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Ago 25

"O Pelé da bola era dom de Deus. O da música eu não sei"

por Equipe De Primeira07h27

A bola ofuscou tudo. Se não fosse ela esse senhor seria um cantor de sertanejo, rock ou samba. O que Pelé viveu no campo é uma parte da história. A outra, com o violão embaixo do braço, ele mesmo conta

Por JULIO MARIA

Futebol tem a ver com música?
Sabe, eu sempre convivi com as duas coisas. Quando era garoto, em Bauru, via meu pai Dondinho, que era jogador, sempre tocando cavaquinho com outros jogadores como o Ditinho e o Vicente. Eu ia ver os jogos e acabava vendo um grupo tocando música. No outro dia de manhã, ia ver o mesmo pessoal treinar e ficava pegando a bola atrás do gol. Engraçado que os europeus acham que somos bons de bola porque somos bons de música.

E isso faz sentido?
Meu pai dizia que o que dá a malemolência no jogador brasileiro é o samba (risos).

E você acha que canta hoje tão bem quanto jogava futebol?
Não, o Pelé cantor não teve a mesma felicidade (risos). Foi o maestro Ruriá Duprat (diretor artístico do CD) quem fez o Pelé cantar. O Pelé jogador de futebol ganhou um dom de Deus para jogar futebol. Agora, o cantor...

É sério que uma de suas músicas novas se chama ‘Acredita no Véio’?
É isso mesmo. Ninguém acredita na história dessa música, mas o que conto é verdade. O Santos, quando estava naquela fase de Pelé, Durval, Coutinho, de 109 gols, tinha como treinador o Lula, que Deus o tenha, o homem que mais ganhou títulos com o Santos. Ele tinha muita superstição e havia um amigo dele lá que ele dizia que era o pai-de-santo que o orientava. Pôxa, a gente ia jogar, tomava ponta-pé pra chuchu, tinha que se preparar e, quando ganhava, ele dizia que era o pai-de-santo que tinha ajudado. Quando perdia, a culpa era dos jogadores. Eu falei, ‘cara, mas não é justo isso’. O Pepe e o Zito não gostavam nada daquilo porque a gente, às vezes, tinha de tomar um banho de descarga antes do jogo. E a gente sabia que havia até oferendas, ele oferecia galo, charuto (risos).

Uma outra música sua se chama ‘Perdi Meu Boi’. Que boi é esse?
É outra história real. Fala sobre um boi que eu ganhei em São José do Rio Preto de um grande amigo fazendeiro, o João Bafi. Quando o Santos ia jogar pelo interior, sempre vinha aquele monte de fazendeiro dizendo ‘olha, depois do jogo passa lá na fazenda e pega uma vaquinha lá, um bezerro’. E o João Bafi me deu um boi que eu trouxe para o sítio que tenho em Juquiá. Quando esse boi morreu me deu uma tristeza, era o primeiro boizinho que eu tinha colocado no terreno. Era engraçado. Às vezes a gente fazia três jogos na semana pelo interior, Ribeirão Preto, Jaú, Bauru, Rio Preto, e os caras iam lá oferecer boi, vaca. Ah, acabava a semana eu mandava o caminhão ir buscar tudo o que me davam, boi, cabrito, passarinho...

Você escreveu uma música para seu filho Edinho?
Escrevi por causa desse problema da detenção dele. Mandei a letra para ele ver quando ele ainda estava detido (pausa). Aliás, esta é a primeira vez que falo sobre isso.

Como foi a volta dele para casa?
Não, nunca teve volta para casa porque ele nunca saiu de lá. Sim, digo... Eu tinha muito contato com ele, o visitei algumas vezes. E essa volta, que a gente espera que seja definitiva, foi boa até como mensagem mesmo. Sabe o que me conforta? Que todo mundo conhece o Edinho. Ele não é bandido, não é traficante, teve uma amizade como todos tinham, como as 45 pessoas que foram indiciadas tinham, mas que talvez, por ser filho do Pelé, tenha tido uma carga maior. Outros que estavam em piores situações, nas escutas telefônicas, não ficaram detidos.

