Pela vergonha no futebol
por Equipe De Primeira12h52
Por Ana Carolina Moreno
Fugi de casa uma única vez na vida, além dessa recente, com a diferença de que, agora, tenho dinheiro para o aluguel. Tinha 12 anos na época, e foram só algumas horas de rebeldia, nada planejado ou sério, apenas o suficiente para deixar a família de cabelo em pé. Fugi porque fiquei indignada, enfurecida, irracional com um primo meu, que claramente roubou numa brincadeira de pega-pega para se sair bem. Em cima do próprio irmão mais novo, dá pra acreditar?
Usou de argumentos falsos e de uma cara-de-pau incrível, com direito a movimentos dos ombros sincronizados com o levantar das sobrancelhas e as palmas das mãos viradas para o céu. Inconformada com tanta injustiça, peitei o primo e gritamos tanto na garagem que atraímos os adultos. Quando me mandaram para o meu quarto, subi o primeiro lance de escadas e saí para a rua sem pensar duas vezes.
Acabei condenada por defender a justiça. Queriam me ensinar: Que mal faz um pouco de malícia numa brincadeira de crianças, afinal?
E quando a brincadeira movimenta rios de dinheiro e a emoção de milhões de torcedores? Tem problema?
Pois me custa entender como os jogadores de futebol dormem à noite depois de tanta sem-vergonhice em um curto espaço de 90 minutos. Imagino os diálogos que teria, se fosse bandeirinha:
- O ilustríssimo senhor foi o último a tocar na bola antes da dita cuja sair das quatro linhas? Posso saber, então, porque está fazendo essa cara deslavada pedindo a lateral para o seu digníssimo time? Já contou quantas câmeras de TV o cercam, e quantas pessoas estão vendo através da sua mentira?
- Seu cara-de-pau! Todo mundo viu que o cotovelo do zagueiro passou longe do seu rosto. Pode, por favor, parar de fingir que um meteoro atingiu seu queixo, levantar e jogar bola?
Malícia o escambau!
Uma coisa inútil é ficar imaginando os inúmeros "e se..." depois de uma partida. Mas, se aquele escanteio que, na verdade, era tiro de meta, resultar no gol da vitória, seu time ganhou injustamente. E se você se jogou na área em vez de finalizar a jogada, e deu sorte de enganar o juiz e ganhar o pênalti, a injustiça vence o futebol de novo.
E se, pra você isso "não faz mal", só lamento que a sua técnica não seja boa o suficiente para dispensar o uso dos truques baixos que você critica nas outras profissões. Durma bem, seu canalha!
PS: Três textos bastaram para mostrar que eu me encaixo perfeitamente na categoria "colunistas rabugentas".
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