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Jun 16

Futuro do presente

por Ana Carolina Moreno12h13

As pernas finas, os aparelhos nos dentes, as fracas cobranças de escanteio e as dezenas de bolas isoladas na partida válida pela sétima rodada do Campeonato Paulista Sub-17 sobraram para ambos os times no último sábado na Rua Javari, bairro da Mooca, em São Paulo. O equilíbrio do jogo, que terminou em vitória simples para o time visitante no fim do segundo tempo, talvez seja o resultado da soma das diferenças entre cada equipe.

Do lado mandante estavam os jogadores federados pelo Juventus. Salário mensal de R$ 70 para treinarem todos os dias e estudarem à noite. Pela mesma carga horária de trabalho, os Meninos da Vila recebem, pelo menos, doze vezes mais e, em alguns poucos casos, muito mais do que eu e você juntos. Os santistas saíram vitoriosos e continuam liderando o grupo 6, enquanto os derrotados de sábado mantêm a segunda colocação.

Para compensar a discrepância financeira, Noêmia Navarro investe os recursos que tem: o tempo e a voz. Mãe de Mauro, o camisa 8 do Juventus, ela aproveita a proximidade da arquibancada com o campo para fazer mais barulho do que o treinador. Justifica os gritos incessantes e a batucada na cadeira de plástico dizendo que as jovens promessas são muito influenciáveis psicologicamente e, por isso, precisam de constante motivação.

Em uma manhã atipicamente popular no estádio Conde Rodolfo Crespi, os espectadores também tentava reverter a desvantagem monetária com torcida, pressão e muita parcialidade. Sobrou principalmente para o trio de arbitragem, como não poderia deixar de ser, mas decepcionou o fato de o placar mostrar que Juventus jogava contra S, e as substituições do time S terem sido ignoradas pelo coordenador do auto-falante.

O pênalti contra o time da casa, a poucos minutos do fim da partida, amargou o que já havia se tornado um festival de jogadas desperdiçadas e falta de entrosamento no ataque. Tento marcado pelo camisa 10 santista, Neymar. Chuteira vermelha da Nike, sua patrocinadora, arames prateados nos dentes, faixa amarela no braço direito e uma tremenda velocidade em campo, o capitão do Santos parece muito maior dentro de campo do que na saída do vestiário. Converteu a cobrança com tranqüilidade.

A mesma que usou para repetir todas as frases de efeito já desbotadas de tanta cópia. O meia ofensivo de 16 anos afirma que seus pontos fortes são a “habilidade e velocidade”. O ídolo sai na lata: Robinho. O sonho é a Europa, em especial os times principais da Espanha e Inglaterra, nessa ordem. Mas, claro, não pensa muito nisso, seu objetivo é mostrar serviço para subir logo para o profissional, se o treinador achar que ele tem condições.

E ele ainda acredita na seleção brasileira, considera o time bom e acha, como todos os outros jogadores, uma honra defender a camisa. Pretende se esforçar para ser convocado e diz querer trazer orgulho ao Brasil.

O segundo vexame em dois jogos da equipe pentacampeã veio no dia seguinte a essas declarações. Mesmo assim, duvido que os passes errados do Robinho tenham mudado o discurso do candidato à camisa 8 da seleção – que provavelmente ainda será pentacampeã – nas Olimpíadas de 2016, quando ainda tentará conquistar o ouro inédito. Será que a equipe sub-17 do Juventus ainda receberá R$ 70 por mês até lá?

3 comentários
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Comentários:


Comentário de: Fabio Chiorino

se bobear até menos ($$). Uma pena mesmo. Carol, sensacional a sua matéria. Como também estava lá, pude acompanhar todo este relato. Belo trabalho de reportagem.

PermalinkPermalink 16.06.08 @ 17:59



Comentário de: Leandro

Muito bom, Carol.
O Neymar quase foi para o Real Madrid quando tinha 15 anos. O Santos deu um tremendo 'aumento' pro moleque (falou-se em salário de R$ 30 mil) e uma multa de US$ 30 milhões... Nada mal.

PermalinkPermalink 18.06.08 @ 11:10



Comentário de: Ana Carolina Moreno Email

É Leleco, não perguntei o salário porque ele estava visivelmente acanhado. Deve ser extremamente difícil ter paciência quando se está nessa situação né?

PermalinkPermalink 18.06.08 @ 11:38



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