No reduto dos inimigos
por Ana Carolina Moreno21h27

Não é difícil gostar da Arena da Baixada, especialmente quando já se tem predileção pela cor vermelha. A construção imponente adornada por vidros escuros alternados com faixas de azulejo vermelho forte ganha vida nas repetições infinitas de suas listras rubro-negras nas camisas dos torcedores e torcedoras. Ansiedade antecipada, porém, foi uma sensação que eu só dividi com cerca de 20 adolescentes com caveiras de contorno preto nas camisas da Fanáticos, quando eles passaram cantando em direção à sede da torcida organizada.

Talvez seja a forma como as árvores da Praça Afonso Botelho teimem em medir alturas com um estádio do porte do Joaquim Américo, audácia impensada pela flora da Praça Roberto Gomes Pedrosa, vizinha do Cícero Pompeu de Toledo. Talvez seja simplesmente o tamanho da torcida dos dois times e da capacidade dos estádios. Quem sabe a história de vender cadeiras ajude mesmo a aumentar a assiduidade de alguns, o que parece transformar o ritual de assistir a partida ao vivo em uma atividade habitual.
Ocorreu que a torcida atleticana se mostrou deveras comportada. Exceção concedida, com justiça, à Fanáticos após a chegada da bateria. Colocar cadeiras no estádio inteiro pode atrair a Copa, mas afugenta, na maioria, a vontade de apoiar o time com mais do que pensamento positivo. Os que se atreviam a ficar em pé no setor Getúlio Vargas Superior, entre a entrada 306 e a 307, tiveram que sentar a pedidos do gentil homem de ombros largos e terno preto.
Nem o gol no primeiro tempo levantou esse pessoal por muito tempo. Para quem está acostumada ao gigante Morumbi, onde cada gol é seguido por pelo menos 30 minutos de barulho ensurdecedor e um empurra-empurra de deixar hematomas, a reação deixou um tanto a desejar. Se essa é a modernidade européia que tanto orgulho dá, prefiro adotar apenas o cachecol levantado com as duas mãos.

Por outro lado, a visão de campo, mesmo em um dos setores mais afastados, fascinou. Um pouco mais perto e daria para ver os detalhes da cabeça raspada em formato de bola do Alan Bahia. No mais, esse público agradaria Galvão Bueno. Velhinhos com bengalas e pais com filhos pequenos sentavam com segurança para xingar o São Paulo à vontade. E quanta mágoa sobrando desde 2005...
Se as palavras matassem
Dagoberto, claramente, não poderá pisar na Arena durante o resto de sua vida. Até sua filha recém-nascida e os que ainda estão por vir deverão ser hostilizados. O dia em que ele se aposentar do futebol (para não sugerir outro verbo, mais mórbido) será de festa na sede da Fanáticos. Se for enterrado no Paraná, não ficaria surpresa se o túmulo dele for violado e um de seus braços passar a substituir o do boneco com a camisa do Coritiba pendurado na traseira da Kombi oficial da torcida.
Não foi fácil reprimir a vontade de reagir e tentar ver graça em um Atlético rancoroso assim. Dói o estômago até agora a mera lembrança do esforço. Assistir a uma partida na torcida adversária é, definitivamente, coisa de gente que não liga muito pro próprio time.
Sorte que os garotos do CT de Cotia não se deixaram abalar tanto quanto eu. Liderados por Júnior, Joilson, Éder Luis, Éder e um Borges mais apagado, quase fizeram multiplicar o volume de cuspes com alvo na rala cabeleira de Muricy Ramalho.

