Entre goles e gritos, futebol e Rock’n’Roll
por Felipe Lessa01h16

Ao som dos batuques do samba na tradicional e antiga organizada do Londrina Esporte Clube, a Sangue Azul, jamais imaginava que o ritmo do futebol poderia ser trilhado pelo Rock’n’Roll. Uma das razões para o meu pensamento, ficava pelo contexto histórico das organizadas brasileiras. Elas nasceram uniformizadas e com charangas de animação, nos anos 40, com fortes ligações no carnaval do Rio de Janeiro.
E na cabeça adolescente, que beirava dos 13 para os 14 anos, que ainda rumava para seus primeiros passos em danceterias e botecos da cidade do norte paranaense, uma questão. Eu não conseguia associar os mesmos cabeludos ou punks que comigo no sábado passavam a noite bebendo destilados baratos e ouvindo Ramones, Clash ou AC/DC, com os tiozinhos que, nas tardes ensolaradas de domingo, dividiam espaço nas arquibancadas cantando pelo alviceleste.
De fato, por ser um moleque, magrelo, xarope e ranhento, meu circulo de amizades na torcida dificilmente passava de uma tia de terceiro grau que era uma das fundadoras da torcida, em 77, além de seus amigos, de mesma época. De fato, eu estava em situação diferenciada no ambiente, pois a maioria dos cerca de 200 integrantes seguia a mesma linhagem.
Tudo bem que ser amigo deste pessoal que beirava a terceira idade, mas que era completamente insano, era bacana. Poderia ajudar em alguns problemas com desafetos de idade mais avançada que a minha. Mas, o interesse do momento era sair na caçada de garotas, novos sons e alguma moeda para o álcool, degustado sem apreciação, apenas para manter a loucura.
Semanas antes, eu era quase uma criança, que a poucos, ainda era obrigada a freqüentar ambientes religiosos com a família. Um infanto-juvenil que dava seus primeiros passos rumo aos mais diversos ambientes rueiros, aos ônibus madrugueiros, e claro, aos goles de cachaça. Meus amigos estavam na mesma.
Quando a grana de qualquer serviço prestado para terceiros caia em mãos, eu já sabia onde gastar. E foi nessa que fiz amizade com alguns outros porra loucas, que seguiam a mesma caminhada. Eu já pensava em esquecer do futebol. Na idade das incertezas, o Londrina por pouco não ficou de lado. Foi quando resolvi sair para um destes rolês com uma camisa do clube.
Para ser sincero, não foi nada feito para demonstrar amor ao pequeno grande time de uma cidade rodeada por torcedores de clubes paulistas. Com a surrada camisa dos Ramones na lavanderia, a contra gosto, quem apareceu na frente foi a do tubarão. Como era antiga, poderia servir bem para a ocasião. E assim o azul e branco se mesclou ao visu de calça jeans desbotada na água sanitária e o tênis All Star sujo, com as conhecidas terras vermelhas do norte paranaense.
De fato, eu preferia estar com a camisa do quarteto norte-americano marcado pelo 1,2,3,4 na pele. Mas, no fim das contas, o jogo virou para 5,6,7 e até 8, ao meu favor. Quando chego no boteco, alguns dos camaradas abrem um sorriso e disparam. “Você torce mesmo para o Londrina ou está pagando um pau com a peita?”. No ar das boas vindas, logo mando um “ihhh, meu irmão. Aqui é Sangue Azul desde criancinha”. O que não era mentira.
Estava legitimada minha aceitação. Era hora de beber para cacete, sem precisar pagar uma dose que fosse. Eu deveria apenas contar um pouco das histórias contadas por minha tia e já estava bom. Ao longo do papo, umas cachaças com refrigerante, umas goladas de Rabo de Galo para atrair as perversas e muita troca de idéias sobre a arte da peleja nos gramados, as brigas de torcida, bebedeiras nas arquibancadas, as excursões.
