Coração de estudante
por Jones Rossi01h36

Esqueça o time de aluguel do São Paulo, feito à base de refugos do Atlético-PR e Botafogo, ou o Fluminense "subi da terceira divisão direto para a primeira" Unimed. A verdadeira Libertadores acontece às terça-feiras, quando os times sem tanto cartaz disputam jogos aguerridos em estádios acanhados e movidos por torcidas que cantam sem parar.
Nesta terça-feira, dois jogos deram uma idéia da força do último torneio de clubes do planeta com alguma alma. Em Santiago, um duelo entre o Universidad Catolica e o peruano Universidad San Martín. Um jogo orquestrado para ganhar força e drama apenas nos últimos minutos, como os clímax dos grandes filmes de Spielberg. Tudo caminhava para um empate que praticamente eliminaria o Catolica, que ficaria com apenas quatro pontos, atrás de River (9), do San Martín, que iria a sete pontos e do América-MEX (6).
Eis que o aspirante a Robinho do San Martín, inventa de pedalar como Robinho, mas sem a habilidade do ex-craque santista. Castigo divino. Poucos minutos depois, Julio Gutiérrez, que havia acabado de entrar, tabela de forma brilhante e sai na cara do gol para fazer definir a partida com um chute forte cruzado, como Careca fazia na Copa de 86. De eliminado, o Catolica só depende dele para se classificar contra o América-MEX, jogando em casa.
Santos de verdade
Uma coisa que me incomoda nos times treinados por Vanderlei Luxemburgo é que eles se parecem com isso: times treinados por Luxemburgo. Ao ganharem a grife, perdem a identidade. Até hoje não consigo enxergar o Cruzeiro como campeão brasileiro. A toda hora lembro de Luxemburgo. Era o Cruzeiro, mas poderia ser Palmeiras, Santos... A cara do time era do Luxemburgo, não do Cruzeiro. Talvez seja por isso que desde então o Cruzeiro nunca tenha engrenado de verdade. Identidade perdida demora a ser recuperada.
Com o Santos bi-campeão paulista era a mesma coisa. Parecia gritar a todo instante: "Luxemburgo bi-campeão paulista". Era um grupo de jogadores com o uniforme do Santos, mas era um time do Luxemburgo. Agora, a despeito de ter outro personalista no banco do treinador, Leão, o Santos parece recuperar aos poucos sua identidade. Os 7 a 0 aplicados sobre o San José da Bolívia mostram um time aguerrido, que pode surpreender na Libertadores.
Era outra coisa que faltava nos times de Luxa. Ele é tão bom que tinha a exata noção de onde seus times podiam chegar. Nunca projetou um Santos campeão. E o Santos nunca foi campeão. Faltava imprevisibilidade, para o bem e para o mal. Você sabe que nunca um time de Luxa será rebaixado. Mas sem os jogadores que ele quer, dificilmente será campeão. Sem Luxa, seu time ainda pode lutar e se superar, mesmo não sendo tão bom. E o novo Santos está provando isso. Alma também ganha jogo.
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E ainda acho cedo pra falar do Santos. Assim como o SP, ainda é instável (o 7 a 0 de ontem não apaga o empate contra o Rio Claro, por exemplo).
Mas o SP, além do desequilíbrio no elenco, tem uma deficiência unida à uma certa qualidade: espera tomar o gol pra finalmente jogar objetivamente e conseguir o resultado, mas tem capacidade pra fazer isso.
O que adianta ganhar de 7 se nem liderando o grupo o Santos está? A surpresa no futebol não acontece em uma só noite, convenhamos.
