Nietzsche, o eterno retorno e o futebol
por Ricardo Sabbag10h10
Cristovão Tezza
publicado hoje na Gazeta do Povo

No último domingo, pela manhã, deixei prontinha uma bela crônica falando sobre Nietzsche, a teoria do eterno retorno e sua relação com o futebol – e, é claro, a vitória espetacular do Atlético sobre o Coritiba, o que já teria lhe garantido a taça por antecipação. Imaginei entrevistas alegres e calorosas no final do jogo, antecipei a festa aqui em casa e a comemoração com os vizinhos. Fiquei calculando até o que ia dizer ao dentista coxa-branca, que, um ano atrás, usou a broca como vingança, enquanto eu, amarrado na cadeira, não podia responder.
Texto pronto, feliz da vida, foi só abrir a cerveja e esperar o jogo. Bem, antes de falar da partida vou retomar um pouco o paralelo que tentei fazer, mesmo com a cabeça inchada – e não mais de cerveja. O filósofo Nietzsche esboçou o conceito de “eterno retorno”, que, numa síntese leiga, é a ideia de que a vida repete sempre os mesmos fatos e sensações e essa repetição eterna nos limita. Talvez uma boa explicação didática possa ser encontrada no futebol, já que as partidas não funcionam como entidades isoladas – aliás, ninguém dá bola para amistosos. O que interessa mesmo é a cadeia dos campeonatos, a dura sequência de jogos em que se contam pontos para a vitória final. O ciclo dos torneios tem assim o poder de controlar o tempo, medi-lo e organizá-lo em temporadas que eternamente se repetem. Porque, também no futebol, a vida continua e, conforme a surrada mas sempre útil sabedoria popular, nada como um dia depois do outro.
No ano passado, o Atlético ganhou o jogo e perdeu o campeonato. Neste ano, perdeu o jogo, mas pode ganhar o campeonato. Aliás, tenho certeza absoluta de que vai levantar a taça, depois de um longo tempo de sofrimento – é a lei do eterno retorno, misturando um pouco a teoria do filósofo com o desejo do torcedor. Mas, como nada é fácil, ainda teremos de encarar amanhã o Corinthians de aperitivo, que vem embalado com o gol do Ronaldo – por falar em eterno retorno –, o gol mais bonito dos últimos tempos. E na Copa do Brasil cada partida é uma batalha quase irremediável. Pode ser o grande momento para o Atlético se centrar, um momento épico (como aliás o momento que os coxas devem ter vivido domingo passado). Sinto que a equipe parece sempre cair mais por falta de equilíbrio emocional que por carência técnica, e transparece ainda uma indecisão sobre qual é afinal a formação titular do time. O problema é que no futebol parece que todos os santos são de barro, e é para eles que temos de rezar e sofrer durante o jogo. E vejam só, pessimistas: continuamos em primeiro lugar.
Pois eu ia comentar o Atletiba. Mas com o espaço chegando ao fim, melhor dizer das vantagens do romancista sobre o cronista. Aquele cria a realidade; este se arrasta atrás dela, escravo fiel. E a realidade digamos que está mais à frente, domingo que vem, quando se fecha um ciclo.
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Comentários:
Nietzsche e futebol juntos é tão inusitado qto perfeito.
Ontem, um belo jogo.
Confesso que fiquei muito assustado com o furação (aliás, que bela torcida). Envolveu meu time de maneira arrebatadora no 1º tempo.
Começou o 2º na mesma freqüência, fazendo-me imaginar uma goleada histórica. Claro q a parte física acaba pesando, pois manter o ritmo aplicado no 1º tempo durante todo o jogo é qualidade concedida apenas aos que usam substancias proibidas.
Logo, o fôlego do Furacão diminuiu e o campo foi cedido ao Corinthians.
Mais emoção ficou guardada para o 2º jogo!
Boa sorte a todos!