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Ago 15

Bar da escória

por Felipe Lessa23h40

Fosse no domingo, fosse na quarta-feira, os bares do Estádio do Café tinham seus clientes fixos. No ambiente, Malta quente, muita gente, sol na cara, lua descarada, idosos, vândalos, famílias e bêbados. Conhecido o cenário básico, ao lado trabalhavam as churrasqueiras improvisadas, para a venda de espetinho, para cuidar do aroma da festa. Nada sofisticado.

Dois dos bares eram especiais. Os do final da arquibancada descoberta, ao lado do matagal. Mais precisamente, em cima das arquibancadas descobertas. O cheiro horrível do banheiro logo ao lado nem era notado pelos adeptos. Talvez por isso fosse raro ver garotas no local.

O boteco, ou melhor, os caras que chegavam nele, eram machistas ao extremo? Talvez um pouco, ou bastante, grosseiros. E na falta de las chicas era melhor pensar em Londrina, cornetear, improvisar algo, escalar, debater ou elogiar o futebol da casa.

Os porres do João Neves, que nem no Londrina estava mais jogando, foram diversas vezes culpados pela péssima atuação do clube. Em momentos de profecia, muitos reclamavam da atual situação do Tuba, mas, olhavam com carinho para atacantes como o Agnaldo, artilheiro da Copa São Paulo de Juniores em 94 e que foi parar até mesmo no Corinthians, para a alegria de alguns presentes.

Marcos Severo, atacante do início dos anos 90, era outro querido pelos alvicelestes do bar. “Ele tromba, empurra, não dribla, mas faz gols”. Se os camaradas dos bares do Café fossem um pouco mais cultos, diriam que o esforçado atacante era o Mario Kempes londrinense.

A cornetagem rolava solta. Imagine um personagem crítico, semelhante ou mais ácido que o falecido e folclórico ex-presidente do LEC, Murilo Zamboni. Imagine cerca de 100 destes, reunidos em um boteco, no intervalo do primeiro para o segundo tempo, bebendo sem parar. Degustando cervejas que de tão ruins ou quentes que estavam, precisavam ser arremessadas em outros torcedores.

Os cornetas esperavam ou bebiam suas cervejas metralhando o time, da mesma forma como o eterno Zamboni fazia na televisão. A diferença era que o ex-presidente foi um fanático torcedor do Tubarão. Os corneteiros mantinham o Londrina no coração, mas, no caso de alguns, era um amor promíscuo, de quem também amava aos Palmeiras, Corinthians e São Paulos da vida.

Os bate bocas eram inevitáveis. As rodas geralmente abriam nos intervalos, quando o movimento era maior. O pau comia. Os torcedores do Londrina não admitiam que um tranqueira qualquer xingasse seu time. Apenas eles xingam. Nada mais.

Ainda mais se falando de tranqueiras com camisas do Santos, uma torcida que antes de conhecer a Robinho e Diego, era tão sofrida quanto a do Tubarão. Aproveitavam e marcavam rumo nos jogos do Londrina apenas para pensar que o Peixe não estava frito. Xingavam e por isso apanhavam.

Se os PM’s chegassem, durante muitas vezes, quem trocou soco agora se abraçava. O tom do branco, da paz da gente ordeira de Londrina, como canta o hino do LEC, dava lugar ao vermelho do sangue. Mas no final, geralmente um acobertava ao outro. Finalizavam o quebra bebendo cerva quente.

Em 15 ou 20 minutos, de tudo acontecia. De tudo poderia acontecer, pois, se os bêbados resolvessem que fariam um protesto para agredir um árbitro qualquer depois do jogo, assim seria feito. Valdir Festugato que o diga.

Depois de uma partida válida pelo Campeonato Paranaense, dos meados dos anos 90, foi dali que começou um motim para pegá-lo na saída. O bar da escória era instrumento de mobilização social no Londrina. E passados os 15 minutos de lanche, todos voltavam para os seus lugares. Para beber cerveja quente, comer amendoim, batucar e gritar pelo time local. Ou, para xingar alguém, tramar alguma merda...

*Parte da série Clubes, povos e campos de futebol

1 comentário
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Comentário de: Carlão

Dalhe Cafezão...

PermalinkPermalink 26.08.08 @ 11:54



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