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Set 22

A bola rola na cadência do violão

por Equipe De Primeira00h00

Por André Pugliesi

Para começar, uma pergunta: quem é o Rei do Futebol?

Bom, essa é moleza. Exceto pelos argentinos, o mundo inteiro sabe e reconhece o brasileiro Pelé como o maior jogador de futebol de todos os tempos. E vejam bem, não foi por acaso que eu disse o brasileiro Pelé. Atleta do século, embaixador do esporte no mundo inteiro, Pelé é brasileiro, nascido e criado na terra do futebol e do samba. E sendo assim, vamos em frente.

Se Pelé é o Rei do Futebol, quem é o Rei do samba?

Essa pergunta já é muito mais complicada que a primeira. Candidatos ao posto maior do legítimo ritmo brasileira certamente não faltam. Cartola, Paulinho da Viola, Pixinguinha, Moreira da Silva, Noel Rosa, são tantos nomes e tão variados os estilos que é absolutamente impossível determinar para quem fica a coroa de monarca da música brasileira.

Agora, é muito fácil a resposta da união das duas primeiras perguntas. O Rei do Futebol-Samba, ou do Samba-Futebol, é um carioca, flamenguista, que tentou a sorte na bola e fez história empunhando um violão.

Desde a chegada da primeira bola ao Brasil, sabe-se lá trazida por quem e quando (é difícil acreditar que um inglês nos ensinou a jogar bola), ninguém traduziu com tanta fidelidade a relação apaixonada do brasileiro com o futebol do que Jorge Ben. Entre uma série de verdadeiras pérolas da nossa música, em meio à vasta produção sobre o assunto, nenhum artista colecionou tantas canções marcantes sobre a paixão esportiva nacional.

Ele apareceu no cenário musical no início dos anos 60, em pleno Beco das Garrafas, reduto da bossa nova na época. Um jovem negro descendo a mão vigorosamente no violão, num samba torto com pitadas de jazz, chamou a atenção de um produtor que imediatamente o convidou para gravar. Pouco depois, em 1963, o compacto "Mas, que nada" estava nas lojas.

O sucesso estrondoso chegou às paradas internacionais. O reconhecimento imediato e a enorme ousadia para um principiante melindraram os bambas da bossa nova. A forma de Jorge tocar o violão, como se estivesse batucando as notas, deixou os bossa novistas, acostumados a dedilhar o instrumento com extrema delicadeza, completamente horrorizados. O lançamento de seu primeiro álbum, "Samba Esquema Novo", fez de Jorge Ben, com pouco mais de 20 anos e um jeito único de tocar samba, um fenômeno da música brasileira.

A paixão de Jorge pelo futebol é mais antiga que sua relação com a música. Datava de sua infância pelas ladeiras da Mangueira, quando era perseguido pelos campos do bairro por sua mãe para voltar aos estudos. A família sonhou com a Medicina para o filho único. Jorge queria jogar bola. Passou pelas tradicionais peneiras dos times do Rio, chegou a participar de alguns times juvenis, porém, o destino havia traçado o sucesso de Jorge em outros campos. Nem Medicina, nem bola, o menino tornou-se músico.

Porém, apesar de antiga, a paixão de Jorge pelo futebol demorou a surgir em suas composições. Apenas em seu quarto álbum, "Big Ben", de 1965, a bola apareceu. Lembrando sua infância, Jorge sentenciou na música "Deixa o Menino Brincar"...

"Menino que antes de ir para
a escola jogar bola
põe a pipa no ar ele sabe que pode apanhar
mas o anjo menino quer brincar"

Dois anos depois, no disco seguinte, "O Bidú, O Silêncio no Brooklin", na música "Frases", mais uma vez Jorge pedia...

"Deixa o menino brincar
joga a bola pr'o menino, hein?"

Em 1969, no disco intitulado com seu próprio nome, "Jorge Ben", dividiria com seu público uma de suas maiores paixões, o Flamengo. Revelando seu time do coração no clássico "País Tropical", e fazendo todo brasileiro (exceto vascaínos, tricolores e botafoguenses), ao menos na música, um pouco Rubro-Negro...

