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Ago 28

O santo santista

por Equipe De Primeira20h07

Por Felipe Martynetz

Craques podem, sob certa ótica, ser tachados de gênios. Mesmo que na hora de falar aos microfones suas bocas pronunciem o discurso repleto de palavras pueris e ocas típico de quaisquer outros jogadores, sua postura em campo é digna de um gênio. Se o time se encontra numa fase espetacular, o craque, tal qual a Lua, reflete esse brilho que recebe, brilhando junto; se, no entanto, a fase é pavorosa, o craque se assemelha ao Sol – e os débeis raios luminosos que aquecem o inverno pelo qual a equipe passa advêm dele.

É o preciso caso do goleador Kléber Pereira que, invertendo os papéis, tem feito autênticos milagres pelo Santos. À parte a medonha fase atravessada pela equipe praiana, é nela que está o artilheiro do Brasileirão deste ano que, juntamente com o palmeirense Alex Mineiro, contabiliza 15 gols. Penando no inferno da zona de rebaixamento desde as primeiras rodadas do campeonato, o Santos, fazendo jus ao nome, é um time iluminado, já que é o primeiro a receber a luz da lanterna empunhada pelo Ipatinga.

Outra fonte de luz permanentemente a iluminar a equipe santista é o supracitado Kléber Pereira que, outrora apenas Kléber no Atlético Paranaense, mantém até hoje, não obstantes seus 33 anos, seu estilo marcante e marcador – de gols. Com o Santos oscilando bruscamente entre deprimentes atuações e heróicas demonstrações de garra, o goleador da competição tem sido um diferencial, um legítimo fator X em prol da equipe, independentemente da circunstância. E, por isso mesmo, o perfil do atacante corresponde fielmente às linhas com as quais iniciei o texto.

Antes que meus leitores amaldiçoem minha alma, roguem-me pragas ou comecem a confeccionar bonequinhos loiros de vodu por colocar Kléber Pereira na solene prateleira dos craques, trato de clarear a definição de tal expressão, tão vastamente utilizada. Temos a repulsiva mania de admirar tão-somente os meias habilidosos, donos de uma ciclópica visão de jogo, desconcertantes dribles, magistrais cobranças de falta, impecáveis chutes a longa distância; ou, ainda, os atacantes responsáveis por fenomenais arrancadas, inesperadas jogadas e espetaculares finalizações. Mas o craque, como já enalteci, é uma espécie de gênio.

Lembro-me até hoje de que, embora ídolo, Kléber era visto pelos próprios torcedores do Atlético com severas ressalvas. Era tido como um excepcional goleador, mas que perdia gols em momentos os mais fundamentais; tinham-no como autor dos gols mais inimagináveis, absurdos e incomuns, mas sua mãe era constantemente evocada pelo fato de ele desperdiçar chances que, de tão claras, chegavam a ser obscenas. Era, em suma, odiado porque amado.

Kléber, de fato, marcava os gols mais surreais e, ao mesmo tempo, perdia os mais estúpidos. Mas eis a dimensão do gênio de que falo: a da coragem. Coragem para, tendo perdido um gol fácil e ouvido os tradicionais cacarejos da torcida, tentar uma, e duas, e três vezes mais – ainda que todas sejam vãs. No específico caso dos gols surreais, sequer preciso apontar onde está a coragem que os torna possíveis e nos enche os olhos.

Como de praxe, em 2004 a Fifa premiou três atletas como os melhores do mundo: Ronaldinho Gaúcho, Thierry Henry e Andrij Schevchenko, respectivamente. Também como de praxe, três jogadores de frente. Quando, meses antes da eleição propriamente dita, os indicados ao prêmio foram anunciados, fiquei inconformado. Não que os nomes em questão não tivessem méritos, mas eu via, claramente, aquela época como o ano do lateral argentino Juan Pablo Sorín que, já no tempo de Cruzeiro, era a um só tempo o mais aguerrido e criativo jogador da equipe – o autêntico craque.

A genialidade é feita justamente dessa deliciosa mescla de talento, coragem e espontaneidade. O gênio não é quem mais estuda e consegue as mais altas notas na escola respaldado por um comportamento exemplar, como idiotamente supõem os pedagogos; pode, perfeitamente, ser o mais distraído ou mesmo o mais problemático dos alunos.

