Um texto ruim sobre um momento ruim após um jogo ruim
por Ana Carolina Moreno17h13
Confesso que acordei sem o espírito de futebol.
Quem conhece sabe que isso é mentira, claro.
Acordei com medo. Ver ou não ver, eis a questão. Não, a televisão fica desligada e eu torcerei de longe, em silêncio. Se ontem deu certo, hoje não há motivo para perdermos.
Mas eu e você estamos presos, meu bem. Acorrentada à nossa perna direita uma enorme bola de ferro que, nem me lembro porquê, costumam chamar de "paixão nacional". Um apelido carinhoso capaz de convencer apenas quem já se resignou à prisão perpétua.
Impossível fugir de um Brasil e Argentina. Nem se eu me esconder no box do banheiro com fones de ouvido. As poucas mensagens pela internet já indicam o empate. Quando os narradores de plantão no Gmail, MSN e Twitter anunciam o intervalo, corro para ver os melhores momentos.
Ronaldinho dá um drible nervoso em Messi. Messi deixa Diego no chão. Em câmera lenta e cruel. Messi passa por vários brasileiros e a bola sobra na grande área. Algumas defesas do arqueiro brasileiro, a única bola rumo ao argentino passa longe. Alguns lances de jiu-jitsu, boxe e judô. Na falta de tática, vale até mudar de esporte. Um comentarista afirma que o Brasil jogou bem. A corrente que me ata à bola afrouxa, e quase nem dá pra perceber a marca vermelha impregnada na pele.
Brasileiros novamente em campo. A camisa da seleção da Nike nos insulta, mas ninguém desvia o olhar. Brasileiros masoquistas em campo, um monte deles, incluindo vocês. E lá permanecem, depois do gol de Agüero.
Eu não. Desliguei de novo, quero fugir.
Aqui, porém, não se pode fugir do futebol. Até quem sequer sabe o nome do atual líder do campeonato mais importante do Brasil comenta o jogo para quem estiver por perto, física ou virtualmente. Não consigo fugir do segundo gol. Nem do terceiro. Já sei que foi pênalti. Já sei que foi Riquelme.
Lucas e Thiago Neves expulsos. Melhor se fosse eu. Ana, direto pro chuveiro!
**
Desde o meio-dia o peso que arrastamos conosco pelas ruas, no metrô, no fumódromo do escritório se tornou menos suportável. O encosto parece três vezes mais pesado, mas o cálculo preciso é impossível. Amor não se mede em números.
A noite chegará e nossa bola nos acompanhará ao boteco. Afinal, de algo precisaremos para esquecer as mágoas. A cada gole, algumas gramas, só que a mais. A cada replay no Jornal Nacional, um novo quilo. Horas debatendo com amigos e desconhecidos a melhor forma de carregar essa bola. Os mais idealistas matutarão em silêncio algum plano para quebrar as correntes e, finalmente, se libertarem desse mundo agridoce.
Cansados de sofrer, tentaremos dormir, estranhando a cama, que parecerá mais próxima do chão. A cabeça embaixo do travesseiro. Lá se foi o sonho dourado da véspera. As glórias de ontem, principalmente as mais deliciosas, justamente aquelas conquistadas em cima de nossos algozes, passarão longe do pesadelo de hoje à noite: um elefante azul e branco, com um anão de cabelos espetados montado em cima, passeará pelas nossas costas enquanto um sol sorridente iluminará nossa bola e, então, perceberemos que ela não é de ferro. É de bronze.
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