A artilheira (de totó)
por Ana Carolina Moreno10h08

Mesa de pebolim em um bar em Copenhague, na Dinamarca
Para horror de alguns pais, não há quem escape de pelo menos um apelido na vida. Geralmente eles vêm de uma característica física ou da necessidade de distinguir dois homônimos. Os mais marcantes (e vergonhosos) brotam de alguma situação tragicômica que os amigos da vítima fazem questão de perpetuar. Os piores, porém, são sempre os criados pelos amigos-da-onça, por despeito ou pura maldade mesmo.
Os leitores baixinhos desse blog podem me ajudar a montar a infinita lista de apelidos para os verticalmente desvantajados que me acompanha desde os meus dois anos, quando debutei na escolinha. Sim, eu era a menor da turma já aos 30 meses de idade. Os colegas da terceira série eram especialmente criativos, e "microondas" foi minha alcunha mais popular até o ginásio, quando o clássico "Aninha" se firmou até a formatura. Mas foi com uns 12 anos que me atingiram com um nome realmente pejorativo.
Nunca consegui competir com os meninos quando o assunto é futebol. As pernas são mais curtas, o condicionamento físico é pior, machuca jogar descalça na praia, dói a cabeçada quando a bola é de campo, society, salão. Mas, na mesa de pebolim, ninguém chega à minha altura. Descobri o dom sem querer, quando a síndica do prédio comprou o brinquedo mais legal do mundo e a gente podia jogar à vontade no salão de festas.
O Edifício Avignon sempre foi muito democrático e não tardamos a criar campeonatos de todos os tipos com os jogadores azuis e amarelos. Esperar na fila até chegar na minha vez era tão difícil quanto não poder abrir o meu Lego de piratas até a manhã de Natal. A mesa, é claro, era alta demais pra mim. Para ver o campo inteiro, precisava chegar perto demais e, assim, tinha que driblar a barra de ferro dos adversários pra não me contundir. Logo, porém, comecei a colher as glórias do futebol-arte.
Comigo no ataque e com o Fernandinho do 62 na defesa, éramos Rogério Ceni e Luís Fabiano. Dupla perfeita. O rebote dos chutes fortes do Fê que não entravam no gol eram sempre meus, e eu lentamente aprendia uma jogada pela direita digna do Cicinho. Meu meio de campo era um terror, com os bonequinhos mais velozes da mesa, às vezes até parecia que suas pernas se separavam, mas ou menos como os espacates que o Hernanes dá para parar a bola.
Não tinha pra ninguém. Os moleques do prédio vizinho, quatro, cinco, seis anos mais velhos, bem que tentavam trocar as duplas e nos vencer, nem que fosse pelo cansaço. Mesmo fracassando, eles se recusavam a admitir a inferioridade para uma pirralha tampinha. Inventaram, então, uma explicação: meu talento só poderia ser um simples reflexo da habilidade do Fernandinho, que eu sugava pra mim. E foi assim que ganhei a mui gentil alcunha de "canudinho".
Como eram maioria (e o Fernandinho, como um dos moleques, não tomava partido), tive que engolir o insulto sozinha até perder o interesse e me dedicar à porcaria do pingue-pongue. Poucos anos depois me mudei para um prédio com mesa chata de sinuca, e foi só aos 17 anos, quando eu entrei para a faculdade, que fiz as pazes com o não-esporte mais legal do universo. Já com altura suficiente, arranjei um novo parceiro, o Gil e, dediquei muitas aulas de Sociologia ao aperfeiçoamento do meu chute cruzado tanto de direita quanto de esquerda. Lá pelo mês de abril, tinha ficado mais fácil me reconhecerem entre as tantas Caróis na ECA. Eu era a Bixete Pebolim.
6 comentáriosPermalink
EsportesFutebol
Posts similares:
Futebol levado a sério
Os inesquecíveis games de futebol
Os estereótipos irritantes, parte 2
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
Comentários:
Ganhei na Dinamarca e na Hungria também. Pebolim na balada é uma baita idéia. No Canadá joguei bastante, mas o pebolim deles é de brinquedo mesmo, os bonecos são de plástico com cabeças enormes, desenhados para agradar criancinhas, e pouco indicados para uma partida de verdade.
Quero ver dominar a redonda com um zagueiro batatão do Futebol de Mesa oficial (o oficial mesmo, não o chamado "Estrelão).
11 jogadores em campo de acrílico, um goleirão de acrílico e tome a imaginação em campo.
Em poucos toques, tem que ouvir o "pro gol"!
Muito loco! Tenho a Itália, Holanda e um Palmeiras de todos os tempos!
abraços
http://www.youtube.com/watch?v=NwDFs5n5sek