De volta ao trono
por Ana Carolina Moreno16h32
Aconteceu no dia 5 de março. Sei lá quantos minutos já haviam passado do primeiro tempo, mas o relógio, para mim, parou quando Adriano girou o corpo, se livrou do marcador e deu um chute cruzado com o “pé errado”. A bola foi redondinha, deixou o goleiro para trás e por alguns centímetros não passou pelo “lado certo” da trave.
Foram necessários 17 jogos para que o pé direito do camisa 10 finalmente marcasse um tento pelo São Paulo. Ele, que já perdeu tantas chances por tentar ajeitar a bola com o “pé bom”, ontem finalizou a jogada iniciada por ele mesmo ao dar um lindo passe para Dagoberto, aproveitar o rebote e colocar a bola no fundo do gol fluminense.
Talvez não faça muita diferença para ele se o gol foi com a perna ruim. Eu, porém, comemorei em dobro o que há muito considerava mais uma etapa obrigatória para ele provar (para os outros) seu potencial como jogador versátil e indispensável. Agora, espero apenas a última recompensa: o tetracampeonato da Libertadores.
Sinto inveja dos 61.704 torcedores que viram pessoalmente o retorno do Imperador ao trono (e um tanto de raiva por não ter conseguido comprar ingresso). Sinto repulsa do Dunga por ter aconselhado Adriano, horas antes, de que ele ainda precisava se esforçar mais para retornar à Seleção. Sinto muita alegria por ver o técnico da CBF se espelhar no xará da família de sete anões, engolir suas palavras e convocar o centroavante.
O que não sinto, porém, é tristeza em saber que restam apenas 13 – sim, conto até a conquista da América – jogos do Tricolor paulista com a presença desse homenzarrão de 1,90, cabelos milimetricamente raspados, brincos de diamante redondos nas duas orelhas, cavanhaque discreto e sorriso de criança. Adriano já me deu alegria suficiente e, agora que voltou a cair nas graças dos comentaristas esportivos, os grandes detentores do poder, só desejo o mesmo a ele.
Sentirei saudades de ver aquele par de chuteiras azuis e laranjas pararem atrás da bola enquanto os marcadores paravam juntos, de olhos fixos na redonda, enquanto o Imperador decidia seu próximo passo. Já estou sentindo saudades da partida de ontem, quando ele simplesmente dominou praticamente o campo inteiro. A corrida de comemoração do gol com o dedo indicador levantado e até a declaração de amor à namorada Joana farão falta.
O tempo passa, mas as memórias ficam. Dessa vez, o semestre voou. Adriano, seus gols de cabeça, de perna esquerda, de direita e até de mão serão lembrados de maneira positiva pela torcida são-paulina, assim como sua presença em campo, seu domínio da bola, sua força inabalável e sua dedicação à camisa tricolor. E admirado por enfrentar a fome jornalística pelos tropeços de seres humanos imperfeitos da melhor forma possível: com futebol.
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