Os pontos corridos vão matar o futebol
por Equipe De Primeira08h41
Por Mangabeira* - mangabeira@ovisnigra.org
Fato que atiçou minha curiosidade esses dias foi a sucessão dos resultados das quartas-de-final da Euro 2008. Aliás, meritória de um pequeno intermezzo é essa competição européia. Uma verdadeira celebração do futebol, onde ele, o esporte bretão, vem sendo jogado como há muito não se via: vertical e envolvente: objetivo e atraente. Vê-se poucas faltas e muita bola em jogo. Excelentes jogadores, partidas emocionantes – dos quatro jogos da fase mata-mata, três deles alcançaram a prorrogação, com a Holanda e a Turquia fazendo gols nos últimos segundos, e dois outros resolveram-se somente nas penalidades máximas. Uma beleza. Enquanto, lá, europeus se deliciam com exibições apaixonantes, cá, nós temos que nos contentar com as idiossincrasias do Dunga: já imaginaram o Guus Hiddink à frente da seleção canarinho?, não haveria equipe a nos bater.
Sem fugir do foco, o curioso é que, depois desta fase de quartas-de-final, a única equipe nas semi, das que se classificaram em primeiro na fase de grupos, é a Espanha – depois de uma batalha, travada na marca dos pênaltis, com a pior seleção do planeta, a Itália. Todas as outras, favoritas por excelência, tombaram, vencidas em embates excepcionais. Felipão e seus soldados, derrotados pela malandragem de Ballack – malandros, o alemães?, e nós, contentando-nos com Dunga...; a Turquia inabalável, guerreiros Highlander tingindo de lágrimas o pano quadriculado da costa da Dalmácia; a Laranja Mecânica contemporânea de Marco van Basten, de toque de bola admirável, sucumbida ante o preparo físico russo e a tenacidade d'um astro em ascensão, Arshavim. E isto, amigos, é a magia que permeia o futebol. Não há, neste esporte, favoritos. Não há, dentro das quatro linhas, razão e coerência - havê-los, ao menos, não se deveria. Futebol, por ser um jogo de estratégia que se joga estritamente com o coração, é vício incurável.
No entanto, e infelizmente, a Euro não é mais a regra, mas a exceção. O desfile de craques em prados europeus é o alento final para uma realidade avassaladora – da qual o título italiano da última Copa do Mundo é símbolo heráldico. Assistimos, na TV, um fóssil: este futebol vistoso está morto.
Lembro-me de reiteradas discussões com meus próximos, estes todos advogados do sistema competitivo do futebol de hoje, o esquema de pontos corridos. Sendo tipo de certame que favorece e premia os clubes-empresa, agremiações corporativas cujo objeto social é o futebol, é o sistema reinante em confederações as mais diversas. O Campeonato Brasileiro, último dos moicanos, há muito viu sofreu a final derrocada. O campeonato de pontos-corridos é o assassino do real futebol, congelando as emoções que deveriam preencher os espaços usurpados pela razão no desporto. É competição que premia os clubes ricos, que ficam cada vez mais ricos com as premiações, alijando ainda mais a essência da disputa de nossos campos – não excluamos a possibilidade de ver, dentro em pouco, o Campeonato Brasileiro como querela restrita a poucos, como já o é a Liga Espanhola, circunscrita a disputas bairristas entre Barcelona e Madrid, Villareal e Atlético de Madrid correndo [muito] por fora; o Calcio Italiano, revezamento exclusivo entre Milan, Inter e Roma; ou a Bundesliga, um acordo de comadres entre Bayern Munich, Werder Bremen e Schalke 04: o bicampeonato do São Paulo Futebol Clube, e o tri como possibilidade bastante plausível, é sintomático.
Saudoso, trago à mente imagens antigas, de um Flamengo inferior, sob a batuta do maestro Leovegildo Júnior a comandar a meia cancha, e d'um Gaúcho voador a auxiliar na conquista do título brasileiro de 1992. Tal acontecimento é hoje em dia improvável. Naqueles tempos, o Mengo se classificou para a fase do mata-mata nas últimas posições da fase classificatória: se classificaria, hoje em dia, pra sul-americana e olhem lá.
