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Jan 02

Um funeral no teatro dos sonhos

por Leonardo Mendes Jr.18h53

Andrew Yates/ AFP

Há uns dois anos fui ao escritório de Mário Celso Petraglia, aqui em Curitiba, entrevistá-lo para a Gazeta do Povo. Na sala em que me recebeu, o dirigente tinha um quadro com uma camisa do Manchester United – provavelmente do Kléberson, não me lembro bem e também não perguntei.

Perguntei, sim, se o Manchester ainda era o modelo a ser seguido pelo Atlético. Curitiba e Manchester tem lá suas semelhanças: a vocação muito mais empresarial do que turística, não são capital do país e os clubes não possuíam grande torcida nacional antes de iniciar sua caminhada mais vigorosa. Petraglia disse que o Manchester era um bom exemplo, como eram todos os grandes clubes da Europa. Resposta sem sal que caiu fora na edição que reduziu os 60 mil caracteres da entrevista completa aos 10 mil publicados no jornal.

Pois um lado bem menos bacana da transformação do Manchester em clube mais poderoso do mundo foi trazido à discussão nesta semana, pelo técnico Alex Ferguson. Aborrecido com a apatia dos torcedores nas partidas em Old Trafford, o escocês criticou duramente os fãs após a vitória por 1 a 0 sobre o Birmingham. Disse até que às vezes o time tem mais apoio jogando como visitante.

“A torcida estava morta. Parecia um funeral”; “Eles não ajudaram o time. A atmosfera não estava boa”; “Isso não é de hoje, vem acontecendo há alguns anos”; e “A torcida vem para se entreter, mas às vezes precisamos dela para ter a performance adequada” foram algumas palavras ditas por Ferguson após o jogo, publicadas na edição de hoje do The Guardian.

Lembrou Roy Keane, que no fim de sua trajetória no Manchester disse que muitos torcedores iam ao Old Trafford mais preocupados em comer sanduíches do que em apoiar os Diabos Vermelhos.

O esfriamento da torcida do Manchester é efeito colateral de uma das políticas que fez o clube crescer exponencialmente nos últimos anos. Ver um jogo no Old Trafford é caro e luxuoso. Tornou-se programa social, não mais uma simples diversão. Os fãs mais calorosos deram lugares a playboys que estão lá para ver e ser vistos. A badalação é infinitamente mais importante que a bola rolando em campo.

Essa tendência elitista do Manchester já havia motivado um grupo de torcedores insatisfeitos a criar o FC United of Manchester, clube que recuperaria a essência dos Diabos Vermelhos.

Por aqui, o Atlético passou os últimos anos seguindo o mesmo caminho perigoso de “substituição” do seu torcedor. O povo vibrante que lotava e incendiava a Baixada foi aos poucos dando ao lugar a um turma que Roy Keane definiria como mais interessada nos lanches do Prajá do que nos passes do Ferreira.

Ávida por arrancar mais dinheiro dos fãs, a diretoria rubro-negra elevou o preço dos ingressos, enxotou os torcedores e abriu os braços para os “consumidores”. Em menor número e menos calorosos, eles ajudaram a esfriar a Baixada durante boa parte do ano passado. Queda de temperatura que empurrou o Atlético para a beira da zona de rebaixamento.

Felizmente, houve tempo para o ingresso ser reduzido e os torcedores voltarem à Baixada – ninguém sabe se haverá reajuste para este ano. Resta saber se a lição foi aprendida. Ou se a Arena irá seguir a nova tendência do Old Trafford, o teatro de sonhos que virou capela mortuária.

Leia mais: United's silent fans blasted by angry Ferguson

1 comentário
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Comentários:


Comentário de: Sergio Henrique Ribeiro da Silva · http://sergiohrds.blogspot.com

Excelente colocação.
No Beira Rio, antes da conquista da Libertadores do Mundial e da Recopa o torcedor de shopping center, ou que vai no como pra fazer lanche FELIZMENTE não dava as caras. O campo se enchia de torcedores, pessoas que gostam de futebol e esta lá pra isso. O futebol em si é um acontecimento social gigantesco, defenestrar por completo essa gente que nem sabe quem é a bola e termina por ir ao campo é impossível. Porém, criar uma espécie de código de intimidação, um mecanismo comportamental de coerção ( não física, por favor longe de mim se quer sugerir isso )que saibam eles, no estádio vai quem gosta de futebol e não de pastel e bolinho.

PermalinkPermalink 04.01.08 @ 16:40



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