De Primeira: Futebol, Futebol e Futebol

RSS

Foto ilustrativa

Ago 06

Os (últimos?) 16 dias da Era Dunga

por Equipe De Primeira00h42

Texto colaborativo produzido a partir dos argumentos levantados na lista de discussão do blog De Primeira.

É aquela velha história. As seleções de futebol da Bélgica, Nova Zelândia e China devem ter deixado escapar algum "oh" educado, uma mistura de medo e emoção, quando descobriram que enfrentariam o Brasil na primeira fase dos Jogos Olímpicos desse ano, que começa amanhã. A amarelinha é respeitada, às vezes até reverenciada, mundo afora. Dentro de casa, porém, a novela é outra. Magia, aqui, é igual soja. Tem de sobra, mas, se nos derem a chance, a gente exporta tudo, até o último grão.

O ambiente hoje é de trégua, em nome do ouro inédito. Os correspondentes, já a postos e aclimatados na China, editam matérias cheias de bom humor e otimismo. Os penteados dos jogadores e os outros esportes olímpicos que lhes agradam ganham vários minutos nos principais telejornais. É a alegria do brasileiro. Ê que beleza! Mas o rabo do olho está sempre virado para aquele homem de cabelos espetados, temperamento arisco e camisas espalhafatosas.

Dunga é (ou deveria ser) o mais interessado na medalha, embora o motivo principal seja egoísta. Se for expulso de Pequim antes da final, no dia 23 de agosto, dificilmente conseguirá rebater apenas com gritos, bufadas e fala grossa as críticas que já vêm sendo construídas desde junho.

A (tentativa) de uma virada de mesa, há quase dois meses, foi liderada pela emissora que o recebera de braços abertos em 2006. Naquela época, o narrador e porta-voz oficial dos interesses dos donos da granatorcedores enaltecia o histórico de liderança do capitão tetracampeão para justificar a escolha de um treinador de primeira viagem para conduzir o time de futebol mais famoso do planeta. Menos de dois anos depois, enquanto via Cabañas enfiar a bola no fundo da rede de Júlio César, já liberado pela cúpulaconsciência, não se cansava de repetir que "a seleção não pode jogar como time pequeno".

Começava a caça ao anão zangado. A cada reportagem "inocente" que "apenas divulgava a informação", a mídia foi construindo o clima para derrubar aquele que supostamente impedia a grandiosidade dos amarelos. Luxemburgo ganhou espaço para suas críticas à situação atual da seleção, e Ronaldinho Gaúcho foi jogado novamente na fogueira de todas as vaidades.

Apenas 53 horas separaram os dois textos a seguir:

22 de junho: Ronaldinho Gaúcho reafirma o desejo de defender o Brasil nas Olimpíadas
"Colocado pelo presidente da CBF como salvação da seleção, o meia Ronaldinho Gaúcho não se esconde da responsabilidade. Em entrevista exclusiva ao programa Esporte Espetacular, o craque afirma que deseja conquistar o ouro inédito para o futebol brasileiro nos Jogos Olímpicos de Pequim." (note que foi Ricardo Teixeira quem disse, e não o jornalista; tudo bem, a escolha de iniciar o texto com essa frase foi do jornalista mesmo, mas semiótica não passa, afinal, de uma teoria)

24 de junho: Zico encontra príncipe herdeiro do Japão; Dunga não aparece
"O príncipe herdeiro do Japão, Naruhito, esteve nesta quinta-feira no Rio de Janeiro, e encontrou Zico, ex-técnico da seleção japonesa. Os dois participaram de um evento no Centro Cultural Banco do Brasi em comemoração aos 100 anos da imigração japonesa. O técnico da seleção brasileira Dunga, que já atuou como jogador no futebol japonês, era esperado, mas não apareceu à confraternização." (Leonardo, Bebeto e tantos outros que tiveram passagem pelo futebol japonês, mas são, como Dunga, menos importantes para os asiáticos do que Zico, foram carinhosamente esquecidos pelo autor da legenda; aliás, qual o objetivo de criar uma página de notícia só para colocar a foto de Zico e o príncipe herdeiro? Hmmm... Melhor não fazer pergunta difícil.)

Este outro exemplo mostra como a edição faz diferença:

16 de junho: Brasil de Dunga precisa vencer Argentina para não ser o pior em pontos corridos

Nosso Napoleão de Almeida, cinco dias depois, colocou a íntegra da performance do "Brasil de Dunga" em uma só planilha, e mostrou que o índice de aproveitamento de pontos é de 70%.

Isso quer dizer que Dunga esteja fazendo um ótimo trabalho? Não.