O que ocorre é que acabou-se a emoção. Não há mais o fulgor de se esperar até o último minuto para o gol salvador que vai dar o título. Nos campeonatos de pontos corridos, o resultado se constrói em rodadas passadas: o certame, muitas vezes, ao aproximar-se de sua reta final já tem os seus campeões bem definidos. E a comemoração se dá assim, discreta, os vencedores se limitando a darem-se tapinhas nas costas, uma camisa comemorativa, um churrasco meia-boca, e os torcedores nas arquibancadas batendo palminhas contidas ao invés do grito de fazer explodir a glote ou do turbilhão de lágrimas incessantes. Um futebol burocrático que caminha para pintar-se de cores aristocráticas. Vejo a hora acorrerem pro estádio damas com seus chapéus enormíssimos e senhores de fraque ou terno completo, assistindo o espetáculo com comedimento, enquanto pitam suas cigarrilhas e tecem elogios em francês. “Hum, essa jogada foi très chic! Superbe!”
Futebol só tem graça se obrigar o torcedor a gravitar no limiar d'um enfarto do miocárdio. À beira d'uma apoplexia. Às bordas d'um ataque epilético. Futebol é sentimento e decisão a cada lance. E não essa história de planejamento, gestão, administração, estrutura empresarial. A graça do esporte é saber que, sim, aquele clube que investe pesado, compra jogadores caros, tem estádio próprio, proventos muitos, pode ser surpreendido e perder um jogo, apenas um jogo, pr'aquele timezinho de várzea que treina em campo de terra batida, e, assim, dar adeus à taça. Perguntam-me se não seria mais justa essa opção, a dos pontos corridos, já que premiaria a equipe que de fato foi a melhor durante todo o campeonato, ganhou mais jogos, fez mais gols, organizou-se melhor como instituição. Sim, de fato: mais justo seria. Mas aí não mais seria futebol. Se fosse futebol mero esquema de ponderações equilibradas, o Brasil teria sido campeão do mundo em '50. E em '82. O São Paulo estaria na final da Libertadores. O Flamengo seria campeão da Copa do Brasil em cima do Santo André. O América teria sido campeão potiguar de 2007, com mais de dez pontos à frente do segundo colocado. E teríamos nas semi-finais da Euro Portugal versus Croácia, e Holanda enfrentando a Espanha.
A graça do futebol (ou calcio) (ou soccer) é a injustiça, o impedimento mal marcado, o gol de mão, o juiz corrupto, o pênalti ignorado, o spray de pimenta no vestiário.
Abaixo essa palhaçada de fair play, que ceifa os contra-ataques fatais e impede a seqüência do jogo e concede aos [pseudo] atletas uma excelente ferramenta de paralização do espetáculo – esses jogadores de araque, que saem de maca somente para no minuto seguinte saltar da cama médica e, dando pulinhos à margem do gramado, clamar ao juiz que os deixem voltar ao jogo. Abaixo essa mentalidade excessivamente regulamentada, que cria regras e regras e mais regras e impede que os praticantes e amantes desse esporte se lembrem que para bater uma bolinha bastam somente dois pares de chinelo e uma bola de meia. Abaixo a prática costumeira, de marcar falta a qualquer contato, os boleiros esquecendo da pelota e se preocupando em mergulhar na área à cata de pênaltis quando poderiam progredir na jogada e marcar mais um tento.
O futebol virou uma exibição falsa, de resultados quando não fabricados, completamente previsíveis. Vez ou outra a gente tem a satisfação de testemunhar o retorno da emoção ao jogo, e do futebol jogado com paixão. Como na Euro 2008. Eu vou torcer, admirador neófito, pra Fúria quebrar a maldição preconizada pelo rei Juan Carlos. Espero, pois, seja a Espanha campeã. Felizmente, não dá pra se afirmar antecipadamente uma vitória. Mata-mata é imprevisível, sabem vocês como é.**
*Mangabeira, torcedor do ABC, cedeu gentilmente este texto, originalmente publicado no site Confraria das Ovelhas Negras, ao De Primeira.