"Moro num país tropical abençoado por Deus
E bonito por natureza mas que beleza, em fevereiro, em fevereiro Tem carnaval, tem carnaval, tenho um fusca e um violão
Sou Flamengo e tenho uma nega chamada Tereza"

O álbum "Ben", lançado em 1972, traria um dos hinos de Jorge sobre futebol. Certamente a canção que mais identificou o artista com o esporte. Em homenagem a um atacante mediano do Flamengo, Jorge compôs Fio Maravilha, um tratado musical sobre a arte de fazer gol. Tal qual um narrador de rádio, Jorge seguiu as chuteiras de Fio, revelando com extrema precisão a receita para se levar a bola ao gol. E a emoção de vê-la estufando as redes. Um lance eternizado em melodia e versos simples e geniais.

"E novamente ele chegou com inspiração
Com muito amor, com emoção, com explosão e gol
Sacudindo a torcida Aos trinta e três minutos do segundo tempo Depois de fazer uma jogada celestial em gol
Tabelou, driblou dois zagueiros
Deu um toque driblou o goleiro
Só não entrou com bola e tudo
Porque teve humildade em gol
Foi um gol de classe
Onde ele mostrou sua malícia e sua raça
Foi um gol de anjo
Um verdadeiro gol de placa
Que a galera agradecida assim cantava
Fio Maravilha nós gostamos de você
Fio Maravilha, faz mais um pra gente ver"

Mais tarde, de forma ingrata, o jogador processou o autor, entrando com um pedido de indenização devido ao uso sem autorização de seu nome na música. A Justiça decidiu pelo óbvio, deu ganho de causa a Jorge Ben, concluindo que a música não trazia nenhum prejuízo para o atleta, pelo contrário, era uma bela homenagem e uma enorme divulgação de seu nome. Para evitar mais problemas, Ben passou a cantar "Filho Maravilha" ao invés de "Fio Maravilha". O jogador sumiu, e a música eternizou-se.

O álbum "A Tábua de Esmeraldas" veio a seguir. Considerado o melhor trabalho de Ben, as letras surgiram de uma incursão do artista pela alquimia e, portanto, não trouxeram referências futebolísticas.

Logo em seguida, em 1975, Jorge lançou o igualmente inspirado "Solta o Pavão". E nele, mais um hino do futebol. Desta feita, uma homenagem aos defensores na música "Zagueiro". Se em "Fio Maravilha", Jorge Ben receitava a dose certa para marcar um gol, surgia nessa canção uma poderosa contra-indicação. O homenageado da vez era um herói de seu Flamengo querido, o zagueiro Rondinelli, conhecido como o Deus da Raça. Como em "Fio Maravilha", letra e melodia jogam juntas, traduzindo a malícia e a segurança de quem deve proteger a grande área.

"Arrepia, zagueiro
Zagueiro
Limpa a área, zagueiro
Zagueiro
Sai jogando, zagueiro
Zagueiro
Ele é um zagueiro
É o anjo da guarda da defesa
Mas para ser um bom zagueiro
Não pode ser muito sentimental
Tem que ser sutil e elegante
Ter sangue frio
Acreditar em si
E ser leal
Zagueiro tem que ser malandro
Quando tiver perigo com a bola no chão
Pensar rápido e rasteiro
Ou sai jogando ou joga a bola pro mato
Pois o jogo é de campeonato
Tem que ser ciumento
E ganhar todas as divididas
E não deixar sobras pra ninguém
Tem que ser o rei e o dono da área
Nessa guerra maravilhosa de 90 minutos"

Também no disco "Solta o Pavão", Jorge manda mais uma referência do futebol em seu já reconhecido repertório sobre o tema. O ambiente do Maracanã é fielmente descrito na música "Cuidado com o Bulldog".

"Bem feito, não vai poder ir no Maracanã
Não vai poder sentar naquela arquibancada
Dura, áspera e quente
Só vai poder ficar de pé
Só se for na geral
Mas como você é orgulhoso
Vai pegar mal
E ainda mais se o seu time perder
Como é que fica, como é que vai ficar"

"África Brasil", de 1976, o disco que marca a transição definitiva do violão para a guitarra na carreira de Jorge, mais duas pérolas inesquecíveis. Abrindo o disco, "Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)", um petardo samba rock contando a história de um atacante ensandecido. A letra é simples, carregada por uma levada mágica de guitarra. Uma levada sinuosa, impetuosa, trilha sonora perfeita para os gols do atacante africano. Mais uma vez, demonstrando uma sensibilidade incrível para traduzir musicalmente o mundo da bola.