Tudo que eu escutava entre os tiozinhos era cuidadosamente repassado aos meus camaradas, que empolgados, logo se dizem torcedores do LEC. Diziam ser daqueles que rumavam aos estádios com radinhos e bandeiras do clube, assim como eu. Diante do sucesso do papo, trataram logo de intimar para um encontro no domingo. Dia dos atormentados-pequenos-magrelos-desajustados comparecerem em peso no Estádio Vitorino Gonçalves Dias.
Quem diria. Eu quase abandonei o clube que traçou toda minha infância em troca das noitadas de Punk Rock e agora descobria que era possível unir o útil ao agradável. E para o VGD fomos, no dia seguinte, em uma turma de oito. Eu estava acostumado a ficar na Sangue, localizada nos primeiros espaços da entrada do posto, pela Jorge Casoni.
Por aí poderíamos bem admirar melhor as Caldaretes, umas modelos gandulas que o louco do Caldarelli, ex-presidente do Londrina, havia contratado, fruto de uma parceria com um dos patrocinadores do clube.
Mas quando chegamos lá, um dos camaradas, alguns meses mais velho e respeitado, o Leandro, já citava. “Que nada, vamos na Falange. Olha o visu dos caras. Caveiras nas camisas, bandeiras do Iron Maiden, uns caras tatuados. Talvez seja mais a nossa cara. Por ali ficam menos garotas gandulas, mas sempre tem uma ou outra. E outra coisa. Minas como essas não dão mole para moleques como a gente”.
De fato, eu fiquei um pouco desanimado em escutar a realidade sobre as garotas gandulas que sempre encarei, e muitas vezes, chamei de gostosas ou safadas. Mas, sabendo que era verdade, e que mesmo assim, poderia trocar a vista de um jogo geralmente truncado para mirar a bunda formosa de pelo menos uma das caldaretes, seguimos na direção do pessoal da Falange.
Essa organizada era consideravelmente menor que a antiga. Mas seus cerca de 30 ou 40 integrantes faziam questão de manter a parte do meio para o fundo das descobertas do VGD sonorizadas. Era a disposição das gargantas de adolescentes alguns anos acima da gente e que também gostavam de ouvir uma barulheira, seja no estádio, seja no radinho de casa.
Tudo bem. Os caras, em boa parte, chegavam ao seu extremo quando ouviam Iron Maiden. A maioria deles curtia mais eram sons como Pink Floyd, Nazareth e Raul Seixas, coisa que minha turma nunca foi de gostar. Mas, assim pelo menos descobri que não era ilusão a ligação entre o Rock’n’Roll e o futebol. Alguns anos depois, quando os meus antigos amigos do Punk Rock sumiram, eu ainda continuei na torcida. Cheguei inclusive a fazer a carteira de associado, em 98.
Uma coisa que passei a reparar foi que na Falange, os caras gostavam tanto de bandas como Raul Seixas e AC/DC, que estas viraram bandeiras presentes nas arquibancadas, junto com as antigas do Iron Maiden. E nessa linha, descubro que diversas organizadas dedicavam bandeiras unindo as cores do seu clube ao Rock’n’Roll.
Entre elas a Império do Coritiba, com algumas bandeiras com a estampa do Eddie, fora outra do AC/DC. A Jovem do Vasco tinha como mascote o próprio Eddie, enquanto a Fanáticos do Atlético tem bandeiras com as imagens do Raul, a logo do Slayer e uma grande bandeira do MotoRocker, o antigo AC/DC cover. Nas torcidas de Newell's Old Boys da Argentina e Nacional de Medellin da Colômbia, fitei pela TV bandeiras do Ozzy Osbourne.
E a partir disso, descobri que a torcida do Atlético Paranaense, rival dos tiozinhos da Sangue Azul, mas amiga dos moleques da Falange, era outra organizada ligada ao som das guitarras distorcidas. Descobri que no começo dos anos 90, estes já transformaram Another Bricky in the Wall do Pink Floyd em hit. Um ataque ao pudor dos coxa-brancas, cantado não apenas por rockeiros, como também por crianças, mulheres, engravatados e idosos.
