Fora de Campo
por Equipe De Primeira12h49

Por Fabio Chiorino*
Os grandes craques de futebol do planeta não podem se queixar. A medicina esportiva permite que atuem hoje até os 35 anos, em média, mantendo um satisfatório rendimento. Quando encerram a carreira, os polpudos salários, direitos de imagem e contratos de publicidade garantem um futuro tranquilo. Não é raro encontrar jogadores que, antes mesmo de pendurarem as chuteiras, já acumulam cabeças de boi, fazendas em Minas Gerais, empresas de transporte, bares e casas de espetáculo. No fim das contas, o saldo final, para aqueles que souberam aproveitar os anos de glória, é mais do que suficiente.
Não é o caso de todos os ídolos do passado. Não precisamos ir muito longe na linha do tempo. O canal a cabo SPORTV trouxe, há algumas semanas, um bom exemplo de jogadores que sucumbiram à fama e vivem hoje em estado claudicante. É o caso do Dudu, ex-meia do Vasco da Gama na década de 80. Após participar como titular de várias conquistas, Dudu foi se tornando um jogador de menor expressão. Sem a atenção da mídia e o carinho dos torcedores, naufragou no alcoolismo.
A passagem por Portugal fez com que tomasse gosto pelo vinho tinto. No auge, passou a ser figura frequente em encontros promovidos por socialites. Acrescentou o uísque na lista de suas preferências etílicas. Iniciou, assim, o ciclo vicioso: do treino para a bebida, da bebida para o treino. A morte de seu pai e uma grave contusão no joelho agravaram o quadro. Entrou em depressão e foi obrigado a se desfazer de todos os bens: apartamentos, carros, a primeira mulher e a criação de duas filhas.
Guarda mágoas de alguns companheiros. “Tive falsos amigos, que se afastaram logo que a vida ficou ruim”, desabafa. Mas muda totalmente de opinião ao falar de Roberto Dinamite, o maior ídolo da história do Vasco. Ao encontrar o amigo em situação desesperadora, Dinamite fez uma proposta. Bancou toda a internação numa clínica de recuperação, em Teresópolis. Não surtiu efeito. Dudu deixou o tratamento e voltou a beber. Um dia como tantos outros, Dudu entrou no boteco e pediu uma taça de vinho. Quando o pedido chegou, o ex-jogador olhou para a taça com nojo e decidiu que nunca mais colocaria um pingo de álcool para dentro do corpo. Dinamite não desistiu e continuou oferecendo ajuda financeira e psicológica.
Aos 33 anos, Dudu abandonou o futebol. Mas continua a sentir os efeitos de suas escolhas. Por causa de diabetes, amputou o dedão do pé direito recentemente. Hoje, aos 47 anos, vive em Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro. Não vive sozinho. Reencontrou Joseli, a primeira namorada, com quem vive atualmente. O sustento tira da ajuda de custo que recebe como comentarista de futebol da TV Mar Azul. O seu sonho é abrir uma escolinha e ter a chance de ensinar futebol a futuros talentos. Desde 2002, Dudu diz não beber mais. Orgulha-se de sentar à mesa apenas para beber água mineral com gás.
Dudu, que tinha facilidade para engordar quando jogador, está magro, com alguns dentes podres e uma grande cicatriz que atravessa todo o rosto. Admite sentir falta dos gols, da fama, da atenção excessiva da imprensa e dos torcedores. Acumula saudades até de se trocar no vestiário do Maracanã, antes de uma grande partida. “O estádio lotado gritando seu nome é algo indescritível. Não tem nada melhor do que sentir que as pessoas gostam de você”, revela com os olhos cheios de lágrimas.
Jogadores de futebol não estão distantes de outros profissionais do esporte. A diferença se dá pela forma como se aproveitam da ascensão e enfrentam a queda. Para alguns, sobram os louros, fortunas e a admiração eterna; para outros, as migalhas de uma felicidade com data de validade e que não chega a ganhar corpo. Longe de qualquer fartura que cultivou nos anos 80, Dudu circula hoje pelas dunas, praias, costões, restingas e lagoas de Arraial do Cabo em busca de suas próprias sobras.
*Jornalista de São Paulo e colaborador do blog Haja Saco.
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Comentários:
Dudu representa 90% dos jogadores profissionais que já pararam de jogar no Brasil, alguns que como ele, já jogaram na Europa.