ENECOM
por Equipe De Primeira01h43
Por Napoleão de Almeida
Ah!, Enecom. Entre as várias lembranças (váaaaarias mesmo!) que me vêm à cabeça, uma tem a ver com este blog. Bem, estamos falando de um doente por futebol. Avô jogou no São Paulo, pai levava ao estádio desde pequeno. Tinha que dar nisso: virou narrador esportivo. Pior: fez jornalismo.
Não ia ser depois de velho, numa excursão ao Nordeste, que a paixão ia acabar. Justamente num congresso de comunicação. Óbvio, quem foi sabe, estudar era o de menos. Mas entre as praias de Maceió, e as gatas do Brasil, todas à disposição naquele julho de 99, quem me atraiu foi o Rei Pelé. Não o Negão, porra! O estádio.
Era dia de Série B. C.R.B. O som até é parecido, pronuncie a frase de novo. Mas o Clube de Regatas Brasil, o CRB, é uma paixão em Alagoas - que me desculpe o KK, nosso CSA. E enfrentava naquele dia o Santa Cruz, da próxima (de Maceió, que fique claro) Recife. Só duzentos kilômetros. E valia muito o jogo. Reta final da segundona. Estamos agora falando do Santa Cruz. De Levir Culpi, de Givanildo. De Rivaldo, o Penta Campeão do Mundo. Dono do Arruda. E de uma das mais fanáticas torcidas do Brasil. Em Pernambuco, como no Paraná, não dá pra dizer quem é maior.
Eu, na porta do estádio. E que estádio! Lindo, imponente. Quase todo coberto. Apesar que lá, chuva não é problema. O dilema: aonde entrar? Na torcida visitante ou entre os da casa? Antes que eu pudesse escolher, Lobão, um simpático ser humano sem todos os dentes, mas com a camisa do CSA (rival do CRB ), percebe a dúvida e rápidamente impõe a escolha: “Vai no Sannnnnta! Táqui o ingresso”.
E eu ia questionar? Em meio à uma invasão pernambucana, virei Santa. Como toda a torcida que é visitante, sejam seis ou seis mil, o barulho é intenso: “O Santa arreia, arreia, arreia até morrer!”, era o grito. Fiquei pensando... que raios é arreia!? Mas comecei a cantar. Foi quando o jogo começou. E notei que o pessoal do CRB não cantava. Mas jogava. O time era superior ao da Coral. Não demorou, fez 1x0.
Malandro, a casa caiu. Caiu? Que nada! O Santa arreia! E foi à luta. Enquanto isso, a sede apertava. Eu, acompanhado de meu fiel escudeiro Anão, nosso Gustavo Marques aqui do lado na ficha, resolvemos tomar uma gelada. Chegou a ser surreal, principalmente pra quem é daqui. Na hora de pagar, o nobre Anão só tinha uma nota de R$ 50. E o dono do bar, sem troco. A cerveja, garrafa, custava em 99, R$ 1,50. O comerciante não se fez de rogado e vendeu fiado. A primeira de muitas, mas que não passou incólume: ao final do clássico, pagamos a conta. Tamanha confiança não merece ser desperdiçada. Viva o povo brasileiro.
Mas voltemos ao jogo. Com os copos cheios, sentamo-nos ao lado de uma antiga trupe coral. Alguns senhores, por assim dizer. E na pressão, o Santa conseguiu, já no segundo tempo, o que para alguém que via o jogo, parecia impossível: um pênalti. Foi um descuido do CRB, recebido como graça divina pelos tricolores: “O Santa é Líííndo!”, o senhor ao meu lado, desprovido da zaga central de seus dentes, me abraçava e dizia.
Ah, o Santa é lindo! Velas, joelhos ao chão! “Vamos empatar, o Santa é Líííndo!!” - o “i” acentuado é sotaque! - e entrei na dança. Não seria possível, após tanto sofrimento, que aquele povo não recebesse sua recompensa. Naquele momento, esqueci o clube do meu coração - o qual, bem sabem, não revelo. Só sentia que era Santa. O Santa é lindo, pois! Invadimos Maceió, sofremos o jogo inteiro, mas o que era isso pra quem é Coral?? O empate era o primeiro passo para a virada. Postei-me ao lado daquele senhor de uns 90 anos de aparência, uns 50 de vida. E rezamos.
Um centroavante alto, esguio, arrumou a bola na cal. Salvo algum engano, era Adriano Chuva. Carregava em seu pé direito a esperança de cada tricolor de que o empate viria. Que a vida iria melhorar. Que o Santa arreia.
Ele correu.
Olhou.
Ajeitou a perna.
Tropeçou.
Tocou mal na bola.
Ela foi prá fora.
O Santa não empatou.
Aquele senhor me olhou... soltou-me os braços, esbravejou.
Mas logo depois disse: “Saaaaanta!”
O time conseguiu um escanteio, minutos depois. A bola não entrou. Deu CRB.
Naquele dia, o Santa perdeu. Mas ganhou o meu respeito.
Afinal, “o Santa é líííndo!”
Texto publicado no antigo De Primeira em 02/09/2004
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Comentários:
Mas podia ser qualquer time, né? O importante é tirar onda, tomar uma, vibrar com a rapaziada presente... e os coroas também. Perder, no caso, é só um detalhe.
ENECOM... ah, é verdade, tem coisas que só acontecem num ENECONHA...