Hoje é dia de futebol
por Leonardo Mendes Jr.04h06
O dia é do futebol, mas bem que poderia ser da música. Não há combinação mais perfeita de duas artes do que entre acordes e dribles, riffs e passes, batidas e carrinhos, refrões e gols.
Chico Buarque (sempre ele) fez um tributo definitivo àquilo que os saudosistas consideram que o Brasil já teve de melhor. Com a genialidade de um Pelé, juntou a bossa nova ao retrato do jogo mágico e cadenciado dos anos 50, 60 e 70. E fez-se “O Futebol”.
“Para estufar esse filó/ Como eu sonhei/ Só/ Se eu fosse o Rei/ Para tirar efeito igual/ Ao jogador/ Qual/ Compositor/ Para aplicar uma firula exata/ Que pintor/ Para emplacar em que pinacoteca, nega/ Pintura mais fundamental/ Que um chute a gol/ Com precisão/ De flecha e folha seca.”
E vem também de Chico a receita perfeita para se livrar daquele presente que um amigo torcedor de um time rival deu para o seu filho recém-nascido, na esperança de marcar um gol de placa justo na casa do inimigo.
“Amigo Cyro / Muito te admiro / O meu chapéu te tiro / Muito humildemente/ Minha petiz/ Agradece a camisa / Que lhe deste à guisa /De gentil presente / Mas caro nego / Um pano Rubro-Negro / É presente de grego / Não de um bom irmão / Nós separados Nas arquibancadas / Temos sido tão chegados / Na desolação”
“Amigo velho / Amei o teu conselho / Amei o teu vermelho / Que é de tanto ardor / Mas quis o verde / Que te quero verde / É bom pra quem vai ter / De ser bom sofredor / Pintei de branco o teu preto / Ficando completo / O jogo de cor / Virei-lhe o listrado do peito / E nasceu desse jeito / Uma outra tricolor.”
E foi com o amor ao Flamengo, rejeitado por Chico, ardendo no peito que Moraes Moreira chorou a saída de Zico para a Europa. A perda do ídolo, a perda da válvula de escape para os problemas do dia-a-dia lamentadas em “Saudade do Galinho”.
“E agora como é que eu fico/ nas tardes de domingo/ Sem Zico no Maracanã/ Agora como é que eu me vingo/ de toda derrota da vida/ Se a cada gol do Flamengo/ Eu me sentia um vencedor.”
As peripécias flamenguistas no maior do mundo também inspiraram Jorge Ben. Do goleiro ao ponta-esquerda, o Zé Pretinho cantou o futebol.
Aos goleiros, avisou:
“Goleiro, eu vou lhe avisar/ Não pode ficar com fome/ Na hora de jogar/ Se não é um frango aqui, um frango ali, um frango acolá”
Aos zagueiros, uma preleção que nem Telê Santana daria de maneira tão genial:
“Ele é um zagueiro/ É o anjo da guarda da defesa / Mas para ser um bom zagueiro / Não pode ser muito sentimental / Tem que ser sutil e elegante / Ter sangue frio / Acreditar em si / E ser leal / Zagueiro tem que ser malandro / Quando tiver perigo com a bola no chão / Pensar rápido e rasteiro / Ou sai jogando ou joga a bola pro mato / Pois o jogo é de campeonato / Tem que ser ciumento / E ganhar todas as divididas / E não deixar sobras pra ninguém / Tem que ser o rei e o dono da área / Nessa guerra maravilhosa de 90 minutos.”
E para o ataque, a inesquecível “narração” de um gol de placa em “Fio Maravilha”:
“Tabelou, driblou dois zagueiros / Deu um toque driblou o goleiro / Só não entrou com bola e tudo / Porque teve humildade em gol.”
E não podia faltar, claro, a homenagem ao ídolo Zico.
“É o camisa 10 da Gávea”
Na música brasileira, por sinal, não faltam homenagens aos nossos camisas 10 e seus comparsas. Pelé é cantado com a urgência profética de Tom Zé
“Vocês vão ver como é/ Didi, Garrincha e Pelé/ Dando um baile de bola”
À inocência da cantiga roda
“Se eu fosse Pelé, tomava café/ Se eu fosse Tostão, tirava o calção/ Seu eu fosse Dario, pulava no Rio/ Se eu fosse Garrincha, não pulava, não”
Das gerações mais atuais, Rivaldo é justamente lembrado. Uma bola na rede do genial anticraque é comparável, na sensacional “Meu esquema”, do Mundo Livre, a “um esquema” com aquela garota que todos sonhamos um dia encontrar.
“Ela é o que meu médico receitou / Rivaldo Maravilha mandando um gol / Minha chapação...”
Ainda na linha chuteiras e garotas, Dr. Sin concebeu a simples, direta e incontestável
“Futebol, mulher e rock&roll/Meu Deus como isso é bom”
Como também é bom ver que o Skank já cantou a uma geração inteira o que é, sem rodeios, uma boa e velha partida de futebol
“O meio campo é lugar dos craques/ Que vão levando o time todo pro ataque/ O centroavante, o mais importante/ Que emocionante, é uma partida de futebol/
O goleiro é um homem de elástico/ Só os dois zagueiros tem a chave do cadeado/ Os laterais fecham a defesa/ Mas que beleza é uma partida de futebol”
Uma relação tão próxima que não faltam exemplos de músicos tirando onda de craques e craques bancando os músicos.
Chico Buarque jura já ter passado dos mil gols no comando do ataque do Polytheama.
E Pelé já perdeu as contas de quantas vezes correu os dedos pelo violão e soltou a voz, mesmo mostrando em versos como “ABC/ Toda criança tem que ler e escrever” e “Quem sou eu, Maradona/ Quem é você/ Você quer ser eu/ E eu quero ser você” que o Édson calado é um poeta.
E também, convenhamos, não há festa de título sem uma música. “Deixa a vida me levar” foi o hino da família Scolari; “Sorte grande (poeira)” virou canção oficial do centenário do Benfica; e “Seven Nation Army” emprestou seus arranjos ao “Siamo campione del mondo/ Uô, po, po, po, po, po, po, po” que varreu o mundo na voz dos italianos em 2006.
Portanto, quando for pensar no seu time neste sábado, não deixe de cantarolar a música que lembra aquele gol de placa, ou um jogo inesquecível. Afinal, hoje é dia do futebol. E dia da música.
Texto descaradamente inspirado nesta muito mais competente obra de André Pugliesi
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Este Brasilzão de meu Deus...
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