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Abr 07

A distorcida mente de torcida

por Equipe De Primeira20h29

Por Felipe Martynetz

A demissão de Celso Roth, na madrugada de domingo para segunda-feira, não fez senão concretizar uma tendência que se vinha delineando havia algum tempo. O coro contra o treinador gremista não só era entoado desde uns bons meses atrás pela própria torcida como foi a trilha sonora de boa parte de seus catorze meses de trabalho no time da Azenha. Nada surpreendente, portanto, a demissão após a terceira derrota da equipe no terceiro Gre-Nal disputado neste alvorecer de 2009.

Igualmente indigna de surpresa é a reação da torcida; não desta ou daquela facção, deste ou daquele perfil de torcedor, mas do torcedor médio. Estúpido e sentimental por excelência, o torcedor médio pariu, deu de mamar, alimentou e, por fim, trouxe à plena maturidade esse lugar-comum contra Celso Roth – afinal, aproveitando o clima de Páscoa, tachá-lo de burro, retranqueiro ou afins já é um clichê mais batido que boneco de Judas Iscariotes em Sábado de Aleluia.

De sensibilidade embotada para uma análise mais aprofundada de qualquer situação, o torcedor tende a centralizar a responsabilidade por maus resultados na comissão técnica, sobretudo no treinador, cujo nome costuma ser o único que esse dito torcedor médio sabe, para a alegria das mães dos demais integrantes da comissão. É precisamente o que fundamenta essa cultura de constante e enfadonha troca de treinadores, que não é uma exclusividade do Brasil, mas é onde ela me parece atingir seu supremo patamar de imbecilidade.

O cacarejo contra Roth, como supracitado, não era recente. O mais curioso é que a mente do torcedor, não bastasse a incapacidade de analisar detidamente a atuação da equipe, o desempenho de cada atleta – culpando, por conta disso, apenas o comandante –, ainda sofre uma espécie de amnésia mesmo no âmbito do treinador. No específico caso do ex-técnico tricolor, isso é ainda mais notável: o Grêmio com uma campanha invejável no início de 2008, o único time do Brasil ainda invicto – e, ao perder as primeiras partidas do ano, as inesperadas eliminações para Juventude e Atlético Goianiense, no Gauchão e na Copa do Brasil, respectivamente. Até aí, é um tanto compreensível a revolta decorrente do duplo trauma.

No Brasileirão, porém, cotado para lutar contra o rebaixamento, o Grêmio fez a sua melhor campanha em campeonatos brasileiros desde o título de 1996, abocanhando o vice-campeonato. E mesmo naquela ocasião o título fora conquistado no mata-mata, uma vez que na fase de pontos corridos a equipe se classificara na sexta posição, fazendo a finalíssima com o oitavo e último classificado, a Portuguesa. Apesar da perda do Brasileiro se dar no segundo turno, após ter uma vantagem de 11 pontos sobre o São Paulo, além da melhor campanha dos últimos doze Brasileiros, o Grêmio realizou proezas nada próprias de seu feitio: com um elenco razoável, aplicou goleadas de 3x0 no Goiás, 4x0 no Atlético Mineiro e 7x1 no Figueirense – todas em território inimigo. E, no entanto, quem enaltece isso em prol de Roth?

Mas seu boneco vodu tem ainda mais alfinetes do que meramente estes, visto que a amnésia que acomete a já limitada mente do torcedor médio é mais grave do que se pensa. Esta foi a terceira passagem de Celso Roth pelo Grêmio, tendo as duas anteriores sido em 98-99 e 2000. Na primeira delas, o treinador assumiu na quarta rodada do Brasileirão uma equipe que, após um primeiro semestre de completo fracasso com Lazaroni, começara o certame nacional perdendo as três primeiras partidas, empunhando a lanterna. Comandando um dos elencos mais medíocres que o Grêmio teve nos anos 90, Roth classificou, após uma arrancada antológica, a equipe na última rodada da primeira fase, com uma virada absolutamente heróica de 4x2 sobre a Portuguesa que garantiu a oitava colocação. A eliminação veio nas quartas-de-final, num confronto disputadíssimo contra o Corinthians, que seria o campeão daquele ano.