** O texto foi publicado no Confraria das Ovelhas Negras antes da final da Eurocopa.
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FAZ PARTE DO JOGO?
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Comentários:
Estou de acordo com o autor do texto!
É poder do vil metal - potencializado pela idéia abjeta do campeonato de pontos corridos!
É por não termos clubes fortes e estruturados (como Barcelona, Madrid, Milan e outros) que nossos melhores jogadores vão para fora. O que dá brecha para este tipo de baboseira ser escrita!
Baboseira mesmo...
Prefiro o campeonato de pontos corridos, apesar de, como disse um amigo aí em cima, Atlético e Coritiba estarem sendo garfados jogo após jogo.
É o atraso travestido de coisa, como dizem os moderninhos?, hype...
É de bolar de rir: quer dizer que o que acaba com o futebol são os pontos corridos? Ah, tá... pensei que fossem as negociatas, os trambiques feitos no pórão e à luz do dia, fosse o financiamento de cartolas aos marginais que frequentam muitas TOs, a dilapidação do patrimônio... a lista é grande e vergonhosa.
Menos rocambole faria bem ao Mangaba aí.
- Graças aos pontos corridos os clubes tem a obrigação de se ORGANIZAR.
- Graças aos pontos corridos as equipes brasileiras podem competir com outras SULAMERICANAS E EUROPÉIAS (VEJAM AS ÚLTIMAS 4 EDIÇÕES DA LIBERTADORES)
- Graças aos pontos corridos temos um campeão legítimo e não a equipe que MOLHORA SÓ NO FINAL DO CAMPEONATO.
O campeonato Brasileiro só não é melhor pq a CBF não limita a saída de jogadores, A "LEI PELÉ" enriqueceu EMRESÁRIOS E PARCERIAS,
alguns clubes estão aprendendo a trabalhar dentro dessa lei, os demais estarão fadados ao FRACASSO...
Vou além, Graças aos pontos corridos, que as pessoas veêm que até mesmo no futebol tem que haver "PLANEJAMENTO", isso o BRASILEIRO está aprendendo, ainda!!!!!!
A ética, a organização, a justiça pode estar em qualquier forma de disputa.
Definitivamente, em um país desigual como o Brasil, os pontos corridos, de fato, serão a morte do nosso futebol competitivo. Teremos nãos mais do que 6 clubes revezando a taça ao longo dos próximos anos.
Sem cor.
É a morte do esporte.
Aliás, onde o esporte mais gera lucro e depende da organização das equipes é nos EUA. Vejam se existe algum campeonato de pontos corridos por lá!
os seus argumentos de que o carioca só defende o mata-mata porque não ganha o pontos corridos, serve inversamente para explicar porque vcs defendem os pontos corridos: pois só vcs ganham, e não é porque são melhores do que os outros. É porque a cidade de São Paulo sozinha atrai mais investimentos que todo o nardeste brasileiro. É porque estão aí os melhores patrocinadores. É porque aí que está o dinheiro que faz vcs contratarem os melhores jogadores do país.
Sinceramente, vcs não precisam desses argumentos, nao precisam dos pontos corridos. O estado de SP sempre foi forte e continuará sendo. Só que nos pontos corridos, SP gera uma disputa desequilibrada com o resto do país.
Essa gente conservadora e puritana está apodrecendo o futebol, daqui a pouco futebol vai ficar mais chato que corrida de caminhão,,
Eu detesto os pontos corridos, acho um sistema monótono, frio, um time ser campeão tem 4 rodadas de antecedência e terminar o campeonato de forma melancólica podendo perder todos os jogos restantes pois ja é campeão,,,,e depois recebendo a taça numa festa da CBF,,,eca,,que coisa chata!!
Tenho saudade do tempo do mata mata,,o brasileirão era muito mais emocionante!!