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Jun 05

Quantos mais terão que morrer?

por Felipe Lessa01h09

Na noite de quarta-feira, uma briga entre torcedores de Vasco e Corinthians terminou com um assassinato e oito pessoas feridas. Cerca de 15 ônibus da Força Jovem do Vasco passavam pela Marginal Tietê, na capital paulista, quando se depararam com um ônibus e alguns carros de corinthianos.

Sem o reconhecimento de “torcida organizada”, não havia escolta para o grupo pertencente a Gaviões da Fiel, denominado Movimento Rua São Jorge, parado por outro grupo de policiais para uma revista – no momento em que também se dirigiam da zona leste ao Pacaembu.

Foi o suficiente para que paus, pedras e barras de ferro estivessem em punhos de “torcedores” para um combate brutal, supostamente iniciado por vascaínos que correram em direção dos donos da casa, em número bem menor. Os 20 batedores da Polícia Militar, que realizavam a escolta, afirmaram que nada puderam fazer até a chegada de reforço. Realmente, o contingente policial era pequeno para acalmar e controlar os mais de 500 vascaínos ali presentes.

Um promotor afirmou que o ataque foi realizado pelos corinthianos. Ele deveria nos responder a razão de não haverem disparos da calibre 12, portada pelos mesmos – já que a policia paulistana não realiza escolta para quem não reconhece como torcida. No mundo das organizadas, se a polícia resolve não escoltar, é cada um por si. A qualquer momento pode ser realizado um ataque rival.

Com isso, o despreparo policial permitiu 15 minutos de violência e um saldo trágico. Algo que torcedores comuns, daqueles que vão ao estádio apenas para ver futebol, jamais teriam vontade de experimentar. Mas que os organizados sabem que pode ocorrer a qualquer momento. Os policiais também.

No final do jogo, ainda houve tempo para que um dos ônibus da “torcida” carioca fosse incendiado. Ficou no prejuízo o motorista que, sem seguro e ainda pagando as parcelas do veículo, não sabe o que fazer da vida.

A promotoria pública de São Paulo agora fala em jogos com torcidas únicas. Mas seria essa a solução? Imagino que um torcedor do Vasco, não pertencente a uma organizada, jamais iria ao Pacaembu com a intenção de defender a bandeira cruzmaltina na porrada, antes ou após eliminação na Copa do Brasil. Simplesmente vive longe, ou até na própria São Paulo, e gostaria de ver seu clube em campo. Eles, e outros tantos torcedores que não querem brigar, para variar serão penalizados? A secretaria de segurança pública paulistana também vai ser investigada? Se a corda arrebentar, dessa vez que não seja somente no lado mais fraco.

Mortes no futebol brasileiro
A violência relacionada com as bancadas do futebol brasileiro chegou ao extremo no dia 17 de junho de 1988. Minutos depois de sair de um bar, próximo ao Parque Antártica, Cléo Sostenes dirigia-se até a sede da torcida Mancha Verde do Palmeiras. Precisava realizar um telefonema, deu alguns passos e foi atingido por três tiros. Os suspeitos do assassinato eram integrantes da Gaviões da Fiel, que antes do ataque teriam assaltado o veículo utilizado para cumprir a missão.

No estádio Nicolau Alayon, localizado na Zona oeste da capital paulista, em janeiro de 1992, ocorre a primeira morte dentro de um estádio. Integrantes da Independente, do São Paulo, arremessaram uma bomba contra a torcida do Corinthians. Rodrigo Gaspari, de 13 anos, morreu ao ser atingido. Ele assistia seu time pela Copa São Paulo de Juniores.

No Pacaembu estádio, pelo mesmo torneio, em 1995, houve a maior briga entre torcidas organizadas do futebol brasileiro. São-paulinos indignados com a perda do título invadem ao gramado para brigar contra palmeirenses que comemoravam a conquista. Uma batalha campal como jamais foi vista em estádios brasileiros é traçada.

Integrantes da torcida Independente aproveitam o grande número de entulhos localizados na região onde estavam para carregarem-se de munição. Mastros de bandeiras também são utilizados no conflito que deixa como vítima o tricolor Marcio Gasparim.