O ano 2000 tinha tudo para ser um ano glorioso: as contratações milionárias feitas com o investimento da ISL e o comando do técnico Émerson Leão. Os fiascos do início da temporada custaram o emprego de Leão, substituído por Antônio Lopes. Na final do Gauchão, o Grêmio, de Lopes e Ronaldinho, perderia para o Caxias de Tite, então uma revelação como treinador [conferir “Quando a cartola (quase) não deixa o coelho sair”: http://www.interney.net/blogs/deprimeira/2008/07/11/quando_a_cartola_quase_nao_deixa_o_coelh/]. Depois de perder as duas primeiras partidas do Brasileirão – naquela ocasião, sob o nome de Taça João Havelange –, o delegado Lopes, demitido, dava lugar a Celso Roth. O Grêmio, uma vez mais, emergia das profundezas da tabela e se classificava para a fase final. Batendo a Ponte Preta, nas oitavas-de-final, e o Sport, nas quartas, o time sucumbiu apenas nas semifinais ante o São Caetano, que viera do módulo inferior e seria, para espanto de todos, vice-campeão brasileiro. Ironicamente, enquanto Roth ressuscitava a autoestima gremista, Leão e Lopes passaram a compor a comissão técnica da Seleção Brasileira – com Leão sendo novamente demitido após alguns fracassos nas Eliminatórias da Copa de 2002.

Não obstantes os méritos que Roth, aqui, ali e acolá, teve em suas três passagens pelo Olímpico, é curioso como esse estigma contra ele persiste. Uma das birras é quanto ao fato de ele, supostamente, não conquistar títulos, não ser um vencedor, em suma – desmentida pelos títulos do Gauchão e da Copa Sul de 99. A outra – e mais recente – que permeou seu comando tem a ver com os três clássicos perdidos neste ano, além do tabu de Roth nunca ter vencido Tite em Gre-Nal. É inquestionável o quão doloroso é perder um tal clássico; não se pode esquecer, contudo, que foi sob o comando de Roth que o Grêmio quebrou o tabu de mais de dois anos e meio (22/09/96) sem vencer Gre-Nais, ao vencer o segundo jogo da final do Gauchão de 99 por 2x0.

Como ressaltado anteriormente, o torcedor médio, por pura atrofia mental, tende a sublimar suas frustrações num só alvo: o técnico. É, sem dúvida, o que explica essa cultura obsessiva de troca de técnicos, de imediatismo nos resultados, de cobranças exageradas – uma cultura intrinsecamente absurda, pois tira o fôlego de qualquer trabalho melhor planejado, que demande mais prazo. Se um treinador merece críticas é pela sua parcela de responsabilidade, ou seja, pelas substituições que faz no decorrer do jogo, pelas declarações que dá em entrevistas coletivas, enfim. É ridículo, deprimente e revoltante notar como alguns treinadores são cobrados, os estereótipos ocos que circundam determinadas situações do futebol.

Um Grêmio sem treinador enfrenta hoje o boliviano Aurora, às 19 horas, no Estádio Olímpico. Pode ser que, agora, as coisas ganhem uma oxigenada e, renovadas, o tricolor vislumbre sua aurora; pode ser que nada mude, não importando quem assuma o comando técnico nos próximos dias. De qualquer forma, é patético ver um trabalho tão delicadamente planejado por meses a fio ser interrompido de forma tão grosseira em face da pressão – que, em sua maior parte, nada mais é do que birra – da massa torcedora, crendo piamente que um salvador trará soluções imediatas aos problemas gremistas.

Este texto não se refere meramente à demissão de Celso Roth do comando do Grêmio, mas a toda uma cultura que, com raros questionamentos, teimosamente vigora no futebol brasileiro. É uma crítica à forma como Tite, tão vitorioso que foi na equipe, era pejorativamente tratado por muitos em seus últimos meses na Azenha. É uma crítica à massa que, outrora tão sedenta para que Felipão assumisse a Seleção Brasileira, o desmoralizou de todas as maneiras possíveis enquanto ele comandava o elenco canarinho rumo ao Penta. É uma crítica à covardia da mídia esportiva, que não raro alimenta a mediocridade do estúpido torcedor médio, configurando um autêntico quadro de midiocridade.

7 comentários
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Comentários:


Comentário de: Diogo

Perdeste uma boa oportunidade para ficar calado.

Quem pariu, deu de mamar, alimentou e, por fim, trouxe à plena maturidade um lugar-comum foi você, com essa análise torta da relação do Roth com a torcida.

Aproveite o clima de Páscoa,e raciocine sobre os motivos da CONTRATAÇÃO do Roth.

