Um dia perfeito
por Equipe De Primeira00h20

Por Cahuê Xavier de Miranda*
O dia perfeito foram três no calendário, mas na memória é como se fosse só um. Naquele sábado, dia 22 de dezembro, cheguei na redação do Estado e da Tribuna lá pelas três da tarde já pensando em ir embora. Aliás, não conseguia pensar em mais nada, a não ser na viagem que iria começar naquela madrugada e duraria, acreditava eu, no máximo umas sete horas.
Lá pelas seis e meia, deixei as últimas páginas que faltavam para revisar com meu amigo João Carlos. Em casa, me esperavam meu primo João Abel e meu amigo Germano, enviado especial de Guarapuava para a final do Brasileirão. No caminho até o mais tradicional endereço do futebol paranaense, uma passada na casa de outro guarapuavano, Vinícius, feliz morador da rua Buenos Aires. Depois, um lanche no Maionese Dogs pra passar a fome até, acreditava eu, a primeira parada na estrada. Isso era lá pelas dez e meia da noite.
Na chegada à praça Afonso Botelho, encontro meu grande amigo Guilherme Voitch, enviado da Tribuna para acompanhar a viagem da torcida rubro-negra para São Caetano do Sul. Algum tempo depois, partimos. O ônibus não era dos piores. Todos os locais ocupados, viajávamos rumo onde nunca havíamos estado antes.
Lembro que naquela noite conversamos sobre Neno, Jackson e Cireno. Sobre Sicupira, Zé Roberto e Nilson Borges. Assis, Washington e Nivaldo. Mastrillo, Borçato e Morelato. E, é claro, Kléberson, Adriano e Kléber. E sobre Alex Mineiro. Tudo embalado por música (o repertório de maior bom gosto que já vi), alegria e muito tubão.
Lembro que naquela noite conversamos sobre Neno, Jackson e Cireno. E, é claro, sobre Alex Mineiro.
Na manhã do dia 23 de dezembro, depois de uma viagem sem nenhuma parada e de o dog do Maionese já ter virado um vazio, fomos parados pela polícia pouco antes da entrada de São Paulo. Depois da geral em todo mundo e de um gambé ter ficado com a caneca de chope do Vinícius, fomos informados de teríamos que esperar ali, no meio da estrada, umas quatro horas antes de seguir viagem. Foi quando, de barriga vazia, resolvi dormir pela primeira vez desde a manhã do dia 22.
Acordado pelo ronco do motor e do estômago, vi quando partimos rumo a nosso destino final: estádio Anacleto Campanella. Era por volta de uma da tarde quando desembarcamos e fomos direto para dentro do estádio. Como a bateria da nossa torcida tinha ficado no portão, esperamos o começo do jogo sem exagerar muito no barulho, guardando fôlego para aquele que seria o mais importante jogo de todos que já havíamos assistido. Parecia que tudo que havíamos feito antes pelo Atlético foi em função daquele dia.
Parecia que tudo que havíamos feito antes pelo Atlético foi em função daquele dia.
Sei que o jogo começou e na minha lembrança parece que não demorou dois minutos para Ele abrir o placar. Ele, com caixa alta, naqueles últimos dias de 2001 era Alex Mineiro. Parece que não se passou muito mais que outros dois minutos e o juiz apitou o final da partida. No meio disso sei que teve o intervalo e foi durante ele que o Germano apareceu com um pacote de fandangos. A única coisa que coloquei na minha barriga desde a noite anterior, além dos vários copos de tubão.
Acho que era por isso que além das lágrimas nos olhos eu sentia um embrulho no estômago quando vi o Gustavo escalar o alambrado em frente à galera, seguido pelo Nem, pelo Rogério Correia, pelo Cocito, pelo Kléberson. Vi quando o Kléber foi o único que jogou a camisa para a torcida. A camisa do Kléber voltou para Curitiba no meu ônibus, junto com o Rosinha, diretor da Fanáticos.
Na saída do estádio, amarelo como a nova estrela da nossa camisa por causa da fome, vejo na minha frente, junto ao portão de uma casa vizinha ao estádio, uma senhora preparando os mais suculentos sanduíches de pernil que eu já tinha visto. Na espera para agarrar um deles, eis que aparece um cavalo montado sobre um animal nos mandando, a gritos e cacetadas, para dentro do ônibus.
Mais algumas horas de viagem, sem conseguir parar em lugar algum, pois ao avistarem o comboio os donos de postos fechavam seus estabelecimentos. Paramos num posto menor e meio que na marra saímos do ônibus e entramos no pequeno restaurante. Enquanto comia a melhor coxinha de minha vida, assisto no Fantástico o Galvão mostrando a festa da torcida em Cascavel, Ponta Grossa, Foz do Iguaçu, Londrina e, é claro, Guarapuava. Acho que foi ali que caiu a ficha. O nosso Atlético era o melhor time do país do futebol.
Acho que foi ali que caiu a ficha. O nosso Atlético era o melhor time do país do futebol.
Quando o ônibus entrava em Curitiba, nos perguntávamos se ainda teria alguma festa na Baixada, pois já era umas duas da manhã da véspera de Natal. Na chegada, a melhor surpresa do dia, o que fez dele indiscutivelmente perfeito. Antes mesmo de descer do ônibus, deu para perceber que ainda restavam umas cinco mil pessoas em frente à Arena. Enquanto descia, olho para o estádio e vejo nosso goleiro Flávio de troféu na mão agradecendo à galera. Depois, aparece o Nem, como quem tinha tomado mais tubões que todos nós juntos, xingando os coxas, com trilha sonora do Pink Floid.
Depois, aparece o Nem, como quem tinha tomado mais tubões que todos nós juntos, xingando os coxas, com trilha sonora do Pink Floid.
Era de manhã quando desci no ponto mais perto de casa e encontrei o seu Otávio montando a banquinha de jornais. Comprei todos e resolvi abrir primeiro a Folha de S. Paulo. Lá estava na capa do caderno de esportes, abaixo do título "Programado para ser campeão; e grande", a foto do Gustavo no alambrado e ao fundo, no meio da galera, o Germano, o João, o Vinícius, o Guilherme, e eu.
*Texto publicado no antigo De Primeira, no dia 08/10/2003
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