O remo de Parreira em novo rumo
por Equipe De Primeira11h49
Por Ana Carolina Moreno
Não sou fã do Parreira. Com exceção da alegria que ele me deu aos 12 anos quando vi o Brasil ganhar o tetra de um telão em Houston, onde fazia um acampamento de ginástica olímpica na companhia de cinco brasileiras mais novas que eu e um monte de adolescentes americanas, para quem a palavra futebol descreve aquele jogo com bola oval que se pega com a mão, todas as outras lembranças que tenho com o nome dele estão envoltas em uma essência negativa: baldes de pipoca fria abandonas pela falta de apetite e roupas verde e amarelas enfiadas no fundo do armário por causa da decepção de perder a Copa.
Isso até essa semana, quando ele decidiu deixar a seleção sul-africana de futebol para voltar ao Brasil. O motivo, segundo a esposa, foi saudades de casa e da família.
Seguramente esta decisão afeta não só seus filhos biológicos, mas uma legião de africanos adotada por ele, entusiasmada com a Copa do Mundo de 2010 e esperançosa de que, sediando o Mundial, a seleção da África do Sul alcance, se não o título – já que sonhos são um dos principais combustíveis de qualquer povo acostumado com o vazio na barriga –, pelo menos resultados inéditos. Do tipo que eles contarão com orgulho às gerações futuras.
Esta frustração é justa e merece ser expressa. Mas não em forma de crítica ao motivo de Carlos Alberto Parreira. Afinal, ninguém consegue calcular o quanto a ausência de algo pode pesar antes que ela se revele.
A Poliana dentro de mim resiste em acreditar que alguém seja capaz de inventar o motivo "saudades" para esconder uma outra e verdadeira razão podre demais para os ouvidos do público. Tampouco creio que ele tomaria uma decisão dessas se o sentimento não estivesse afetando consideravelmente sua vida pessoal, o que acaba tendo impacto na profissional.
Se a equipe vem montando, desde 2006, uma base sólida que possa ser mantida por um próximo treinador, não é uma grande lástima o Parreira deixar a África do Sul. É claro que todo contrato, quando rescindido antes do prazo, causa empecilhos imprevistos (além das obrigações previstas no papel).
E compreensível é também que a turbulência afete jogadores, equipe técnica, torcedores e até a própria organização do evento, itens que provavelmente não escaparam das considerações do técnico antes de tomar a decisão. Eis mais um argumento para que eu admire a atitude do Parreira e a recomende, inclusive, como inspiração para todos os insatisfeitos e insatisfeitas do mundo. Guardadas as devidas proporções, é claro.
Estamos todos muito acostumados a agüentar uma série de infelicidades e sacrificar nossa qualidade de vida por causa do trabalho. Mas fazemos isso pelo dinheiro, o que me incita uma série de perguntas:
Se até quem precisa do salário é capaz de deixar um emprego em troca de um pouco de paz, por que uma pessoa como o técnico do tetra, com idade e recursos suficientes para não precisar ganhar o pão de cada dia, tem que ser rechaçado por escolher sofrer menos e viver mais?
É preciso haver briga interna, tapete puxado, corrupção e interesses escusos para justificarmos a admissão de que nossa vida simplesmente não nos está satisfazendo e, por isso, decidimos mudá-la?
Futebol é importante, movimenta a economia e afeta coletivamente as vidas de um sem-número de pessoas no mundo todo e, atualmente, com impacto ampliado na África. A felicidade individual não gera renda a terceiros e tem alcance extremamente reduzido à sociedade. Mas vale menos?
Se a Copa do Mundo fosse em julho desse ano, ou do ano que vem, eu até concordaria com quem acha que ele está pulando fora do barco sem consideração pelo destino dos demais remadores. Mas, se ele tomou essa decisão agora, é porque sabe que não conseguiria agüentar até 2010. Nesse caso, eu e a Poliana apoiamos totalmente a decisão.
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Comentários:
Seria decadência demais para um técnico campeão do mundo.
(risos sarcásticos)
É você mesmo! Itália campeã mundial de futebol! Com todos os méritos, com todas as justiças. É claro que... É claro que eu também estou inconformado com você. Porque poderia ser, hoje, o Brasil comemorando o título.
(pausa) Se... (pausa) Se é fácil perder... perder do jeito que nós perdemos... hein? Ainda é muito mais difícil. Mas muito mais difícil mesmo! É difícil perder sabendo que... a gente não pode esquecer! É difícil esquecer isso... tempo nós vamos ter para esquecer. Sem dúvida. Esta Copa do Mundo de 2006 mas, por quatro anos, no mínimo, ela vai ficar aqui com a gente, e talvez para sempre, 1950, que jamais foi esquecida pelo grande favoritismo do Brasil e pelo desastre na final do Maracanã.
Agora na hora que os craques decidiram não jogar, isso é verdade, mas muita verdade, não teve espetáculo e o resultado poderia ser o que aconteceu exatamente. Agora é hora de reverenciar Canavarro, Totti, Zambrotta. Ah Itália, campeã mundial (levanta o braço em saudação) para nós, é hora da gente pensar no futuro... o futuro. É hora da gente reformular... reformular... é hora da gente mudar ou... mudar de vez. Vamos colocar o castelo de areia abaixo! Abaixo! E iniciar uma construção sólida para 2010. Copa 2010. África do Sul também não é... assim... tão longe. É logo ali. Caso contrário, nós seremos comida de leões."