No final dos anos 90, um jovem morreu ao ser atingido por uma bomba após briga entre atleticanos e coxas, em um terminal de Curitiba. Em 2007 um integrante da Jovem Fla morreu após emboscada das torcidas organizadas de Vasco e Botafogo.

No decorrer dos anos, uma das principais bandeiras do Ministério Público foi a extinção das organizadas e a proibição das faixas nos estádios de diversos estados. As organizadas voltaram e os atos violentos continuam acontecendo até hoje em grandes centros como São Paulo, Curitiba, Belém, Natal, Porto Alegre, Recife, Florianópolis, Rio de Janeiro, entre outros.

Falha policial
Em 2005, um integrante da Leões da TUF, do Fortaleza, foi assassinado após perseguição proporcionada por integrantes da torcida Fúria Jovem do Botafogo. O fato ocorreu no Rio de Janeiro, e integrantes da torcida afirmam que a polícia mudou os planos na hora da volta. Um integrante da facção carioca também foi morto na troca de tiros.

São diversas as ocasiões em que integrantes de torcidas organizadas seguem integrantes de grupos rivais para efetuar disparos. Vale deixar a questão: Como essas armas da torcida visitante entraram no Rio de Janeiro? Se a polícia permitiu a troca de tiros na estrada, algo que ocorre constantemente nesse estado, a escolta foi falha? A secretaria de segurança fluminense deveria investigar a questão de “acordos” entre policiais e componentes de organizadas.

Agressões
Não existem estatísticas que provem o contrário, porém, durante conflitos de torcidas é maior o número de feridos ou o detidos? Em uma das ações policiais, uma torcedora do Paraná Clube perdeu a visão – após incidente ocorrido na saída da Arena da Baixada.

Outro incidente que mostra operação policial questionável envolve faixas dos torcedores.Entre os casos mais conhecidos, a ocasião em que policiais paulistanos revistavam a faixa de uma organizada do Cruzeiro, no início dos anos 2000. Não permitiram a entrada da mesma no estádio e horas depois o material apareceu na mão de torcedores do Corinthians, supostos integrantes da Gaviões da Fiel. Um caso similar ocorreu também com o desaparecimento de uma faixa da torcida do São Paulo, na mesma época, durante embarque em um aeroporto da cidade.

Entrevista
Apesar da Guarda Popular do Internacional não ser uma torcida organizada, passa pelos mesmos problemas. Ao viajar, o movimento de torcedores independente de facções depende de escoltas e precisa lidar com o desgosto de torcidas rivais. Por isso, entrevistamos Hierro Martins, um dos organizadores do grupo. Ele fala sobre alguns problemas relacionados as bancadas de futebol e uma possível solução.

DP - Existe solução para a violência no futebol?
Hierro - Existe, sim. E a solução começa por cada um de nós. A conscientização de que violência no futebol não precisa existir é o primeiro passo a ser dado por todos que vivem o futebol, principalmente as lideranças de torcidas - pra ser a melhor, não precisa ser a mais violenta!

DP - Acha que o fim das organizadas vai acabar ou amenizar a violência?
Hierro - Podem acabar com as organizadas. Vão somente acabar com o comando, vão acabar com o elo aliado contra a violência, mas as organizadas não acabarão, as pessoas vão continuar organizadas dentro do estádio de futebol, organizadas e sem comando, onde o que vale é quem dá mais porrada, e não o que um líder recomenda.

Temos o maior exemplo disto no Rio Grande do Sul, onde as maiores torcidas não são organizadas como entidade, mas se organizaram e se agrupam dentro do estádio. No RS, os estádios estavam propícios a se tornarem campo de guerra. Antes das primeíras vítimas fatais aparecerem, a conscientização anti-violência falou mais alto.

DP - Voce falou no elo aliado contra a violência. E nos casos em que esse elo não pretende ser um aliado contra a violência?
Hierro - Se o elo não é aliado contra a violência, ele não tem que existir !

