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Mai 03

A saga de uma torcida apaixonada - para aquecer

por Equipe De Primeira16h49

Guilherme Voitch

Meia-noite de sábado. Parece até dia de jogo. Mais de mil atleticanos já se concentram em frente à sede da Torcida Organizada Os Fanáticos para embarcar rumo a São Caetano, onde o Atlético faz a final do Campeonato Brasileiro com a equipe local. Gritos de guerra surgem a cada cinco minutos nas rodinhas embaladas por cerveja e pelos famosos tubões, mistura de coca-
cola ou outro refrigerante com cachaça ou vodca. Surgem as primeiras previsões, otimistas, é lógico.

É uma hora da manhã quando o pessoal começa a entrar nos ônibus. São mais de trinta que partem pela Rua Brasílio Itiberê Cabeças na janela, socos na lataria pra marcar o ritmo e bandeira ao vento. Começa a caravana dos atleticanos rumo ao campo adversário. Um torcedor com o rosto pintado de rubro-negro grita com um coxa-branca que só ele vê : “Voltamos domingo, com a faixa no peito.”

O rival, aliás, parece estar em todos os lugares. Pode estar ali na esquina pronto para arremessar pedras contra o ônibus ou mais adiante, pensando em algum jeito de furar os pneus. O hino pinkfloydiano é logo entoado como um mecanismo de defesa.

Mas ninguém atira pedras e nem fura os pneus. O que começa a bater é o cansaço. Os atleticanos se acalmam. Ajeitam-se nas poltronas e , de gole em gole, surgem histórias do passado. Passado nem tão distante assim. Em vez de Jackson e Cireno, Pateta e Pirata. Ratinho, Moreno, Fião e João Carlos Cavalo. Pequenos carrascos de uma época de heróicas vitórias contra Umuarama, Iraty e Matsubara em um Pinheirão sujo, frio e molhado. Ou das mais recentes desilusões. Jogos em que o Atlético Mineiro, Botafogo e Corinthians acabaram com o sonho, que estava ali tão próximo de ser conquistado. O sonho de conquistar um campeonato nacional, de ser reconhecido como o maior do Brasil, o melhor do Brasil. Os atleticanos adormecem e sonham com a conquista que pode, dali a doze horas,tornar-se realidade.

Primeira revista

Às 8h da manhã os ônibus param na estrada, próximos a um posto de gasolina. A PM paulista revista um a um. São mais de três horas parados. Tempo de mais tubões serem consumidos. A caravana prossegue e é quase meio-dia quando a caravana entra em São Paulo, escoltada por batedores da Polícia Militar. Os atleticanos novamente se espremem na janela, querendo mostrar para a maior cidade do Brasil que o maior time brasileiro é o deles, é o Atlético . A recepção não é das melhores e os paulistanos mostram camisas do Corinthians, São Paulo, Palmeiras e, de vez em quando, do São Caetano. No alto de um prédio aparece uma bandeira atleticana.

Começa a chuva e os ônibus chegam em São Caetano. Alguns torcedores em bares beijam a camisa, alguma do Azulão e tantas outras dos times da capital paulista. Nem parece que a cidade tem seu time na final do Campeonato Brasileiro. O clima é de festa sim. De alegria. Mas nada lembra a angústia e a tensão que tomaram conta de Curitiba no domingo anterior. Parece que São Caetano vai receber um rodeio, um show country ou algo assim.

Os Fanáticos desembarcam e faltando duas horas para o início da partida já ocupam seu lugar. Sabendo do poderio da torcida rubro-negra, a diretoria do São Caetano coloca duas caixas de som direcionadas em frente aos atleticanos. O hino do time é repetido exaustivamente. Cansados, famintos e debaixo de chuva os atleticanos silenciam. Alguns rezam, pedem proteção para o time. Geninho entra em campo e sua presença anima a torcida.

Quase uma hora depois as duas torcidas entram em campo. Festa dos dois lados. O jogo começa e já tem gente chorando. Alguns fazem o sinal da cruz. E aí que começa a diferença. A torcida do São Caetano se senta. A do Atlético canta como se estivesse na Baixada. Os torcedores do Azulão olham meio assustados aqueles 2.400 torcedores segurando faixas vermelha e pretas, cantando refrões em um portunhol alucinado.