Aquilo sim foi uma situação estúpida: a DIREÇÃO centralizou a responsabilidade por BONS resultados na comissão técnica, sobretudo no treinador, Vagner Mancini.

A torcida nunca engoliu aquela presepada, e teve até diretor de futebol fazendo as malas para Fortaleza - Paulo Pelaipe.

"Essa cultura obsessiva de troca de técnicos", nunca fez parte da torcida recente do Grêmio, PELO CONTRÁRIO.

Desde a demissão do Mancini, a direção gremista deu mostras de amadorismo, tanto na contratação do Mancini quanto do Roth - e este, se a torcida nunca engoliu mesmo, a situação de sua contratação só fez piorar.

Como confiar na continuidade de um trabalho fracassado desde o início? Sim, porque a contratação do Roth foi um fracasso de planejamento da direção.

Queremos continuidade, queremos um técnico em quem confiar -não tapa-furo - e queremos títulos.






PermalinkPermalink 07.04.09 @ 23:45



Comentário de: mauricio

Concordo, técnico não perde jogo, mas também não ganha. A máscara coube certinho nimim, não me considero nem grande nem pequeno, sou um torcedor médio, médio mas brincalhão.Mudando completamente de assunto, não dá pra engolir esta estória do Imperador 3 dias sumido na favela ajudando os pobres, sossega leão! E a mídia não é média?

PermalinkPermalink 08.04.09 @ 00:10



Comentário de: Felipe Martynetz

"Aquilo sim foi uma situação estúpida: a DIREÇÃO centralizou a responsabilidade por BONS resultados na comissão técnica, sobretudo no treinador, Vagner Mancini."

Concordo plenamente com tua observação, Diogo: nunca consenti com a demissão do Mancini, sobretudo da forma grotesca como foi. O que sinto, no entanto, é que até hoje muitos torcedores aludem àquele episódio como forma de desmerecer o trabalho do Roth. Acho, honestamente, triste que sejam esquecidos os méritos que ele teve no comando técnico do Grêmio, tanto nesta última quanto nas duas passagens anteriores, como ressaltado pelo texto.

É o que destaquei: criticar o treinador, sim - desde que de maneira coesa e fundamentada, apontando alterações, medidas e declarações das quais se discorde. Considero abominável notar como boa parte da torcida o insultava por conta de birras e estereótipos, e não tecendo críticas para que tenhamos, como tu mesmo enfatizaste, "um técnico em quem confiar".

PermalinkPermalink 08.04.09 @ 00:29



Comentário de: Kicha · http://mondokicha.tumblr.com

Tchê, a torcida do INTER gritou "Fica, Celso Roth" no clássico, o quarto perdido em sequência, o terceiro em dois meses. Não bastasse a humilhação, é só lembrar que o cara nunca ganha nada e sempre perde o fio quando inventa de humilhar seus jogadores (vide caso Douglas Costa). O cara, como sempre, cavou a própria sepultura. Como Colorado, achei uma desgraça a sua saída. Afinal, fui mais um que gritou "Fica, Celso Roth".

PermalinkPermalink 08.04.09 @ 00:42



Comentário de: Felipe Martynetz

...o mesmo Celso Roth que, curiosamente, comandou o Inter naquele homérico 5x2 sobre o Grêmio, no Brasileirão de 1997, em pleno Olímpico, conduzindo a equipe às finais do campeonato.

PermalinkPermalink 08.04.09 @ 01:09



Comentário de: Equipe De Primeira Email

Exato! O Inter humilhou o greminho, tinha TUDO pra ser campeão brasileiro, mas, na Hora H, quem perdeu as rédeas? Cabo Roth, que desde lá já mostrava sua perícia em perder títulos. (Não, eu não desconsidero o brilhante campeonato do Edmundo.)

PermalinkPermalink 08.04.09 @ 08:22



Comentário de: Glauco

Nossa, em 1997 o Inter teve participação ridícula na semifinais. Perdeu do Palmeiras no Morumbi (1x0, gol do Viola), perdeu do Santos, do Atlético-MG, depois perdeu do Palmeiras no Beira-Rio de novo, etc...

E não concordo só com o tamanho do texto. Apesar de ser em internet, fica cansativo de ler algo de mais de 120 linhas! Dava pra ter cornetado a cornetagem da torcida em umas 40, no máximo 50 linhas!

Abraço

PermalinkPermalink 08.04.09 @ 15:57



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