DP - Qual o papel da polícia e poder público para contribuir com a violência?
Hierro - Eu incluo na sua pergunta o papel da grande mídia também. Se ela publicasse e tornasse informativo toda realidade que acontece quando, por exemplo, o poder público não pune quem tem que ser punido, a polícia não previne. Somente dá borrachada

Tem muitas outras coisas que todos nós que vivemos o futebol sabemos que estes órgãos continuam falhando e deixando acontecer errado. A partir do dia que a grande mídia noticiar e informar as falhas e conivências - torcedor escoltado largado na mão de torcida inimiga, faixa de torcida recolhida e depois vendida pra torcida rival e etc - de quem é pago pra prevenir e proteger, toda sociedade saberá e cobrará muito mais. A generalização de marginal não caberá somente ao torcedor. Extorsões, conivências, cacetada e spray de pimenta não conscientiza, só gera violência.

DP - Comente algumas das ações da popular que ajudaram a diminuir os atos de violência
Hierro - A principal de todas foi quando na véspera de um clássico, num churrasco no pátio do Beira-Rio, fomos alvo de disparos de arma de fogo por torcedores rivais. No momento havia um mutirão de preparativos para o clássico (Grenal), onde tinha mulher e crianças ajudando pra fazer a festa do dia seguinte.

O momento era de cólera geral. Passados 15 minutos dos disparos, 4 ou 5 motos chegando com armas pro revide. Era uma coisa que até então nem tinha que perguntar nada para ninguém. Tinha que ir no rival e responder do mesmo jeito. Os presentes esperavam isso, as pessoas no clube sabiam que o barril de pólvora iria explodir, o próprio rival esperava e se escondia com medo da resposta.

Um momento de lucidez caiu sobre 3 de nós e surpreendentemente decretamos: "Ao primeiro disparo contra o rival, acabamos com a torcida !" no dia do clássico apresentamos uma faixa de 25 metros de comprimento - A TORCIDA QUE NÃO USA ARMAS! Fizemos uma passeata na avenida principal do estádio, começamos em 100, depois 150 torcedores. Quando chegamos no portão de acesso do nosso setor já éramos 5 mil torcedores. Todos querem a paz nos estádios, basta praticar!

DP - Já passaram algum problema por evitar brigas?
Hierro - Eu respondo processo no fórum de Porto Alegre, por ter evitado de um torcedor rival encontrado no setor ser espancado talvez até a morte. A suposta "vitima" e o poder público me acusam de não ter sido cordial com o torcedor rival e ter tirado ele do meio do espancamento com força bruta!

DP – Deixe uma mensagem aos leitores do blog
Hierro - A cada dia que se notícia um conflito entre torcidas, eu me entristeço, fico triste. Essas pessoas não deveriam de se orgulhar pelo conflito, por terem participado, por terem colocado o dito "inimigo" pra correr. Elas precisam repensar suas vidas e abrir os olhos para o buraco que estão jogando esta "classe" (torcidas). Nós mesmo, os torcedores, estamos nos derrotando. Em um conflito da torcida "x" contra a torcida "y" não tem vencedor. Só derrotados!

13 comentários
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Comentário de: Dimas

É muito triste que ao procurar noticias sobre a rodada do campeonato vc se depare com fatos lamentaveis como o que aconteceu ontem na semi-final da copa do Brasil, até quando a violência vai imperar, até quando serão tratados como inimigos pessoas as quais nem se conhecem mas por usarem camisas de outra equipe são tidos como inimigos, lamentável.

PermalinkPermalink 05.06.09 @ 02:17



Comentário de: Thiago Campos

Grande Felipe... Parabens por suas colocações e a entrevista foi de arrepiar, Parabens ao torcedor...

PAZZZZZZZZZZ

PermalinkPermalink 05.06.09 @ 02:20



Comentário de: Navarro

Muito boa a matéria, agora, o mais importante é a consientização de cada torcedor.

PermalinkPermalink 05.06.09 @ 02:56



Comentário de: Glauco

Felipe, bele texto, só uma pequena correção. Em 1992, o jogo São Paulo x Corinthians não foi no Pacaembu e sim no estádio Nicolau Alayon, de propriedade do Nacional da capital, que hoje perambula na terceira divisão, se não estou enganado.

