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Mai 14

A triste felicidade do serralheiro

por Felipe Lessa00h42

Acostumado a trabalhar de serralheiro, estudar a noite e bater peladas no final de semana, em 2008, Max teve três meses de Cinderela no futebol paranaense, no ano seguinte. Sua história começou anos antes, quando morava na região das vilas de Curitiba. Sem chances para se profissionalizar após carreira de juniores, tornou-se jogador da Suburbana, tradicional e carismático campeonato de futebol amador.

No Trieste, clube da região italiana da cidade, pôde se manter entre as pelejas e conquistou sua maior façanha: jogar com Leomar. Veterano, com passagens por Seleção Brasileira, Atlético Paranaense, Sport Recife e futebol internacional, o cabeça de área ensinou e aprendeu na convivência com Max, humilde meia cancha. “Foi em 2007. Potencialmente ou tecnicamente, ele me ensinava. Mas na determinação de ter que trabalhar duro, estudar muito e ainda batalhar pelo tempo para jogar futebol...não tem preço”, dizia o jovem proletário pretendente de atleta.

Um ano depois, os sonhos praticamente acabaram para o ídolo companheiro de time. Leomar acertou para jogar no Sobe Iguaçu, inimigo de bairro da esquadra triestina. E se a situação de Max parecia ruim, se deteriorou para o garoto no decorrer do tempo. A semifinal da suburbana de 2008 foi um clássico italiano, apelido do derby entre as duas equipes de Santa Felicidade.

“É um daqueles momentos em que o bairro inteiro para. Esqueçam de restaurantes, padarias, bares e quitandas de vinho. Era obrigação de todos irem ao campo. Seja alvinegro, seja tricolor”, deixa claro o meio campo. Logo depois, a decepção. “Nós perdemos. Ele [Leomar] dominou o jogo. Cara, eu fiquei perdido. Não era um piazinho qualquer me dando um vareio. Era o jogador que me deu a sobrevida. Acabou”, completa.

Sobre o ombro do então treinador do Trieste, Jonas Silva, Max chorou. Disse que havia passado no vestibular de educação física e definitivamente abandonaria o futebol. Desistiu de seu sonho de criança e tomou uma drástica decisão: “Jamais voltaria a trabalhar em serralheria. Eu me sentia pobre, desvalorizado. O verdadeiro perdedor”.

Quase dois meses depois, na sarjeta, surge uma gorjeta. A chance de mostrar seu futebol. “O professor me ligou. Disse eufórico que o Rio Branco havia fechado parceria com o Trieste e que eu estava obrigado a ser o camisa 10”. Mas ele não estava apenas na euforia. O jovem que almejava o fracasso, novamente, sonhou em olhar para o mundo por cima. “Nunca havia me sentido assim. Profissional!”.

Na tradicional equipe parnanguara, fundada em 1913, veio também a artilharia do campeonato estadual 2009. A responsabilidade por articular jogadas. Do serralheiro, à principal abelha carregadora de mel riobranquista. Líder em campo na estréia do Paranaense, contra aquele que Max chamava de poderoso Atlético Paranaense. Com um futebol envolvente, chegou a marcar 3 em uma partida contra o Iraty, fora de casa.

Max acreditava que seria vendido a um grande clube. Poderia, quem sabe, jogar no Corinthians. Deu entrevista para jornal grande, ensaiou alguns autógrafos pela cidade histórica e até fez pose para foto. Porém, seu futebol morreu. Seu clube livrou-se do rebaixamento apenas na rodada final. Seu contrato não foi renovado. No último salário, sequer viu a cor do dinheiro. Voltou para casa, perdeu a vaga na universidade e dizem que foi obrigado a trabalhar como serralheiro. Tristeza perpétua na Santa Felicidade, não se acha nem um telefone do ex-atleta para confirmar a notícia de como tudo terminou.

*O post é o primeiro de uma série de perfis lado B do aconchegante futebol mundial

8 comentários
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Comentários:


Comentário de: guilherme voitch

boa piá.

PermalinkPermalink 14.05.09 @ 01:07



Comentário de: Leonardo Bonassoli · http://www.laboffline.blogger.com.br

Cara... que história!!!

PermalinkPermalink 14.05.09 @ 01:36



Comentário de: Luciano Claudino · http://www.jogolimpo.com

ótimo texto, grande jornalismo!! parabéns!

PermalinkPermalink 14.05.09 @ 09:51



Comentário de: Zobaran · http://yougolbr.blogspot.com

excelente texto. Leomar jogou no Botafogo também!

PermalinkPermalink 14.05.09 @ 11:19



Comentário de: Fabricio Grzelak

Espetacular, tem que ter mais matérias assim.

PermalinkPermalink 15.05.09 @ 23:15



Comentário de: Carlão

Parabéns... Excelente texto! e que história hein...

PermalinkPermalink 16.05.09 @ 12:56



Comentário de: Carlão

Parabéns! Excelente texto. E que História hein...

PermalinkPermalink 16.05.09 @ 12:57



Comentário de: jr

WoW.
q historia.

PermalinkPermalink 21.05.09 @ 18:57



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