A morte do futebol
por Equipe De Primeira01h34
Por Mangabeira* - mangabeira@ovisnigra.org
Não poderia ser diferente, e o mote (interessantíssimo) pra esta crônica advém d’um entrevero em mesa de bar. Confesso, no pendor etílico fui vencido: entretanto, não por capacidade argumentativa, e sim por impotência vocal. Como gritavam mais alto os meus interlocutores, e eram mais numerosos, puderam fazer valer suas razões equivocadas.
Desde o início, desde a decisão de transformar o panorama do Campeonato Brasileiro de Futebol de certame decidido à maneira dos mata-mata, como finais em jogos de ida-e-volta, para a competição monótona resolvida à maneira dos pontos corridos, se gerou controvérsia insanável pr’aqueles apaixonados pelo esporte bretão. À ocasião a que me remeto, banhado que estava em quantidade exponencial de tulipas de chope, me vi encurralado pelas flechadas etimológicas, repletas de tortuosidade, lançadas pelos meus oponentes no litígio futebolístico.
O maior erro da Confederação pátria de futiba, diziam eles, seria a insistência nos Campeonatos regionais. A fórmula, que já se havia mostrado fracassada, deveria ser extinta de vez, e vigoraria então, em nosso calendário esportivo, o Campeonato brasileiro tão-somente, disputado na modalidade de pontos corridos. Ora, seriam diversas as vantagens! Com um calendário pré-estabelecido, os clubes poderiam dar vazão ao seu planejamento estratégico e organização empresarial, estimando, com requintes de precisão, seus rendimentos e prevendo suas perdas. É um absurdo, na era do clube empresa, falar em certame competitivo outro que não seja o Campeonato de pontos corridos, onde o mérito da conquista sempre, repetiam, sempre é concedido à agremiação que de fato o mereça, seja por ter exercido um melhor programa empresarial ou por ver retornados os investimentos realizados. Pra justificar esse tipo de argumento, citavam o exemplo dos Campeonatos Regionais, beirando à falência, dificilmente provendo aos clubes participes do certame (à exceção de algumas poucas disputas, como as entabuladas em São Paulo, Rio, quem sabe Minas e Rio Grande do Sul) a equalização das perdas com os lucros auferidos. Deveríamos, nós, brasileiros, imitar os campeonatos europeus!, sim, porque não pensamos nisso antes!, devemos, nós, brasileiros, disseminar por nossos relvados os sistema dos pontos corridos, para beneplácito dos nossos clubes futebolísticos e melhoria do espetáculo. E finalizaram o assunto, dando de ombros às minhas réplicas - ainda que primorosamente embasadas.
Verdade. Por que não nos adaptamos aos pólos futebolísticos mais rentáveis do planeta? É, vamos imitar os Campeonatos de Itália e de Espanha, com seus pontos corridos e seus craques desfilando mitificados pelos campos intangíveis. Vamos implantar em toda extensão territorial do Brasil uma sistemática competitiva que foi implantada de maneira bem-sucedida em um país do tamanho do estado federativo de São Paulo; ou em outro cuja área seja pouco maior que a metade da Região Sudeste nossa. Isso, vamos simplesmente suprimir da História milhares - pois é, milhares - de agremiações esportivas cujo substrato único é o amor pelo futebol, já que elas não poderiam figurar nas hostes dos felizardos a participar do Campeonato Brasileiro de pontos-corridos. Ah!, mas isso não é desculpa!, dá pra criar diversas sub-divisões do Campeonato Brasileiro de pontos-corridos, albergando clubes futebolísticos das mais diversas expressões. O curioso é imaginar de onde estes clubes retirariam seu sustento, já que grande parte do financiamento que provê sua existência advém das Federações de Futebol locais, numa simbiose utilíssima, enriquecendo os bolsos dos cartolas e, não obstante, permitindo a diminutos futebóis-clube a sobrevida. Qual o quê!, isso também não é desculpa!, que se acabem esses clubinhos que em nada contribuem para o engrandecimento do nosso esporte nacional, ora bolas! É, que se acabem clubes pouco expressivos como o São Cristóvão, que pavimentou o caminho de glória do Ronaldo, fenômeno espadachim. Ou que apaguem dos anais da História agremiações como o Sinop, que presenteou o mundo com o goleiro que mais gols marcou no futebol, o são-paulino Rogério Ceni. Isso pra não trespassar os umbrais da contemporaneidade.
