O cornudo infiel
por Equipe De Primeira15h55

Por Airton Gontow*
Há muito pouco tempo Jardel, um dos maiores ídolos da história gremista, confessou, de forma comovente, que passou um longo período envolvido com drogas e pediu uma chance para jogar no Grêmio. Queria uma oportunidade de retomar, no ocaso de sua carreira, uma trajetória vencedora. Buscava ainda, visivelmente, como um filho, abrigo e conforto nos braços de quem o amava. A torcida tricolor gaúcha ficou comovida e pediu sua contratação. O caso repercutiu no País e todos esperaram pelas cenas do retorno de Jardel ao clube.
Mas o presidente Paulo Odone permaneceu impassível. Ele, a diretoria de futebol e o técnico Celso Roth ficaram insensíveis ao drama vivido pelo artilheiro que tantas alegrias deu ao clube; ficaram indiferentes aos e-mails, telefonemas, pedidos na rua e manifestações no estádio. Nem sequer consideraram a possibilidade, ainda, que remota, de se construir uma das mais belas e humanas histórias do futebol.
Agiram com pragmatismo. Mas com um pragmatismo burro. Até porque independente da recuperação do atleta, estava claro que o time ganharia a simpatia da opinião pública nacional, que a marca do patrocinador estaria nas manchetes de todos os meios de comunicação e que a torcida gremista responderia em massa, lotando ainda mais os estádios e até perdoando eventuais erros de Jardel, que poderia até entrar no segundo tempo dos jogos fáceis e já decididos.
Odone traiu o jogador que deu títulos ao clube. Traiu os aficcionados que, como poucos clubes no País, têm dado exemplos de reverência a antigos ídolos, como nos jogos em que aplaudiram e cantaram hinos em homenagem a Renato Gaúcho e Danrlei, ainda que estes estivessem defendendo novas cores.
Mas o presidente não traiu apenas Jardel e os torcedores. É uma história que se repete. Perguntem a Sandro Goiano e Galatto, dois dos heróis da Batalha dos Aflitos, o que sentem sobre a maneira como foram negociados.
O agora ultrajado Paulo Odone nunca julgou nenhuma Proposta Indecente quando o dinheiro foi oferecido diretamente para o Grêmio. Vendeu o jovem Carlos Eduardo (então com 20 anos de idade), por cerca de 8 milhões de euros para o Hoffenheim, da segunda divisão da Alemanha; o versátil e impetuoso Lucas (então com 20 anos) por 9 milhões de euros para o Liverpool; e o prodígio Anderson (então com 17 anos), por cerca de 6 milhões de euros a um fundo de investimento português. Não sou contrário à venda de jogadores, já que o clube precisa de dinheiro. Se o Grêmio não deixa de vender seus jovens craques por que então um jogador de 30 anos, com um vínculo de poucos meses com o clube, não negociaria a si mesmo por 5 milhões de dólares?
Claro que Roger deveria ter sido mais grato e honesto com o time que o recuperou para o futebol. Mas é injustificável que Odone pose agora de marido corno, aquele que é o último a saber, estupefato depois que o mandaram “se Catar”.
Particularmente fico mais indignado com a falta de competência da diretoria gremista em fazer um contrato que permitisse ao clube uma boa indenização no caso da saída do jogador (não aprenderam com o caso Ronaldinho?) e, principalmente, com a já citada recusa em abrigar Jardel (que esta semana acertou contrato com o Criciúma).
Indignação que cresce quando vemos o Grêmio receber de volta o jogador Tcheco, que sempre mostrou falta de futebol e responsabilidade nas horas decisivas, e o tosco centroavante que estava no Cruzeiro.
Não era o que a alma castelhana e brasileira da torcida gremista pedia. Se o argentino ama Gardel, o gremista ama Jardel! Que alegria, que alegria teria sido um gol, um único gol que fosse, de Jardel novamente com a camisa do Grêmio. Sonho impossível quando, para o presidente Odone, Marcel é o limite!
*Airton Gontow, 46 anos, é jornalista e cronista
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