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Jun 26

Por dentro da máquina de propaganda do Chelsea

por Equipe De Primeira13h02

Por Terry Daley*

"Esse deve ser o seu emprego dos sonhos, aposto que seu pai está bem orgulhoso de você" é a primeira coisa que quase todo mundo me disse depois de descobrir que eu estava trabalhando como redator nas publicações oficiais do Chelsea Football Club. Para os olhares sem reação eu explicava que o dinheiro era terrível, as pessoas acima de mim não tinham idéia do que os torcedores queriam da publicação deles, não ligavam para o que eles diziam e tinham menos idéia ainda do que se fazia uma boa revista, e que a falta de criatividade latente não estava ajudando em nada minha carreira e minha redação. A resposta era a mesma quase todas as vezes: "Mas ainda assim, é o Chelsea né? Deve ser seu emprego dos sonhos. E o que aconteceu com o Mourinho hein? Você deve saber algo. Vai, conta pra gente."

Capa da revista do Chelsea

É fácil ver porque as pessoas pensariam que trabalhar dentro do clube que você apoiou apaixonadamente pela melhor parte de 15 anos seria o tipo de emprego que faria sua família orgulhosa, especialmente se quase todos os parentes fossem torcedores do Chelsea, mas a realidade do emprego era algo completamente diferente.

A primeira coisa que se deve levar em mente é que a equipe da revista nem sequer trabalha realmente para o Chelsea, já que nós não éramos pagos pelo clube. Na verdade, éramos empregados de uma editora que fora contratada para produzir todas as publicações do Chelsea, incluindo a revista e a programação do Chelsea, o livro do ano, o guia para a mídia, a newsletter da equipe, a programação do campeonato juvenil e qualquer coisa que o clube decidia que faríamos, geralmente de última hora.

Ao mesmo tempo, a editora tinha um contrato com a Liga de Futebol que tínhamos que cumprir, ou seja, na semana antes da final da Carling Cup eu tinha que sub-editar um artigo de Henry Winter realmente medonho sobre Joe Cole para a programação que começava com a seguinte pérola: "Se a bola pudesse falar, ela flertaria com Joe Cole." Eu não sei não, mas tenho certeza que a bola não piscaria seus cílios na mesma maneira espevitada que o loverman aqui. O engraçado foi que o jornal The Independent revelou depois que ele ficou tão ultrajado com a minha ‘censura’ em seu artigo que exigiu que seu nome fosse tirado do texto. Eu posso imaginá-lo socando, de modo semelhante a um nazista, suas mãos com luvas de couro na mesa em uma "führia" borbulhante, mas no fim ele me deve uma cerveja por fazer de sua carta de amor algo legível.

O outro problema em ter dois chefes é que, enquanto estávamos trabalhando nos mesmo escritórios que o departamento de mídia no Shed End, só éramos parte da 'Família Chelsea' quando era conveniente para eles. Por exemplo, se houvesse uma peça de bobeira exaustiva de marketing que precisava ser produzida, ela era jogada na nossa mesa no meio de um dia com fechamento duplo, mas quando era hora de distribuir ingressos para a final da Liga dos Campeões, para a qual o clube estava pagando para sua equipe ir, ouvíamos "ooh, desculpem, vocês não são funcionários do Chelsea. Não podem vir." Quando isso aconteceu o clube reverteu sua decisão, só para que a equipe da revista pudesse ser ordenada a ficar no Reino Unido para produzir a programação das partidas. Ainda bem que, nessa época, eu já tinha saído e feito meus próprios planos de ir a Moscou.

Conseqüentemente havia um sentimento de isolamento do que acontecia no clube e o que se traduzir dentro do trabalho que fazíamos para eles. Não ajudou o fato de praticamente não haver criatividade ou liberdade de expressão em quase todos os textos que escrevíamos. O editor-chefe, que checava as páginas antes do envio à gráfica mas freqüentemente acrescentava peças e gramática atroz e hífens desnecessários – defensor-central? – atrapalhava o processo tantas vezes ao fazer as mudanças mais patéticas que qualquer coisa que pudesse ser considerada crítica ao clube ou aos jogadores era apagada. Até em matérias sobre partidas os jogadores tinham “má sorte” em errar o chute por muitos metros, e quase qualquer menção de cartões vermelhos e amarelos era terminantemente proibida, apenas quando era para reclamar incessantemente dos árbitros.

As páginas de cartas, que haviam sido uma ótima fonte de diálogo entre o clube e os torcedores na Bridge News e na Onside – as revistas mais pobrezinhas, mas muito mais informativas que precederam as publicações mais novas e brilhosas –, se tornaram pouco mais que folhetos de propaganda, informando sua audiência do quão fantástico o Chelsea era em todos os aspectos. Foi uma estratégia que levou a recebermos um monte de correspondência “trazida pela cegonha”.

Nem me fale do nosso padrão, que dizia "Inter Milão", e não "Inter" ou "Internazionale", e "Sporting Lisboa", e não "Sporting Club De Portugal". Ou da vez em que nos disseram para não publicar uma reportagem sobre uma corrida beneficente que ajudaria a entidade Cancer Research, porque eles não eram CLIC Sargent (o parceiro oficial de caridades do Chelsea) e, portanto, eram uma "caridade de câncer rival".

