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Jul 14

Da Febem para os gramados

por Jones Rossi15h35

É a primeira vez que Fábio e Maykon, ambos de 18 anos, posam para uma sessão de fotos e dão entrevista. “As pernas bambeiam”, diz Fábio, enquanto tenta fazer embaixadinhas com uma bola de capotão gasta e um pouco murcha. São apenas 10h, mas o sol já bate forte na unidade da Fundação Casa, antiga Febem, em Lins, a 400 km de São Paulo. Fábio está internado desde abril deste ano, por tentativa de homicídio, e Maykon, reincidente por assalto à mão armada, desde fevereiro. Apesar de tudo, o futuro parece ser brilhante para a dupla. Os dois treinam meio período no Clube Atlético Linense e estão próximos de se tornarem profissionais.

"Maykon tem velocidade, sabe se deslocar. E Fábio, se for bem trabalhado, pode chegar à Seleção”, garante Márcio Eduardo de Paulo, professor de educação física da Fundação Casa e ex-jogador profissional de basquete, com passagens por Pinheiros, Rio Claro e Belenenses, de Portugal.

O crime interrompeu a carreira dos dois. Fábio jogava nas categorias de base do Rio Preto quando, em dezembro do ano passado, se envolveu em uma briga. "Fui entrar no meio e acabei apanhando". Nervoso, buscou uma arma e acertou o agressor, que ficou paraplégico. "Penso nisso toda noite." Esteve foragido por quatro meses até decidir se entregar. "Pelo menos eu pago isso aqui logo." Deve sair em outubro.

Maykon deu seu primeiro tiro aos 11 anos de idade. Mas está na Fundação Casa por outro motivo. No final de 2007, roubou uma casa – sem levar nada. Não deu tempo. A polícia foi avisada e o prendeu. Está na unidade desde fevereiro e deve sair até o final de agosto. "Penso no que fiz, mas não me arrependo, não. Não adianta, porque não vai voltar atrás." Antes de ser preso, chegou a jogar nos juniores do Oeste, time que disputa a Série A-2 do Campeonato Paulista.

Agora, os dois tentam recuperar o tempo perdido. Fábio, 1,81 m, apelidado de Júlio Baptista pelos colegas, pela semelhança física com o meia da Seleção, pode, quem sabe, substitui-lo daqui alguns anos. Já recebeu propostas de times como Guarani e Ponte Preta. São-paulino e fã de Cristiano Ronaldo, jogador da Seleção de Portugal, sonha com a Inter de Milão. "Lá o futebol é mais bonito."

O corintiano Maykon, 1,56 m de altura, ganhou o apelido do carrasco de seu time na Copa do Brasil, Carlinhos Bala. "Pretendo seguir no futebol, mesmo que não dê certo na Linense."

Eles também estudam. Maykon faz a sétima série e Fábio está no 1º ano do ensino médio. "Se eles saírem daqui direto para um clube, será bem melhor", diz, apreensivo, o professor Márcio. "Aqui, a gente acompanha, mas a vida deles lá fora é diferente. Agora, quem tem de fazer por eles são eles mesmos."

ENTRE OS PROFISSIONAIS

Mesmo internos da Fundação Casa – e por isso sem condições de treinar em tempo integral –, Maykon e Fábio foram relacionados pela Linense para os Jogos Regionais. Na primeira partida, contra o União Barbarense, Fábio ficou no banco de reservas e Maykon teve de ver o jogo das arquibancadas do estádio Fernando Costa. O time saiu ganhando, mas deixou empatar no final. "A ansiedade da estréia acaba atrapalhando", teoriza Osnisvaldo de Souza Carneiro, o Osni, ex-ponta direita do Palmeiras e técnico das categorias de base da Linense. Na vitória por 1 a 0 contra o XV de Jaú, que garantiu o 1º lugar no grupo, os dois entraram no segundo tempo. "Para não deixar cair o ritmo", disse Osni. "O Carlinhos foi bem no contra-ataque. O Fábio entrou bem, é um diamante bruto. O (Wilson) Tadei (técnico dos profissionais da Linense) gostou muito dele e quer que vá para o time de cima." Durante as férias, Fábio vai treinar com o time profissional.

Osni falou sobre o futuro dos garotos.

Qual é a sua avaliação dos dois?

Fábio é um segundo volante que sabe sair tocando a bola. Falta trabalhar um pouco a parte física. O Maykon é um atacante veloz, com boa explosão. O único problema é o tamanho. Hoje, os empresários mandam, e todo mundo quer um jogador mais forte, para vender para a Europa.

Você falou com eles sobre os crimes que cometeram?

Eu nem pergunto nada. Para mim, não dão trabalho. Trato eles igual a todo mundo. São quietinhos, respondem tudo educadamente. Mal dá para acreditar.

Você acha que o fato de terem sido presos pode prejudicá-los?

Pode. Tinha um garoto bom, teve proposta da Europa. Esses dias, o achei na rua. Perguntei o que tinha acontecido. 'Professor, caí na vida de novo.' Eles têm que sair de lá com estrutura.

O que você passa para eles?

Disciplina, companheirismo e o jogo em equipe.

3 comentários
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Comentário de: Felipe Lessa Email

Fiz minha conclusao de curso de jornalismo em uma chacara de ex meninos de rua, cerca de 60km de curitiba. Muitos ja tiveram envolvimento com drogas e assaltos, mas, por sorte tiveram alguem que os deu a chance de sair das ruas. Muitos deles disseram que nao voltavam para a vida de antes pois na chacara tinham educacao, comida e poderiam jogar futebol todos os dias.

PermalinkPermalink 14.07.08 @ 22:56



Comentário de: Cassol · http://impedimento.wordpress.com

Muito bom, mais uma vez.

Avante, De Primeira, o SEGUNDO melhor blog de futebol no Brasil, heheheh.

Abraços.

PermalinkPermalink 15.07.08 @ 13:20



Comentário de: Jones Rossi Email

Bah, gaúcho é metido mesmo. Hehehe.

PermalinkPermalink 15.07.08 @ 14:11



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