Sai do chão
por Leonardo Mendes Jr.16h32

A última moda no futebol brasileiro é aposentar a camisa 12 em homenagem à torcida.
O precursor foi o Atlético-MG, que pendurou a uma dúzia em agradecimento ao apoio da sua massa na volta à Primeira Divisão. Homenagem justa a uma gente que anualmente é castigada pelos times desgraçadamente ruins que o Galo monta.
Agora é o Flamengo quem abraça a idéia. Vai mandar a 12 calçar chinelos e jogar gamão em Ipanema como pagamento pela média de público elevada e crescente nos jogos do Urubu no Maracanã.
Mas, com todo o respeito, se tem uma torcida que merece a 12 só para ela é a do Coritiba. O que os coxas estão fazendo nesta Segundona não é brincadeira.
Como o trabalho aqui na redação invariavelmente me põe na frente do computador quando a bola está rolando, só fui ao Couto Pereira três vezes neste ano.
Na primeira, pelo Paranaense, contra o Cascavel, encontrei uma torcida tipicamente coxa-branca. Espirituosamente crítica a um time sofrível que não dava a mínima esperança de voltar à Primeira Divisão. “Você acha esse time ruim? Então espere para ver o do ano quem...” era o mantra que aliviava a decepção da massa.
Depois, vi o jogo do São Caetano. A única derrota do Coritiba em casa pela Série B, o que para muitos que estão lendo este texto deve significar: “É bom ele não voltar mais ao estádio”. O espírito esportivo foi para o espaço e a torcida estava indignada com um time que só despertava uma dúvida: só não sobe ou ainda por cima cai para a Terceirona?
O meu último encontro com o Alto da Glória foi redentor. Há três semanas, na vitória por 2 a 0 sobre o Ceará. Amigos, vou confessar: quando a massa começou a pular e gritar “Sai do chão, sai do chão, a torcida do Verdão” me arrepiei inteiro e, com os olhos já marejados, fui para o fundo da cabine de imprensa desbaratinar.
Porque só quem entende o que é ser coxa-branca sabe o que significa aquele grito. Se um americano me perguntasse o que é ser coxa-branca, responderia: lembre do Red Sox e da maldição de bambino. Se quem perguntasse fosse um inglês, devolveria na bucha: lembre do Arsenal pré-Wenger, aquele narrado no livro do Hornby.
Fui apresentado ao Coritiba por intervenção divina. Era 1985 e eu, por indução lógica, no alto dos meus cinco anos, torci pelo título brasileiro. No dia seguinte, vendo na televisão a festa nas ruas, identifiquei algumas freiras do Colégio Nossa Senhora Menina, onde fiz o primeiro grau, festejando no meio dos torcedores. Se as pessoas responsáveis por me educar estavam ali, era porque o time merecia tamanha devoção.
E só mesmo com devoção de noviça para seguir um time que nos últimos 22 anos deu apenas sete voltas olímpicas (cinco estaduais, um nacional, um torneio da fome) e neste período coleciona muito mais histórias tristes e inacreditáveis do que felizes.
Foi no Couto Pereira que vivi o Maracanazo da minha infância, a fatídica final de 90. Estádio lotado, empolgação geral. Me lembra o que o jornalista João Luiz Albuquerque me disse certa vez em entrevista sobre o Maracanazo verdadeiro, de 50. “Eu era um menino de 11 anos que estava ali pronto para ver uma festa. Ninguém me avisou que poderíamos perder. E vi todo aquele horror ali, na minha cara. Deveria ser proibido”.
O horror maior, o gol contra de Berg, não foi na minha cara, mas sim no gol do outro lado, onde hoje fica a Império. Só em casa fui entender o que havia acontecido.
Outro dia encontrei o gol no You Tube. Até baixei para o meu computador. De vez em quando assisto, com a mórbida esperança de que Jorjão isole, Gérson agarre ou Berg seja tragado pela terra.
E o que dizer, então, de 98? Em cinco minutos, a mágica classificação à semifinal se transformou em uma trágica eliminação. Lembro até hoje de 20, 30 minutos depois do jogo, o estádio ainda com muita gente. Todos sentados, em silêncio, olhando para o horizonte, sentindo os pingos de chuva cair sobre a cabeça. Alguns chorando, tentando entender o que havia acontecido.
É esse sentimento que emana dos torcedores ao grito do “Sai do chão...”. O de uma paixão incontida, sempre à espera de ser correspondida à altura. Renovada a cada gol, a cada jogo, a cada aniversário. Uma paixão que exige o retorno à Série A. E merece uma camisa 12 em troca.
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