Algo mudou entre vocês?
Olha, Deus sempre me alertou, me mostrou o caminho. Talvez tenha me
alertado. A amizade de Edinho (com o traficante Naldinho) talvez pudesse se tornar uma amizade muito mais forte. O Pitico, pai do Naldinho, era meu amigo. Isso foi uma maneira de Deus mostrar que era o momento de se cuidar mais.

Você reconhece que errou como pai por ter estado longe dos filhos?
Sim, talvez se eu estivesse ficado mais perto... Mas também se eu estivesse ficado mais perto não teria dado comida para eles, nem educação, nem colégio.

Sandra, a filha que você só foi conhecer quando ela tinha 28 anos, morreu recentemente e você não foi ao enterro. Por quê?
A Sandra só apareceu quando tinha vinte e poucos anos. Para você ter idéia, eu não lembrava nem do encontro que tive com a mãe dela. Ela dizia que queria fazer o exame de DNA só para ter certeza, não queria mais nada. Fomos fazer o DNA e o exame deu positivo. Aí ela passou a usar o meu sobrenome. Olha, as pessoas não sabem das histórias. A Sandra entrou com um processo contra mim pedindo R$ 30 milhões. Ela queria ser reconhecida, eu aceitei, fiz o exame de DNA, tentei uma aproximação, ela não quis e, no final, pediu a indenização. Ela usou em sua campanha política (para vereadora) um cartaz nos postes que dizia ‘Sandra Nascimento, A Filha do Rei’, e colocava embaixo, bem pequeno ‘Jesus’. Dessas coisas o povo não sabe.

E por isso ficaram distantes?
Além de tudo isso, nunca gostei de enterro. É um trauma, sei lá. Meu pai morreu, minha tia morreu, pergunta se eu fui a algum funeral?

A prisão de Edinho e sua ausência no funeral de Sandra é um prato cheio para defenderem a tese de que você não é um bom pai.
Olha, infelizmente existe uma coisa cultural no Brasil. Eu andei por muitos países, conheci culturas diferentes e posso dizer a você que o brasileiro não consegue aceitar alguém que faça sucesso. Aqui, por mais que você faça para enaltecer seu país, como fiz, sempre haverá alguém procurando seus defeitos. Sempre houve isso, qualquer processo movido por um funcionário é usado para me denegrir. Ainda assim eu amo o meu País e vou continuar defendendo minha pátria.

O que é melhor para compor? A tristeza ou a alegria?
Com tristeza é mais fácil. O lamento, o amor, a separação. Há uma música do Ataulfo Alves que eu acho que você nem se lembra, mas que meu pai cantava muito (começa a cantar emocionado): ‘Fui olhar no espelho / fiquei com pena de mim / por me ver tão acabado / triste, desconsolado / eu não sou tão velho assim”. Pô, eu era garoto e ele vivia cantando isso.

Pelé, você vai fazer shows?
Sabe que eu nunca pensei em fazer show, mas o mestro Ruriá Duprat disse que, quando sair o disco no Brasil, a gente tem de fazer alguma coisa. Agora apareceu uma idéia de eu fazer alguns shows beneficentes. Se for assim eu aceito. Sabe que eu tive uma experiência engraçada de show. Estava trabalhando na Alemanha como comentarista na emissora ZDL em uma arena com cinco mil pessoas. Durante um intervalo do jogo, pediram para eu cantar. Sabe que eu cantei e todo mundo ficou de pé dançando? Mas todo mundo, até arrepia.

Foi um bom começo de carreira.
Foi só uma música (risos).

Maestro Ruriá: Sabia que o Bono, do U2, convidou o Pelé para ele participar de um show no Brasil?

O Bono? E você não foi?
Eu não pô, tá maluco?

