa, depois de três anos de pesquisa. Celso é correspondente da 4-4-2 inglesa há anos, além de colaborar com outras publicações internacionais sobre futebol. Portanto, ele conhece o tema, conhece o público da revista lá fora e sabe muito bem que imagem as pessoas têm das brasileiras: mulheres pouco cultas que usam pouca roupa porque aqui faz calor e também porque é a única maneira de elas chegarem a ser algo na vida. Não é à tôa que ele guarda para o final de seu texto as aspas da mãe da vencedora da última edição: "esse título mudará nossas vidas", para depois concluir que é ainda mais chocante ouvir da menina vencedora que ela é virgem e está se guardando para o casamento. Tanta hipocrisia depois de tanta submissão choca as pessoas do mundo desenvolvido. Mas parece que ao GE só importa vender seu peixe. Seja ele fresco ou podre.
Abaixo a página escaneada da reportagem.

PS: A Four-Four-Two, apesar de ter bastante renome internacionalmente, bem que tentou publicar uma edição verdadeiramente brasileira, mas hoje se limita a circular traduções de textos produzidos lá fora.
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Assim como é lamentável que uma empresa do tamanho da Globo precisasse desse tipo de masturbação. Fosse uma empresa pequena, seria até compreensível - indefensável, mas compreensível.