É um estádio com capacidade para uns 15 mil torcedores, no máximo, e que fica em frente aos centros de treinamentos do São Paulo e do Palmeiras, na Av. Marquês de São Vicente, na Barra Funda, zona oeste de sampa!

No resto, muito legal o texto!

Abs

PermalinkPermalink 05.06.09 @ 10:49



Comentário de: Natália Carvalho

pra ser a melhor, não precisa ser a mais violenta! [2]

PermalinkPermalink 05.06.09 @ 11:20



Comentário de: Felipe Lessa Email

Obrigado pelas informações, Glauco.
Acrescentadas

PermalinkPermalink 05.06.09 @ 15:41



Comentário de: Leonardo Bonassoli · http://www.laboffline.blogger.com.br

o jogo de 1995 foi por uma competição chamada Super Copa dos Campeões de Copa São Paulo, que foi realizada no meio de ano. O jogo era preliminar de um Corinthians e Bragantino, abertura do Brasileirão. Depois da confusão, o jogo de fundo teve que ser adiado.

PermalinkPermalink 06.06.09 @ 00:40



Comentário de: Skinhead_ABC · http://www.gaviões.com.br

Sem palavras para o ocorrido, covardia e hombridade são opostos. Quem morreu mal sabia o que estava acontecendo. Querem se matar, se matem, mas quem não quer brigar, respeite a opinião. Covarde de mais a atitude da torcida vascaína. 15 onibus contra 1? E ainda a mídia vem dizer que foi armação dos corintianos? E a polícia paulista "passando pano" para carioca... Lamentável...

PermalinkPermalink 06.06.09 @ 00:53



Comentário de: fernanda · http://www.buscalink.com.br

Gostei da sua colocação

PermalinkPermalink 08.06.09 @ 19:10



Comentário de: Davison félix · http://www.forcajovem.com.br

Meu caro, procure se informar, apure os fatos e seja imparcial. A força jovem sofreu uma emboscada, foi alvejada com pedras, bombas e até tiros, só então, alguns integrantes da torcida desceram e se defenderam. Todos lamentamos pela morte do corintiano. A força jovem não tem histórico de iniciar brigas, mas sim de nunca fugir delas!

PermalinkPermalink 08.06.09 @ 23:19



Comentário de: Felipe Lessa Email

A Força realmente é da paz. O que houve então durante a morte do Germano, um dos líderes da Jovem Fla? Os flamenguistas, também em minoria, resolveram na mão atacar furia e força jovem com paus e pedras para mostrar o quanto eram bons de briga? Mas Furia e Força espancaram o rapaz até a morte para mostrar que não toleram torcidas agressivas. Isso para não falar de outras situações, como a briga com a Jovem do Santos, no Rio de Janeiro. Ou alguma outra qualquer. Mas fique tranquilo, não estou isentando a torcida do Corinthians também. Infelizmente, as duas (dessa vez sem ironia) foram vítimas de mais uma falha de segurança.....daquelas que sempre acontecem e ninguem fica sabendo.

Bom, chegou a hora de voces, torcedores organizados, deixarem de hipocrisia, assumir a culpa de cada um, sem deixar a policia se isentar disso. Simplesmente soltaram duas turmas que se odeiam e falaram: SE MATEM. E vocês ainda brigando para ver quem é mais santo...aproveitem para falar a verdade. abraço

PermalinkPermalink 09.06.09 @ 17:34



Comentário de: diego

o lider da guarda popular do inter falou tudo que bom que éssa torcida pensa assim e pelo que sei no sul a torcida mais violenta é a do gremio mais a mais apaixonada é a do inter os cantos déssa guarda popular ai são muito boms de puro amor ao clube´e sem duvida é uma das melhores torcida do brasil e não a melhor e eu não sou colorado e sim flamenguista mais reconheço que eles a guarda popular do inter é shom de bóla a do gremio lá léva a paixão mais pro lado da violencia

PermalinkPermalink 20.06.09 @ 19:55



Comentário de: luis

INTER TRAGO E CHURRASCO

PermalinkPermalink 20.06.09 @ 20:16



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