A vantagem de ser rei é poder fazer o que quiser?
Olha, tudo o que eu queria fazer eu já fiz. Agora, pô, o disco foi feito pra mim mesmo. Se tiver alguém que goste, melhor. Em uma das músicas eu digo: ‘Fui Pelé sem saber, virei rei sem querer, isso foi o que o destino preparou para mim’.

Você gravou um rock. De onde saiu isso?
Sabe que eu estava ouvindo essa música no carro e tem lá uma parte em que o instrumento fica doido, fica louco (um solo de guitarra). Eu deveria ter dado uns gritos ali, algo do tipo aaaaaau (Pelé grita). Às vezes eu estou no carro e eu grito sozinho aaaaaau nessa parte (risos).

Quer dizer que você deveria ter sido mais roqueiro?
É rapaz, é que a gente fica tímido no estúdio, não tem jeito.

Pelé, você deve ter seus ídolos na música, imagino. Como faz para ir aos shows deles?
Ah, já viajei com bigode, com boné... O problema é que quando coloco boné todo mundo acha que estou disfarçado de Milton Nascimento. Se estou de boné e de óculos, não sou reconhecido. Mas se falo alguma coisa a molecada vem atrás. O engraçado é que parei de jogar há 40 anos e até hoje vem menino de cinco, seis anos pedir autógrafo. Acho que é essa desgraça desse topete (risos).

É o preço que se paga (risos).
Mas olha só. Com 15 anos eu estava no Santos e com 16 na Seleção Brasileira. Minha personalidade foi formada com isso, não me sinto mal. Eu me lembro do Airton Senna, coitado, ele ficava nervoso pra caramba quando via repórter. Há outros jogadores, artistas, fico até com pena. Tem cantor aí que fica doido para ir a programas como o do Faustão e da Hebe para estourar um disco. Aí atinge o sucesso e começa a colocar óculos escuros, chapéu. Pô, ele fez tudo para ser famoso e, quando a fama vem, quer se esconder?

Para quem você já pediu autógrafo?
Olha, nessas viagens acabei pedindo autógrafo para Robert Redford, Rod
Stewart, Mick Jagger, John Lennon, Roberto Carlos, Elton John. Ah, agora eu vou mostrar uma coisa aqui (Pelé pega um violão e começa a tocar e cantar uma música de sua autoria): ‘Ela diz que não me ama / ela diz que me detesta / mas quando me vê / me beija e faz festa / Essa mulher me deixa louco / Essa mulher não presta / Ela quer botar o chifre na minha testa’ (risos).

John Lennon te recebeu bem?
Olha, tem uma história com os Beatles que pouca gente sabe. Em 1966, na Copa, estávamos concentrados em Liverpol e os Beatles quiseram tocar para o Pelé na concentração. Os dirigentes não deveriam conhecer os Beatles direito e falaram: ‘Não, esses cabeludos não vão tocar aqui não, esses moleques não vão fazer barulho aqui não’ (risos).

Não! Eles barraram os Beatles?
Foi. Sabe como fiquei sabendo? Quando estava no Cosmos (EUA), fui fazer um curso de inglês na mesma escola em que o John Lennon estudava japonês, de certo porque ele estava com a Yoko Ono. Aí conversamos e ele me disse ‘Pô Pelé, você sabe que em 1966 nós queríamos tocar para você em Liverpool mas não deixaram a gente entrar na concentração’. Já viu um negócio desses? (risos).

Pelé, você já tem uma teoria sobre si mesmo? Por que aconteceu tudo o que aconteceu com você até hoje?
Não faço a mínima idéia, não tenho uma explicação. Deus me deu o dom, era um presente. Eu só tive que saber aproveitar.

1 comentário
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Comentários:


Comentário de: Equipe De Primeira Email

Pô, não tocou com o U2!? Imagino o Pelé cantando a parte do The Edge em Numb e falando após cada frase "Understand"

Leonardo Bonassoli

PermalinkPermalink 26.08.07 @ 09:56



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