E dos rubro-negros, ainda surge das arquibancadas o “Dá-lheeeee, Dá-lhe, Dá-lhe oooooo, Dá-lhe Atlético, Dá-lhe Atlético, Dá-lhe, Dá-lhe oooooooooo”. Essa canção, poucos sabem, inclusive grande parte dos integrantes da Fanáticos, virou hino de uma das mais conhecidas bandas de Punk Rock, o Vanilla Muffins, da Suíça. Não copiaram a letra, mas sim, o ritmo, que deve ter vindo de inspiração das gargantas de alguma ultra européia.
Na Europa é muito comum uma banda de Rock não apenas gostar de futebol, como também dedicar temas para o esporte, ou, copiar sons das arquibancadas trocando as palmas das mãos pelos acordes distorcidos e pesados de guitarra e baixo. Um exemplo está no som Punk dos Cockney Rejects, de Londres.
Torcedores fanáticos do West Ham que decidiram cantar sobre seu clube e ganhavam de brinde uma penca de problemas com outras torcidas, principalmente em seus shows fora de casa. Parte de seu repertório era copiado de canções de arquibancada dos Hammers, nos anos 70. De forma mais moderada, nos dias de hoje, existe na Inglaterra exemplos de bandas como os The Dead Shores, que mesclam um som que varia entre o Punk Rock e o experimental.
Na versão metal, o Tankard é exemplo na Alemanha. A banda participou de coletâneas de Hooligan Rock, adora cantar sobre bebidas alcoólicas e seu vocalista é fanático pelo Eintracht Frankfurt. A retribuição veio do convite feito pelo clube para que a banda tocasse na abertura de um jogo.
Na Espanha, boas bandas como Los Nikis, Matadero e Gol Nord são as referências. Os primeiros tocam Punk Rock ao estilo Ramones. Ficaram conhecidos por ter uma ou duas músicas que citam a polêmica torcida do Real Madrid, a Ultras Sur. A segunda banda toca metal e canta fanatismo sobre o Sporting Gijon. A terceira é clássica. Mescla o Punk Rock com hinos de estádio, e canta em homenagem ao Llevant de Valência.
Das terras argentinas, cita-se o Doble Fuerza, banda influenciada pelos Rejects ingleses. Do Brasil, Flicts, Mão de Ferro e até mesmo o Skank, que gravou vídeo clipe no Mineirão com as presenças das organizadas Máfia Azul e Galoucura, de Cruzeiro e Atlético de Minas.
Nesse tempo todo, cheguei inclusive a conhecer um garoto que participou do clipe. Conheci bastante gente ligada simultaneamente ao Rock’n’Roll e ao futebol. Inclusive, um amigo meu sempre presente em shows de Hard Core é um dos fundadores da organizada do Paraná Clube. Outro bom contato fora da torcida do Londrina é o de um adepto fanático do Atlético de Goiânia.
Isso que eu já ouvi falar de certos idiotas que o futebol e o Rock não combinavam, pois geravam brigas nos shows e nos bares. De fato, o que gera brigas são babacas que utilizam o futebol como escape para fazer besteiras.Estes geralmente mexem com a pessoa errada e tomam seus prejuízos. Gostar de Rock e de futebol, pelo contrário, é um beneficio. Torcedores espertos e que gostam de Rock geralmente estão mais ocupados em beber, fazer amizades, curtir um som e claro, pulando em cima de garotas, no fino trato, ao som de um clássico, grosseiro e distorcido Rock'n'Roll.
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Temos que chamar sua tia pro próximo DP Fest!
risos, sobre o moleque, magrelo, xarope e ranhento ...de fato, eu era um atormentado! hehehe
iauirhaihruioauriouiahueiuahieuaihoueihoau
Abraços
Inclusive a torcida passou a cantá-la depois daquela Copa América no Uruguai aonde o Brasil ganhou da ARGHentina nos pênaltis.
