Velha infância
por Equipe De Primeira00h25
Por Ayrton Baptista Júnior*
Uma das perguntas básicas da minha infância foi:
por que os gaúchos entram no Campeonato Brasileiro para ganhar e os paranaenses só para participar?
Me irritava ouvir comentários como “deixou uma boa imagem” a cada jogo em que Atlético e Coritiba davam suor em paulistas e cariocas sem, no entanto, conseguirem a vitória. Me incomodavam as comemorações em torno de sexto, quinto, quarto lugar. Me perturbavam os que viviam de uma vitória só, como o Colorado do 4 a 0 sobre o Flamengo, em 1981.
Por conta da questão acima, me interessei por vários aspectos da cultura do Sul do país e entendi que a ambição do Rio Grande para conquistar o Brasil é antiga. O Colégio Militar de Porto Alegre forneceu seis presidentes (Eurico Dutra, Castelo Branco, Costa e Silva, Emílio Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo) e a cidade de São Borja, outros dois (Getúlio Vargas e João Goulart). E para contestar os gaúchos feitos em casa e os de passagem (Dutra era matogrossense; Castelo, cearense; Figueiredo, carioca) só mesmo a oposição de gaúchos, como Luís Carlos Prestes e Leonel Brizola.
Percebi que eles deixam marcas na literatura há tempos. A primeira parte da trilogia O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, o grande romance regionalista de lá completa 60 anos em 2009. O daqui nasceu há apenas uma década: Terra Vermelha, de Domingos Pellegrini. Porém, constato que estamos empatando também porque aprendemos a roubar catarinenses, como o escritor Cristóvão Tezza, atleticano nascido em Lages.
Quando o Coritiba foi campeão nacional em 1985, desconfiei de que lutar por títulos nacionais passaria a ser uma rotina para os paranaenses. Assim como era e é até hoje em Porto Alegre (cidade que, acreditem, não conheço). Mas o abismo entre o futebol dos dois estados só diminuiu após o Atlético de 2001 (em seguida, os três times de Curitiba foram à Libertadores e os atleticanos chegaram perto da taça).
Assim como no futebol, a projeção paranaense nas artes, na política e em outros setores hoje é maior do que há duas décadas. O governo Lula, por exemplo, dispõe de um ministro do Sul do estado e outro radicado no Norte, que ocupam pastas cobiçadas: Reinhold Stephanes, da Agricultura, e Paulo Bernardo, do Planejamento.
Mas, ontem, vendo o Coritiba (não) jogar contra o Internacional, sofrendo três gols de Alex (que é de Cornélio Procópio), e verificando a posição do Grêmio na tabela (3º lugar) voltei à minha infância e tive vontade de perguntar: por que os gaúchos entram no Campeonato Brasileiro para ganhar e os paranaenses só para participar?
*****
Lembrei agora da curitibana Isabeli Fontana, atualmente a segunda do mundo no campeonato das modelos. Pensei que ela estava perdendo no saldo de dólares para Gisele Bündchen. Errei. A líder do certame é Raquel Zimmermann, gaúcha de Novo Hamburgo…
*Ayrton Baptista Junior escreve para o blog Craques e Caneladas e cedeu este texto ao De Primeira
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Comentários:
Mas tudo bem, que nos sirva de consolo que o Juventude também está lá.
Valeu
Coritiba e Atlético não podem querer rivalizar com Corinthians ou Palmeiras antes de dominarem toda a torcida do estado. Inter e Grêmio, no geral, estão pouco se lixando (as suas torcidas) com outros times do país. Se importam mesmo é em acossar o rival.
Acho que aí que falta um pouco mais de personalidade aos paranaenses. Primeiro, precisam querer ser, efetivamente, paranaenses.