Por causa de tudo isso, o que o Chelsea faz é um produto sanitizado que padroniza sua audiência e desencoraja a conversa com os torcedores, algo que eu tinha ouvido inúmeras vezes antes de me unir à equipe, e algo que eu rapidamente percebi não ser uma preocupação do clube. Eles não se importam se os torcedores gostam ou não, contanto que eles possam vender o último lançamento da Samsung (a página de Tecnologia, que apenas mostrava resenhas de produtos das empresas afiliadas ao clube, era um exemplo especialmente sem-vergonha disso) ou da Megastore. A leitura desses textos te dá uma idéia do quanto o clube mudou nos últimos cinco anos. Em vez de falar aos seus torcedores já existentes diretamente, eles estão tentando atrair novos fãs com fotos grandes das estrelas do time como parte de sua estratégia global. É uma mudança de prioridades desconcertante, mas muito previsível.

O exemplo mais extremo disso foi a saída de José Mourinho do clube. Naquele dia eu tive que me desviar de inúmeras equipes de TV e rádio no caminho do trabalho, mas quando cheguei ao escritório era como se nada tivesse acontecido. Estávamos completamente insulados de qualquer coisa acontecendo do lado de fora. Quaisquer questões sobre o que estava se passando eram anuladas, e nossa única comunicação era com os releases de imprensa oficiais do clube. Meu telefone não parava de tocar com pessoas querendo saber sobre a história, mas era capaz de eu ter ainda menos idéia do que eles – pelo menos eles estavam vendo o que a TV divulgava. Essencialmente, o clube nos disse: "Calem a boca, vocês não precisam saber o que aconteceu. Ah, e podem arrumar o CV do Avram Grant pra gente? Ele é o novo manager. Valeu."

Assim, enquanto eu me sentia mais como um redator de comunicação corporativa do que um jornalista, eu consegui ter uma idéia do nível de arrogância e orgulho que infestam o clube. O que é conhecido como a "Bolha Chelsea" envolve o departamento de mídia, isolando seus habitantes do mundo exterior e sugando todo o bom senso deles, além de reprimir qualquer criatividade e pensamento individual, semelhante a uma paródia ruim do filme "The Prisoner". Para se ter uma idéia do quanto eles se levam a sério, eles enviaram um e-mail a todos os funcionários sobre o novo chefe de mídia que dizia:

"Estou honrado de anunciar que Steve Atkins se juntará ao clube como Chefe de Mídia [note a letra maiúscula do cargo] em Junho..."
"Steve é atualmente o Sub-Secretário de Imprensa da Embaixada Britânica em Washington..."
"Steve será um acréscimo fantástico ao nosso time, já que ele traz consigo uma rica experiência em Washington lidando com assuntos complicados e as personalidades com maior exposição em um nível diário midiático estratégico, pró-ativo e reativo. Isso faz dele ideal para o Chelsea, onde enfrentamos nossos desafios cotidianos e a longo prazo." [Clube de futebol sem perspectiva.]

Por que eles precisam de alguém que já lidou com a imprensa e política internacionais no palco do mundo para dizer a Martin Samuel que ele precisa manter sua boca metade homem, metade wookie** fechada e que não, Brian Woolnough, você não pode perguntar sobre a noitada escandalosa do Jogador X, só ele pode responder sobre isso. É suficiente dizer que nós não tínhamos permissão para perguntar.

Então é isso. Trabalhar para o seu time pode ser uma experiência muito decepcionante, especialmente se o seu clube tenha se tornado mais uma marca corporativa do que uma equipe de futebol, e se afastado mais do seu núcleo de torcedores a cada temporada que passa, como resultado. Ah, e antes que me perguntem, não, eu realmente não sei o que aconteceu com o Mourinho. Perguntem ao Brian Woolnough.

*Publicado originalmente no site inglês Pitch Invasion, um dos melhores do mundo sobre futebol, e cedido gentilmente para o De Primeira. Traduzido por Ana Carolina Moreno.
**espécie de fera do filme Guerra nas Estrelas

3 comentários
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Comentários:


Comentário de: felipe · http://www.interney.net/blogs/deprimeira

Muito foda...parabéns ao autor do texto e a caroles pela tradução. Queremos mais! Parabéns ao Jones e Carol pela iniciativa da parceria com o Pitch Invasion...Quando vamos ler o próximo post?

PermalinkPermalink 26.06.08 @ 16:06



Comentário de: Equipe De Primeira Email

Imagino que deva ser complicado pra ele. Mas é a opção de quem vai para o lado da assessoria. E sabemos bem que todo veículo tem diretrizes editoriais.

Acho triste pra ele, mas me parece muito mais um problema corporativo do jornalista do que exatamente um erro de postura do Chelsea. Se não estava contente, faça como fez: saia. Ou nem entre.

PermalinkPermalink 27.06.08 @ 06:51



Comentário de: Kicha · http://mondokicha.wordpress.com

Excelente. Bah. Felizmente, nossa relação com o SC Internacional é totalmente diferente, de total parceria, de um Clube que, cada vez mais, quer estar ao lado do seu torcedor (e quer o seu torcedor ao seu lado). Em tempo: bela tradução!

PermalinkPermalink 29.06.08 @ 19:12



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