Os heróis famosos e anônimos da saga corintiana na Série B
por Equipe De Primeira18h02

Por Mauricio Stycer, colunista do IG
Entre os vários "livros de oportunidade" escritos na esteira da volta do Corinthians à Série A do Brasileiro, "A saga corintiana", de Luis Augusto Simon (Publisher, 136 págs, R$ 27), a ser lançado nesta quarta-feira, no Bar Boleiros, em São Paulo, chama a atenção por focar não apenas os conhecidos heróis, mas uma série de personagens secundários ou anônimos da epopéia.
Menon, como é conhecido, é desses jornalistas esportivos capazes de encontrar histórias interessantes para contar não apenas entre os vencedores, mas também em personagens menos óbvios ao redor do universo que cerca a competição. Em duas oportunidades que editei matérias suas, no "Lance!" e na "CartaCapital", tive o prazer de ler reportagens diferentes, pouco óbvias, sobre figuras esquecidas, derrotadas ou à margem do glamour que cerca o esporte no mundo de hoje.
O seu relato, jogo a jogo, da passagem do Corinthians pela Série B, em 2008, não poderia ser diferente. A primeira figura a aparecer no livro é Monga, "um enorme gavião de aproximadamente 1,90 m e 180 quilos", que colocou o dedo na cara do presidente corintiano, Andrés Sanches, no dia seguinte à queda para a segunda divisão, e disse: "Não adianta ficar culpando a antiga diretoria porque você fazia parte dela também."
Sanches, conta Menon, só não atendeu um pedido dos torcedores (que queriam a cabeça de Antonio Carlos, nomeado diretor de futebol), mas dispensou todos os jogadores que a Fiel exigiu ver longe do Corinthians após o fracasso em 2007 (Gustavo Nery, Vampeta, Iran, Betão, Zelão e Fábio Brás, entre outros).
A contratação de Mano Menezes – dois dias depois de o técnico ter dirigido o Grêmio no empate em 1 a 1 que selou a queda do Corinthians – é o primeiro passo acertado rumo à volta, que ocorreria um ano depois. Mano trouxe Herrera, personagem que Menon trata com carinho, apesar da eficiência duvidosa e da fama, na Argentina, de "quase gol" – o personagem que sempre aparece nas fotos abraçando o companheiro, mas raramente é o autor do gol.
Enquanto o goleiro Felipe ("muito bom de marketing") e o atacante Lulinha ("estava onde não devia estar" em 2007) são personagens que alternaram altos e baixos ao longo deste ano, a trajetória do atacante Dentinho é a que mais se aproxima do conto de fadas que o futebol dos dias de hoje promete.
Bruno Bonfim, nascido em 1989, virou Dentinho aos 12 anos, quando começou a se destacar no futebol. Contrário a apelidos, Paulo Cesar Carpegiani, um dos técnicos do Corinthians em 2007, pediu que ele voltasse a usar o nome de batismo. No início de 2008, porém, o craque resolveu voltar a ser chamado pelo apelido. Nas palavras de Menon, foi a melhor contratação do Corinthians em 2008. "Chegou Dentinho e saiu Bruno Bonfim".
"Botei na cabeça que 2008 vai ser um grande ano para mim e estou me preparando para isso. Em casa, pego um pente e faço de conta que é um microfone para aprender a dar entrevistas. A minha namorada me ajuda", disse o atacante. Ao final do ano, Dentinho contabilizava 24 gols marcados – 14 pela Copa do Brasil. Seus pais, cujos nomes (Adonis e Eunice) estão tatuados em seus braços, eram funcionários de um orfanato. Hoje, moram em um apartamento comprado pelo filho
A crônica de cada partida da Série B é temperada por observações laterais, mas muito perspicazes, de Menon, como na vitória do Corinthians por 4 a 1 sobre o Barueri, no primeiro turno:
"A vista de quem está sentado em uma das cabines de imprensa da Arena Barueri é impressionante. Basta abaixar um poucos os olhos para se ver um estádio moderno, projetado para abrigar algum jogo da Copa do Mundo de 2014. Sonho que não vai se realizar, é lógico. Quando os olhos estão mirando as arquibancadas em frente, o que se vê é uma enorme favela, que leva à pergunta inevitável: não haveria nada mais importante a se fazer em Barueri do que um estádio de futebol? Ou outra questão: vale a pena manter um time de futebol com muita verba oficial?"
Outro herói anônimo da saga corintiana é Rafael Santos Silva, o Dog. Tinha 25 anos quando viu o time cair para a segunda divisão e prometeu acompanhar todos os jogos na Série B. Dog assistiu os 20 primeiros. No domingo, um dia após a vitória sobre o CRB por 2 a 1 em Maceió, foi fazer um passeio em uma praia, distante 66 km da capital, caiu no mar, afogou-se e morreu. O presidente do Corinthians, registra Menon, foi ao enterro de Dog. Os pais do jovem, para cumprir a promessa dele, assistiram os demais 18 jogos do time na Série B.
Há outros personagens fascinantes nesta epopéia. Gente como René, goleiro do Barueri e sócio número 20.070 da Gaviões da Fiel. Ou L., 18 anos, interno da Fundação Casa, ex-Febem, que assistiu ao lado do ex-craque Zé Maria a vitória sobre o Ceará por 2 a 0, jogo que garantiu a volta do Corinthians à Série A com seis rodadas de antecedência. Enfim, num ano que tinha tudo para ser uma página a ser esquecida, o Corinthians venceu 45 partidas – foi o time brasileiro que mais venceu – e transformou sua saga num evento memorável, que este livro ajudará a eternizar na memória do torcedor.
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Comentários:
Só não pode esquecer que a primeira divisão é mais difícil e vai ter que fazer ainda mais bonito.