A corrente

Acaba o primeiro tempo e alguém ouve no rádio que mais de 10 mil pessoas se acotovelam em frente a um telão na Praça do Atlético. “O pensamento positivo deles ajuda”, diz um torcedor de terço nas mãos.

De quando em quando alguém grita: “Só 45 minutos. Só 45.” O time volta e o jogo recomeça. O São Caetano pouco cria, mas ninguém se arrisca a comemorar por antecipação. O clima de indefinição remete aqueles tantos “quase” que a torcida já viveu. 20 minutos do segundo tempo. Fabiano recebe a bola e avança pela esquerda. O cara do terço na mão canta a jogada: “Chuta Fabiano. O campo está molhado.” O lateral obedece. O goleiro do São Caetano solta a bola no pé de Alex Mineiro, que só empurra. O que se vê na seqüência é um misto de alegria, paixão, alívio e loucura. Uma somatória de sentimentos que só o futebol e, nesse caso, só o Atlético é capaz de criar.

A torcida acompanha o restante do jogo apreensiva. Não por medo do time azul que parece perdido em campo, mas pelas tantas vezes que o Rubro-Negro perdeu para ele mesmo, para seus próprios defeitos. O Atlético troca passes e a torcida do São Caetano fica meio sem entender como aqueles 2.400 torcedores podem cantar tão alto.

Os vinte e cinco minutos finais parecem repassar os 78 anos da história do Atlético. O juiz apita. Tem gente caindo das arquibancadas, chorando, agradecendo aos céus e ligando para o pai. Os jogadores sobem pelo alambrado.Gustavo chega ao topo e grita com a torcida, repetindo o gesto que Oséas imortalizou na antiga Baixada em uma vitória contra o Coritiba aos 47 minutos do segundo tempo.

Em êxtase, os Fanáticos embarcam nos ônibus. A torcida do São Caetano aplaude, cumprimenta e tira foto dos rubro-negros pendurados na janela. Alguém puxa um coro de “São Caetano eu te amo”.

Os atleticanos vão embora com a certeza de que a cidade virou um pouco rubro-negra também. Os aplausos de São Caetano dão lugar às pedradas em São Paulo. Não importa. Nada importa. Nem o ônibus que quebra e faz os torcedores perderem o discurso de seus heróis na Baixada. Os Rubro-Negros desembarcam e rumam para a casa sabendo que as histórias dos Patetas e dos Piratas e as histórias dos “quase” são só histórias. São só passado. O presente é do Atlético. O campeão brasileiro de 2001.

O repórter Guilherme Voitch viajou em um dos 30 ônibus da torcida atleticana.

*Originalmente publicado na Tribuna do Paraná em 27-12-2001

5 comentários
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Comentário de: Paulo

ta e dai ?

grandes merda reproduzir um texto publicado em 2001.

PermalinkPermalink 03.05.09 @ 18:56



Comentário de: Equipe De Primeira Email

grandes merdas é ler e reproduzir um comentario otario que se repete faz uns 10 anos! abçs, felipe lessa

PermalinkPermalink 04.05.09 @ 00:14



Comentário de: Paulo

porque sera que o comentario se repete.

seria pela qualidade dos posts ?

falta de conteudo / criatividade ?

saudosismo....

vai ver é por isso que o numero de comentarios e posts aqui no de primeira, que ja foi um grande blog, diga-se de passagem, só cai.. a cada dia que passa.


PermalinkPermalink 05.05.09 @ 23:06



Comentário de: fagner · http://www.interney.net

o time perde aí tem gente que fica reclamando.

PermalinkPermalink 06.05.09 @ 00:23



Comentário de: Juarez Villela Filho · http://www.furacao.com

Emocionante. Estava de "responsável" por um dos ônibus e muito tenso e tendo que supervisionar várias coisas. Me caiu a ficha mesmo na estrada quando jantamos no "Fazendeiro" e vi no Fantástico a festa em frente a Baixada. Lágrimas no olhos e a confirmação: SOMOS CAMPEÕES BRASILEIROS. Parabéns pelo belo texto.

PermalinkPermalink 06.05.09 @ 10:41



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