"Umbabarauma, homem gol
Joga bola, joga bola
Jogador joga bola,
Joga bola
Corocondô
Pula, cai, levanta
Mete gol
Volta, cabeceia
Chuta e agradece
Olha que a cidade
Toda ficou vazia
Nessa tarde de domingo
Só pra lhe ver jogar
Umbabarauma, homem gol
Joga bola, joga bola
Jogador
Joga bola, joga bola
Corocondô
Rere, rere, rere
Jogador
Rere, rere, rere
Corocondô
Tererê, te-rerê, tererê, tererê
Homem gol
Umbabarauma, quero ver você jogar
Umbabarauma, quero ver você marcar
A galera quer sorrir
A galera quer cantar
A galera tá feliz
Ela quer comemorar
Umbabarauma, Umbabarauma, Umbabarauma, quero ver você jogar
Umbabarauma, quero ver você marcar
Arerê, arerê, arerê, babá
Ponta de lança africano
Quero ver, quero ver
A rede balançar"

E como bom flamenguista, Jorge não poderia esquecer o maior ídolo de todos os tempos do Rubro-Negro carioca. A música "Camisa 10 da Gávea" é uma homenagem ao Galinho de Quintino. Muito mais que uma homenagem, quase uma oração por Zico. Compassada, a música transmite, ao mesmo tempo, a angústia dos adversários, e a ansiedade dos flamenguistas pelo desfecho da cobrança de falta. Que invariavelmente, nos pés do Galinho, raspava o ângulo e dormia na rede. Genial como o futebol do camisa 10.

"Ô Ô Ô Ô
É falta na entrada da área
Adivinha quem vai bater
É o camisa 10 da Gávea
Ele tem uma dinâmica física rica rítmica Seus reflexos lúcidos Lançamentos dribles desconcertantes
Chutes maliciosos são como flashes eletrizantes
Estufando a rede num possível gol de placa
O galinho de Quintino chegou ô ô ô
Com garra fibra e amor ô ô ô
Pode não ser um jogador perfeito mas sua malícia
O faz com que seja lembrado
Pois mesmo quando não está inspirado
Ele procura a inspiração
E cada gol, cada toque, cada jogada
É um deleite para os apaixonados do esporte bretão"

O disco "África Brasil" praticamente encerrou a melhor fase de Jorge Ben. Foram duas décadas, 60 e 70, gravando álbuns excepcionais, que o consagraram mundialmente como o rei do suingue. Ainda na década de 70, Jorge lançaria o disco "A Banda do Zé Pretinho", contendo a música "Cadê o Pênalty", mais uma música inspirada no futebol, no entanto, sem o certificado de qualidade das canções anteriores. Apenas em 1986, no disco "Brasil" o artista voltaria a incluir uma referência futebolística em suas canções. "Em Roberto Corta Essa", Jorge reclamava da transferência do craque Rivelino do Corinthians para o Fluminense, rival de seu Flamengo. Mais uma vez, apesar do sucesso da música, sem a magia que permeou suas outras canções sobre o esporte. Finalmente, em 1993, no disco "23", Jorge compôs "Goleiro (eu vou lhe avisar)", fechando, infelizmente sem o habitual brilhantismo todas as posições no gramado em seu repertório.

Um goleiro, um defensor, um meio-campo e dois atacantes. Uma obra que traduz em um universo infinito e fantástico as duas maiores paixões dos brasileiros: o futebol e o samba. Músicas que proporcionam ao ouvinte sentir o calor das arquibancadas transformado em suor nos gramados. Feito só possível, pois Jorge Ben demonstrou na música a mesma genialidade que consagrou Pelé em campo, adicionando a malícia que só o futebol brasileiro possui, a serviço do samba.

PS: No disco recém-lançado por Ben Jor, o rei do samba-futebol homenageia o rei do futebol na faixa "O Nome Do Rei Pelé"

*Esse texto foi publicado originalmente aqui e aqui.

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