Por fim, é a atletas como Sorín, Kléber Pereira e tantos outros que costumam passar despercebidos aos olhos de todos que dedico este texto. Atletas que, distraidamente, são craques. Atletas que, em meio à boa fase, são Lua e refletem o brilho emitido pelo time – como Kléber no verão atleticano, há pouco menos de uma década; mas que, nos péssimos momentos, são Sol e proporcionam heróico brilho à equipe. Como Kléber tem aquecido o inverno santista.

5 comentários
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Comentários:


Comentário de: Rakal D Addio · http://www.diletra.blogspot.com

Em caso de Kléber Pereira contra o restante do time santista - talvez já tenha ocorrido em algum desses treinos descontração - aposto no atacante com folgas.

PermalinkPermalink 31.08.08 @ 12:58



Comentário de: Vinub

Kléber Pereira não é um gênio. Ele só executa uma unica função muito bem, nada além. Ele e Alex Mineiro são farinha no mesmo saco. Keirrison e Nilmar fazem o que os dois fazem além de trabalharem em conjunto com a equipe, nao simplesmente esperar a bola cair pra fazer o gol, apesar de ser a função (básica) dos atacantes palmeirense e santista.

PermalinkPermalink 31.08.08 @ 20:09



Comentário de: eliseu tisato

Discordo do último comentário. Não sou santista. Não torço pelo kleber tampouco me divirto vendo o santos fazer gols. Mas vem cá, dizer que os dois artilheiros do campeonato não são craques é negar o básico do futebol. Acho que o único goleador que eu concordaria que nem perto de craque passou foi o Jardel (artilheiro da américa e da europa) esse sim, esperava a bola vir a seus pés. Ou melhor, sua cabeça.

Mas basta ver um jogo do Santos para perceber que o kleber desequilibra muito. Aliás, nem é preciso ver a jogo nenhum. Basta saber: ninguém no time faz gol, o meio de campo inexiste, o time está na rabeira do certame e um cara sozinho é artilheiro. Alguma coisa tem né? Os mesmos argumentos vão para o Alex Mineiro que tem companheiros que marcaram 4 gols apenas, mesmo jogando os mesmos jogos.

É complicado admitir. Ainda mais que não gosto do time dos poodles. Mas, imagine o kleber ou o Alex Mineiro jogando no seu time (q me pareceu ser o coxa, pelo seu comentário) imagine o ótimo meio de campo do coxa com um desses matadores na frente... fariam mais gols que o bom atacante keirrison. Não?

Mas concordo numa coisa. Kleber e Alex Mineiro são farinha do mesmo saco sim! Oriundos do meio-estádio poodle-negro são os melhores goleadores no Brasil. Então, porque não, gênios?

PermalinkPermalink 31.08.08 @ 21:29



Comentário de: Vinub

Eliseu, admito que não vejo muitos jogos do Palmeiras ou Santos, tampouco sou torcedor do coxa (torço para o clube do remo, mas moro em sampa), mas gols não quer dizer genialidade. Olhando para uma realidade mais próxima, só olhar Acosta e Josiel. Esses sim, quando vi jogar, eu vi porque faziam gols: o time jogava em função deles.

Assisti mais o Alex Mineiro em ação, e é um oportunista de primeira, não que seja ruim, mas não quer dizer também que seja um gênio. O pouco que vejo o (horrível) futebol do santos, Kléber Pereira faz algo parecido, diria que um pouco menos oportunista, faz gols mais difíceis e participa mais, mas não é um gênio. É um jogador acima da média do elenco do Santos, mas isso não é nenhuma surpresa.

Mas, se é em questão de eficiencia (no caso do palmeiras somente, já que nem o 'milagre' de kléber pereira tá salvando o Santos), então deixe como está. Em time que está ganhando ou fazendo gols, não se meche.

PermalinkPermalink 01.09.08 @ 19:47



Comentário de: Vinub

Ah, para terminar, acabei de olhar a lista dos ultimos artilheiros do brasileirão. Curiosamente, nos ultimos anos o time do artilheiro nunca está no G4.

PermalinkPermalink 01.09.08 @ 19:50



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