Porque a torcida ajuda, mas não entra em campo. E, no segundo tempo, o Furacão só fez ventar do lado de fora das quatro linhas. Com a entrada de Rafael no lugar de Wellington, o time que, com os titulares, é um desânimo só, ganhou ainda mais velocidade. A pontaria tricolor fez Vinícius trabalhar mais do que Bosco, graças à falta de mira dos atleticanos.
No fim, das minhas previsões, apenas Borges não correspondeu à altura do que poderia ter feito. Juninho e Bosco, dessa vez, me agradaram. Concordo com Muricy: poderíamos ter virado a partida. A queda de Ney Franco no dia seguinte só confirma que esse empate foi um belo balde de água fria. O Diabo pode não ganhar no Caldeirão, mas a casa não tem time para 100% de aproveitamento nem nesse nem no próximo turno.
Precisa mesmo falar da arbitragem? Esquizofrênica. Pênalti inexistente vira impedimento inexistente, falta pra amarelo vira expulsão, aquele braço indicando o time beneficiado pela lateral funcionou tão bem quanto uma bússola dentro dos muitos iô-iôs que eu vi nas mãos da piazada curitibana. Se eu contei direito, a proporção da escolta aos quatro árbitros no fim da partida foi de dois policiais para cada sem-vergonha vestido de verde-limão.
A saída do estádio foi tão moderna quanto a entrada, e igualzinho ao que acontece no templo da minha religião. Movimentada, mas tranqüila, ainda que o limite de 30 minutos para evacuar o local seja um tanto, hum, europeu demais para o meu gosto. Dei razão ao menino que lançou o pensamento enquanto descíamos as escadas em forma de manada: “se acontece um incêndio aqui, morre todo mundo”. Fiquei sabendo depois sobre problemas com a catraca e, pelo visto, o CAP já anunciou providências. Dá a impressão de a torcida ser mais articulada e respeitada.
Até a morte
A organizada impressionou pela devoção nada original, como não poderia deixar de ser. Até a morte seremos todos torcedores ferrenhos de algum time. Mas o cantinho que montaram a uma quadra da Arena transpira amor. Pronto, falei. É a palavra que menos combina com aquele monte de caveiras, mas f***-se quem não gosta, certo?

Da fachada ao cantinho mais escuro embaixo da escada, tudo é vermelho, preto e dedicado ao Atlético. Deus e a Pátria ganham mais espaço apenas do lado de fora. Organizada, pacífica e, sim, acolhedora, a sede da Fanáticos não sei se compara à da Independente ou da Dragões, porque nunca fiz questão de visitá-las, mas foi a minha parte preferida do passeio.
Recomendo, enfim, uma experiência dessas aos aventureiros de coração forte. Com o devido cuidado e acompanhamento, a imersão na trincheira inimiga serve como exercício de perspectiva para praticar a auto-análise futebolística.
Enquanto a humanidade ainda não inventa algo melhor do que esse joguinho bobo de carregar a bola de um lado para o outro sem encostar as mãos, ficamos com as mais variadas emoções que o futebol proporciona. De preferência, sem termos que nos matar por elas. Os atleticanos estão de parabéns nesse quesito.
Acabei deixando Curitiba duas vezes mais são-paulina do que cheguei, mas podem ter certeza que, depois do São Paulo Futebol Clube, do Arsenal, do Fenerbahçe, de qualquer outro time que contratar o Lugano, do time de futebol feminino de Edson, no Canadá, e do Chicago Bulls, eu espero que o Atlético Paranaense possa, um dia, sentir o gostinho de ser campeão do mundo. Mas não em cima do Tricolor mais querido, é claro.
E se preparem, coxas, porque dia 24 de agosto meu time volta à cidade, dessa vez para enfrentar o Coritiba.

PS: Aos espertinhos de plantão com frases prontas: o sexo não é invenção humana.
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Hoje temos jogo no maracanã. Está convidada a conhecer os tricolores do Rio, dos quais estou de despedida depois de um ano e meio.
Entre na nossa comunidade do orkut e veja! Terá orgulho!
abç.
Bom o seu texto, embora tenha alguns equívocos. Um, em especial, quero esclarecer.
Em 2005, o Atlético emprestou o Aloísio para o Mundial. Era bom para todos e demonstrava a intenção da diretoria do CAP de ter um bom relacionamento com o SP (mesmo após terem agido nos bastidores para nos tirar o direito de receber a final da Libertadores). Na volta, campeões, atleta e clube aplicaram uma trairagem. Depois, foi o caso com o jogador citado em seu texto e agora o Jancarlos.
Nos chamar de "rancorosos" ou com "mágoa" é, evidentemente, uma avaliação com muita parcialidade. Espero que os leitores que não torçam para nenhum dos dois saibam avaliar melhor quem é quem nessa questão.
Mesmo assim, como bem frisado por você, somos torcedores pacíficos e civilizados. São-paulinos ou quaisquer outros serão sempre bem vindos em nossa cidade.
Um forte abraço!
Marcão
O cara que não gosta do Atlético e muito menos de times paulistas (desculpa, Carol, mas não dá...).
MAIOR Q MINHA ARROGÂNCIA, É A SUA INVEJA.
