Quando perder não dói
por Ana Carolina Moreno11h45
Dá até um certo alívio, entende?
Quero dizer, é claro que perder não é bom. É uma merda. Todo mundo lá no estádio, todos os meus amigos – os que não são bundões e compraram ingresso a tempo, é claro. Eu aqui, tendo que acompanhar a partida de longe. Só podendo escutar o hino pelo blip.fm. Tendo que ganhar de um a zero sem poder gritar e ainda precisando saber tudo pela internet, com no mínimo 15 segundos de atraso. O lag, aliás, é outra merda.
Mas poderia ter sido pior. Poderíamos ter conseguido a vantagem no primeiro jogo e a jogado fora em três pênaltis como na semi-final do ano passado. Poderíamos ter perdido a cabeça e reencenado um show de horrores como o de Diego Souza. Que, aliás, se não um punição rigorosa pelo surto psicótico que teve, pelo menos deveria passar por um tratamento psicológico. Se trabalhasse em qualquer outro campo de atuação, seria demitido pela desproporcionalidade de sua reação. As circunstâncias que afetam o futebol (salários, expectativas, câmeras etc) diferenciam essa de outras profissões. Mas alguma conseqüência tem que ser aplicada, nem tanto pela exemplaridade, mas porque esse comportamento está totalmente fora do socialmente aceitável.
Enfim, o domingo foi uma brisa perto do sábado. Sinto pelos palmeirenses que o jogo tenha sido tão atribulado quanto a semi-final de 2008. Se no ano passado eles se deleitaram com o resultado, dessa vez ficaram com o palito mais curto. E correm o risco de tirar férias forçadas até o Brasileiro. De qualquer maneira, até domingo passado eu achava que todo clássico ia virar um espetáculo de esquizofrenia e embrulhar meu estômago. Mas ontem me provaram que pode ser um jogo calmo, com vencedores e perdedores, rivalidade saudável e respeito mútuo.
Viu como poderia ter sido pior?
O São Paulo perdeu ontem não porque faltou André Dias e Rogério Ceni. Perdeu porque não quis ganhar. Na falta de espírito de equipe, sobrou gente querendo a faixa de herói. E chutando a esmo. Perdeu também porque Ronaldo estava do outro lado. Esse sim foi o único herói. Sem Ronaldo, o jogo duraria todos os 90 minutos para o qual estava programado, e não seria encerrado bruscamente depois do primeiro gol. E provavelmente acabaria em empate, o que talvez seria pior, porque aí a bola no travessão do Borges viraria outro “e se...?”.
Desses já tenho uma lista quilométrica, da qual cito, como exemplo aleatório, o item “e se o Roberto Carlos não estivesse preocupado com a meia naquela cobrança de falta no jogo contra a França?”. Mas poderia ser também o “e se o Adriano fosse um pouco mais malandro e segurasse melhor a bola no campo do Flu na Libertadores do ano passado, não dando tempo praquele escanteio mortal?” Ontem perdemos perdendo, o que é bem melhor que perder empatando, mais ainda que perder ganhando e nem se compara a perder por culpa do juiz.
O fato é que (e escrevo isso mesmo sabendo que vocês não vão acreditar): ser eliminado do Paulista dói muito pouco. Talvez se estivéssemos no limiar da eliminação da Libertadores, ou se sequer nela estivéssemos. Talvez se hoje não fosse o dia em que nasce* meu primo Pedro. O sobrinho do meu outro primo César, corinthiano roxo que morreu há nove anos, um mês e três dias, e deve ter ficado com as bochechas rosadas depois de ver o passe do Ronaldo. Porque a bochecha dele sempre mudava de cor quando ficava muito feliz (nesse caso, por ganhar) ou bravo (nesse caso, por não ter visto a vitória de perto, e não poder zoar a metade são-paulina da família).
Vai ver ainda estou matando as saudades do Corinthians, pelos oito longos meses em que estivemos separados.
Ou contente pelos palmeirenses estarem imersos no seu próprio drama para vir me encher a paciência (engraçado que com os corintianos nunca tem estresse, ganhou ganhou, perdeu perdeu).
Ou ciente de que esse futebolzinho café-com-leite, se chegasse à final, seria por demérito do adversário, e não mérito próprio (e o Corinthians que se cuide contra o Santos).
Ou em choque pela história do Rogério (aquele vídeo dele no Reffis não me convenceu por um segundo sequer).
Mas dor de cotovelo, isso tenho certeza que não é.
*Cesariana programada é um dos fatores mais estranhos da cultura brasileira.
11 comentáriosPermalink
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Comentários:
Depois, diz que o SP perdeu porque não quis ganhar...
escreve, escreve, escreve, escreve, escreve e parece que tá desaprendendo... rsrsrs
Ainda bem que não é dor de cotovelo!
bj
Beijo, verdinho!
vc tem toda razão. O Tricolor não quis ganhar e mais uma vez, o Muricy mostrou que é um técnico mediano. Entrou com uma formação ridícula e sem entusiasmo algum.
Evair, cu não tem acento. E eu não sei se boiola é um insulto que se aplica a meninas...
presta atenção no que escreve...
No geral, tem gente louca doente violenta exagerada em todos os times, isso nem se discute!
Voltando ao futebol - verdade - pro corinthiano, perdeu perdeu, ganhou ganhou.. torcedores de outros times transformam isso em um martírio, como se tivessem arrancado um pedaço de si.