Criticar a escalação de três volantes é válido, mas apenas se o motivo da crítica for a escalação de três volantes. Mas quem critica os três volantes porque não conseguiu uma entrevista exclusiva com os três volantes não merece sequer que essa frase chegue ao fim.

Dunga enfrentou as bofetadas com uma voadora. Acusou os críticos de o perseguirem injustamente porque, em vez de manter o histórico, tradicional e, para muitos, eterno tratamento global, ele decidiu globalizar o acesso da mídia à seleção brasileira. Disse que foi o único a enfrentar os poderosos da dobradinha Globo/Sportv e acabar com luxos e mimos que atrapalham os jogadores e prejudicavam as demais emissoras. Depois, reclamou que as outras emissoras embarcaram no navio rumo a mais uma "nova era". Deve ter esquecido que, nesse ramo, concorrência tem prioridade sobre informação.

Credencial como treinador não se constrói apenas com o histórico como jogador. O técnico Carlos Caetano é muito diferente – para pior – daquele capitão do tetra. Um de seus principais problemas, porém, já deu sinais de melhoria: a escalação. De nomes desconhecidos e até hoje com justificativas pouco convincentes, como Afonso, à insistência em antigos jogadores da seleção que hoje já não rendem o mesmo, caso de Mineiro, o banco de Dunga sempre levou as piores ferroadas. A lista dos convocados para Pequim, porém, parece ter agradado inclusive os que acham que um bom time, na teoria, nem sempre se realiza em campo.

Especulações à parte, o problema, talvez, seja conceitual. Desde os tempos do quadrado mágico de Parreira, a seleção brasileira se tornou, como alfinetou o Olé, em um amontoado de jogadores. Não adianta chamar os mais talentosos se não há um esquema tático montado antes. Nem todo jogador bom se encaixa em qualquer time, e nem todos mantêm uma boa fase por anos a fio.

Quando teve mais tempo para trabalhar o time, Dunga se deu bem: enfiou três nos hermanos e conquistou a Copa América, mesmo sem as estrelas. Agora, porém, não adianta reclamar da agenda apertada. A pressão das eliminatórias e a necessidade de testar a equipe olímpica impuseram restrições à montagem da lista e fogo nas mangas dos interesseiros.

De um lado, ele é obrigado a reverter as derrotas para Venezuela e Paraguai e classificar o Brasil para a Copa do Mundo de 2010, sob o risco não só de perder o cargo, mas de ter a pele esfolada se for o responsável pela primeira Copa sem a participação brasileira.

Por outro lado, se antes ele desdenhava as Olimpíadas, agora deve – tardiamente – ver no possível triunfo a chance de se firmar como nome de peso à frente de qualquer comissão técnica. Fazer o que ninguém até hoje conseguiu talvez seja a única maneira de tentar manter o apoio do público frente à maior manipuladora da opinião pública.

Calar uma emissora que elege e derruba presidentes, que quer mudar o fuso horário do País para que a nação se encaixe à sua programação, e não o contrário, e que já derrubou treinador muito mais qualificado que Dunga por motivo muito menor, só mesmo se os meninos da amarela voltarem para casa com a dourada.

5 comentários
FutebolSeleção BrasileiraEliminatórias Sul-AmericanasCopa do MundoJornalismoImprensa


Posts similares:
Dunga é o cara!
E se o Brasil for ouro?
Apocalipse Now

(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

Atalho pra o formulário

Comentários:


Comentário de: Carol

Eu acho que o ouro no futebol brasileiro finalmente vem para o Brasil dessa vez.

PermalinkPermalink 06.08.08 @ 00:53



Comentário de: Equipe De Primeira Email

Eu acho que a Seleção Brasileira deveria ser escalada via enquetes na internet, ou via telefonemas no programa Silvio Santos. Daí ninguém ia reclamar.

PermalinkPermalink 06.08.08 @ 16:36



Comentário de: felipe lessa · http://www.interney.net/blogs/deprimeira

ACORDA, DUNGA! K99 é seleção....AMARELINHA NELE!

PermalinkPermalink 06.08.08 @ 17:07



Comentário de: ana paula

gostei muito do blog mas acho que tá na hora de divulgar o mal o pessimo desenvolvimento do tecnico dunga,
dunga só sabe fazer experiencia , quer saber a verdade lugar de estagiário é equenos times e não em seleção brasileira de futebol

PermalinkPermalink 19.08.08 @ 13:45



Comentário de: rafael

Dunga tem que chamar Ronaldinho gaucho para a copa se nao eu vou torcer para a Argentina!

PermalinkPermalink 27.02.10 @ 12:52



Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.

Contato

blogdeprimeira@gmail.com

Busca

Twitter

InterNey Blogs