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Jan 21

A palavra de três mil euros de Kanouté

por Ana Carolina Moreno12h27

Publicado originalmente no Terra Magazine em 20 de janeiro de 2009

Frédéric Kanouté é um homem de poucas palavras. Percebe-se pela maneira como responde às perguntas dos jornalistas e encerra as entrevistas acenando com um breve sorriso. Seus quase dois metros - faltaram oito centímetros para bater a marca - percorrem sem pressa os corredores do estádio de Riazor, casa do Deportivo La Coruña.

Foto: Agência EFE

É a segunda vez em quatro dias que o atacante do Sevilla visita a cidade do noroeste da España: uma coincidência de agendas fez com que as duas equipes se enfrentassem três vezes seguidas, duas pela Copa do Rei e uma pelo Campeonato Espanhol. Três batalhas que terminaram em três previsíveis vitórias para o time do jogador nascido na França em 1977, mas naturalizado em Mali.

Na primeira delas, em 7 de janeiro, Kanouté anotou o segundo gol do Sevilla aos 39 minutos do primeiro tempo. Bem colocado na pequena área, recebeu um passe de Diego Capel e, sem muito charme, girou a longa perna esquerda de fora para dentro do corpo pra encaminhar a bola rumo ao à meta adversária. Mas pouco se lembram do lance ligeiramente desengonçado, porque foram os cinco segundos seguintes ao gol que percorreram o mundo.

Evitando a tradicional corrida pelo campo, balançando os punhos cerrados e contraindo os músculos faciais para chegar à mais fidedigna expressão de sucesso, o atacante se dirigiu aos cinegrafistas e fotógrafos, se desvencilhou dos abraços dos colegas e levantou a camisa branca do Sevilla, revelando por baixo uma camiseta preta apenas uma palavra, traduzida em seis idiomas: "Palestina". Com boca e olhos bem abertos, para recuperar o fôlego e captar a reação imediata que seu gesto provocou, Kanouté colocou em prática o plano que idealizara quando Israel começou sua mais recente tentativa de aniquilar o arsenal de mísseis do Hamas às custas da população palestina.

Ele quebra o silêncio sobre o tema uma semana depois, quando o número de resultados do Google para a busca de "Kanouté Palestina" já havia passado de 40.000. Falando em espanhol correto, pausado e com leve sotaque francês, o jogador revelado pelo Lyon e com passagem pelas equipes inglesas do West Ham e do Tottenham deu a um grupo de jornalistas, após a partida, uma resposta simples e vaga:

- Fiz o que devia fazer.

A esta repórter, o titular da seleção de Mali afirmou ter evitado falar em público sobre o assunto por causa da grande repercussão que teve entre famosos e anônimos. Ele se diz contente pelas consequências de sua atitude e explicou que agiu sem pensar muito nelas:

- Não pensava muito na conseqüência, ainda que soubesse que talvez fossem me dar uma multa. Mas a minha motivação de fazê-lo ia muito além de uma multa ou sanção. Pensava que era uma boa oportunidade para eu sensibilizar as pessoas sobre o tema, e nada mais.

O próprio jogador, porém, admitiu que nem todas as reações foram de apoio. Mas, considerando que até o embaixador de Israel afirmou não ver nenhum caráter de incentivo à violência na mensagem, a consciência de Kanouté segue tranquila. O futebolista de Mali aceita sem a multa que levou pela atitude sem reclamar.

- A Federação Espanhola faz o que deve fazer.

Um time de futebol iraniano se ofereceu a pagar os três mil euros impostos pela entidade, valor estipulado no regulamento da Federação Espanhola de Futebol. Mas, para quem desembolsou 700.000 dólares para salvar uma mesquita em Sevilla prestes a ser despejada, a cifra não tira o sono, nem a calma, do jogador.

1 comentário
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Comentários:


Comentário de: Junior

Muitos elogiaram a atitude do Kaká, afirmando que ele teve amor à camisa do Milan, etc. Gostaria de saber se esses jornalistas também acreditam em Papai Noel ou Coelhinho da Páscoa. A verdadeira atitude louvável de um jogador de futebol nos últimos dias foi essa do Kanouté. Em uma época em que os jogadores repetem os mesmos discursos vazios e repetitivos, é um bálsamo descobrir que ainda há jogadores especiais, com personalidade para expressar o que pensam, esses jogadores se importam com as pessoas, não apenas com carros, boates e correntes de ouro, pois sabem que o mundo é muito maior que um estádio de futebol.

PermalinkPermalink 22.01.09 @ 01:12



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