Quiséssemos ir mais além, poderíamos falar também da tristeza que dominaria o mundo, sem poder contar com o futebol de Domingos da Guia, revelado no Bangu; da consternação de todo um povo, sem poder contemplar a genialidade de Sócrates, apresentado pelo Botafogo de Ribeirão Preto; da tristeza quase alcoólica abatida sobre muitos, obstaculizados de testemunhas os dribles bêbados de Marinho Chagas, trazido ao mundo pelo modesto Riachuelo norte-rio-grandense; ou da depressão que acometeria nações, privados os olhos de pousar sobre a classe do mestre Zizinho, ídolo supremo do Olaria; da catástrofe histórica de não mais poder computar o recorde que detém o futebol brasileiro e o Alecrim Futebol Clube de haver escalado sob suas balizas o único arqueiro posteriormente Presidente da República, o Café Filho.
O futebol é máquina que se move apoiada em duas engrenagens, essenciais e indissociáveis: a paixão desmesurada e a tradição histórica. Enquanto o campeonato de pontos-corridos é o ceifar de um, a supressão dos campeonatos regionais é o aleijo d’outro.
Cogitar a hipótese de dar cabo dos Campeonatos Regionais, esposando para tanto argumentos de cunho econômico-financeiro, ah!, que esses campeonatos não dão lucros, não enchem estádio, quem vai pagar pra assistir um Flamengo e Bonsucesso, ou um ABC e Assu? Não posso negar que não são estes clássicos de arrastar multidões, entretanto fazem parte da tradição futebolística do lugar. E, encarados que forem por outro prisma, são estes confrontos, embates com as maiores potências regionais, os eventos mais importantes e motivos mesmo da existência de times como o Bonsucesso ou o Assu, acontecimento que movimenta a cidade e a economia local. Acabar com os campeonatos regionais, pois, seria tolher os direitos que possuem os habitantes dos rincões distantes da nossa terra brasileira de dedicarem amor ao futebol. Daí porque relativizar o Brasil e suas idiossincrasias, comparando-as ao sistema organizacional das competições em Itália e Espanha, ser um completo absurdo. Ora, temos campeonatos regionais porque podemos, porque fazemos parte de um país continental, cuja extensão gigantesca e o amor incondicional pelo futebol, permitem a existência de clubes de futebol muitos. Ademais, somos o único país-monstro a nutrir essa paixão doentia pelo futebol. Existisse esse amor incondicional de um povo por um determinado esporte na China, ou na Índia, até mesmo no Canadá, talvez lá também observaríamos disseminados diversos campeonatinhos regionais de futebol, ao invés de críquete, pingue-pongue ou hóquei sobre o gelo, com seus timinhos de pouca expressão. E não se fala mais nisso.
*Mangabeira escreve no site Confraria das Ovelhas Negras, onde este texto foi originalmente publicado.
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Comentários:
Cara, craque como Ronaldo iria ser revelado em qualquer clube.. ter começado no São Cristovão foi coincidencia.
E o futebol mudou, assim como o mundo mudou.. é um futebol moderno, e aquele futebol romantico acabou realmente. A gente só vê esse romantismo em times de suburbio, e amadores. É uma pena, mas é verdade..
Tem que saber separar as coisas, e aproveitar o que o futebol moderno tem pra oferecer. Pra quem gosta de futebol, é claro..
Eu mesmo relutei muito pra aceitar esse futebol de hoje, mas hoje consigo enxerger coisas boas.. e consigo apreciar a arte do futebol moderno. Passei quase 8 anos sem acompanhar futebol.. mas hoje voltei a acompanhar, e tem sido ótimo.