Crise técnica?
por Ricardo Sabbag12h39

As boas atuações do time do Flamengo têm reacendido um debate sobre a participação de jogadores "brasileiros", que jogam no Brasil, na seleção. Teriam Fábio Luciano, Léo Moura, Juan, Ibson e outros lugar no time de Dunga?
Não só o Flamengo abasteceria essa seleção pura. É fácil pensarmos em outros nomes de aparente consenso: Alex (Inter), Marcos (Palmeiras), Thiago Silva e Thiago Neves (Fluminense), Miranda e Alex Silva (São Paulo), Ramires (Cruzeiro). Se alinhássemos 11 nomes e respectivas posições, teríamos um bom time. Certamente não um time bom o suficiente para disputar um título internacional, mas um time competente.
Fato é que não precisamos de uma seleção puramente brasileira. Me parece estupidez deixar os maiores jogadores brasileiros - especialmente o Kaká, convenhamos - fora da seleção por algum tipo de ato nacionalista. Mas, ao mesmo tempo, muitos jogadores com experiência internacional chamados recentemente por Dunga não têm tido boas atuações, precisamente Maicon e Gilberto, Gilberto Silva, Mineiro e Josué.
Não acredito que Dunga não convoque mais jogadores "brasileiros" por birra. Penso que o caso, ali, é outro. A conquista da Copa América se tornou paradigmática na trajetória de Dunga como técnico da seleção. Com os grandes craques dando as costas para a competição, ele apostou num time de "guerreiros" e, para o bem ou para o mal, levou o caneco. Isso fez com que o técnico acreditasse que aquele time, mesmo não sendo nenhum primor de técnica, fosse capaz de seguir em frente.
Talvez seja. Mas é esse raciocínio que acaba barrando a possibilidade de experiências com jogadores que estão jogando muito mais que os selecionados. Me parece que Dunga prefere apoiar o seu grupo, num gesto de confiança e retribuição àqueles jogadores, do que propriamente tentar encontrar a melhor seleção do momento. É o velho discurso contrasensual da "coerência". O técnico quer parecer coerente chamando sempre a mesma base, mas é incoerente ao dizer que está chamando os melhores. Não está.
É fato que a seleção brasileira está atravessando uma crise técnica com o afastamento dos Ronaldos, a má fase de Robinho e a dificuldade de contar com Kaká livre e solto em todos os jogos. Não é possível saber, no entanto, se um jogador que está bem num clube vá repetir o mesmo sucesso na seleção, como é o caso atual de Diego, sem convocá-lo para jogos de importância razoável, como por exemplo os próximos confrontos pelas Eliminatórias.
Essa questão me parece um pouco distante do efeito 'janela de transferências' sobre o futebol brasileiro. Talvez boa parte desses selecionáveis esteja daqui a um mês jogando por um obscuro time árabe ou de um país europeu de menor tradição no futebol, e não saberemos muito sobre eles. Há outra categoria de jogadores - os mais novos que chegam a times de ponta, caso de Daniel Alves, que também devem pedir passagem ao longo do segundo semestre. Isso pode mudar bastante o panorama da seleção.
Mas o mais importante nessa questão é que a batata de Dunga está mais do que assada e qualquer um sente que basta fracassar nas Olimpíadas para o técnico cair fora - e logo teremos Vanderlei Luxemburgo deixando recados no celular de Ricardo Teixeira. A possível mudança de técnico pode mudar tudo. Ou nada. Mas será o verdadeiro fato novo na seleção.
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