Um esporte de laboratório
por Equipe De Primeira13h36

Uma imensidão de cubanos – a imprensa da Ilha fala em 2 milhões – está na Praça da Revolução comemorando o Primeiro de Maio. Vestem camisetas com os nomes de Fidel Castro, Che Guevara, Camilo Cienfuegos, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká....
É lógico que as homenagens aos que tiveram sucesso em depor a ditadura de Fulgêncio Batista em 1959 são muito maiores do que àqueles que fracassaram na batalha de Frankfurt, contra a França, no ano passado. Mas isso não diminui o imenso amor que os cubanos têm pelo futebol brasileiro. Não há paralelo com nenhuma outra seleção. A Argentina vem bem atrás. E as novelas bem à frente. Só Lima Duarte é páreo para Ronaldinho Gaúcho.
Cubano adora uma discussão. E é muito bem informado. Por isso, a invariável pergunta mais parece uma acusação. “Por que vocês perderam a Copa do Mundo?”, é o que escuto a cada início de conversa, querendo saber do futebol cubano. “Não sei”, respondo sinceramente, antes de ouvir sugestões para explicar o fracasso. “Por que não levaram o Rivaldo, por que o Roberto Carlos foi amarrar a meia” e a mais comum. “Futebol é esporte de conjunto. Não pode servir para o brilho individual de cada um. Nesse aspecto, a Argentina é melhor do que vocês”.
Tá bom, eu aceito as teorias. Mas o que eu quero mesmo é saber como está o futebol cubano. “Esse é um esporte de laboratório para nós. Houve a chegada de uma ajuda da Fifa, mas a concorrência da pelota (como eles chamam o beisebol) é muito grande. Esse é o esporte nacional e fica difícil o futebol ganhar o coração das pessoas”, explica José Luiz Lopes, do Juventude Rebelde, jornal da União dos Jovens Comunistas.

A voz das ruas dá a mesma explicação do especialista. “Para cada garoto que aparece querendo jogar futebol, surgem 50 querendo jogar pelota e outros 30 para o boxe”, me conta o garçon Yunier Herrera, entre um lance e outro da partida de xadrez que disputa no Paseo do Prado (um agradável calçadão) com Ricardo Sequera. O xadrez está em várias partes da cidade, rivalizando com o dominó.
O jogo entre ambos fica em segundo plano quando o nome de Miguel Company é citado. Peruano, ele comandou a seleção cubana de 2002 a 2005 e levou o futebol a um nível mais competitivo. “Antes do Company, a seleção cubana tinha onze jogadores correndo atrás de uma bola. Não havia organização e todo mundo ia na mesma jogada. Ele fez o máximo que podia”, diz Herrera. “Você é um asno, não entende nada. Qual título o Company tem na carreira? Se você quer um bom técnico, busque um brasileiro ou um argentino, que são campeões. Peruano é ruim como nós”, diz Sequera.
A razão está com Herrera. Company levou Cuba a conseguir bons resultados internacionais. Quando se fala de Cuba, evidentemente. Nas eliminatórias para o Mundial de 2006, conseguiu dois empates com Costa Rica, 2 a 2 em Havana e 1 a 1 em San Jose. Como fez mais gols fora de casa, a Costa Rica se classificou para o hexagonal final da Concacaf. E conseguiu classificar-se para o Mundial, ao lado de Estados Unidos e México.
Foi com Miguel Company que Cuba chegou à Copa de Ouro de 2005, depois de eliminar Martinica, Haiti, Barbados e Trinidad Tobago. Na fase final, foram três derrotas, contra Canadá (2 a 1), Costa Rica (3 a 1) e Estados Unidos (4 a 1). E a seleção revelou ao mundo o lateral Maykel Galindo, primeiro futebolista cubano a desertar, coisa comum entre boxeadores e jogadores de beisebol. Joga no Chivas, que disputa a Major League Soccer, dos Estados Unidos.
O atual treinador é o cubano Raúl Gonzalez Triana, que foi auxiliar de Company. Ele terá seu grande momento internacional na Copa Oro, que se disputa no México, a partir de 8 de junho. Cuba está no grupo C, ao lado de México, Honduras e Panamá. “Podemos empatar com Honduras e vencer o Panamá. Contra o México, nem pensar”, diz Jose Luiz Lopes.
Triana não fala sobre as possibilidades de Cuba na Copa Oro. Prefere dizer que seu trabalho é a longo prazo. “Queremos chegar no hexagonal final que decidirá os países classificados para o Mundial de 2010”, afirmou ao Jornal Trabajadores, da Central de Trabalhadores Cubanos.

Quer dizer, chegar aonde Company não chegou. Mas Triana sonha com mais ainda. Na mesma entrevista, garante não ver Cuba tão longe do nível apresentado no último Mundial. “Presenciei o Mundial da Alemanha e não acho que estejamos tão longe assim. O que atrapalha o jogador cubano é a mente. Ele se choca quando enfrenta equipes como México, Estados Unidos e Costa Rica e perde a concentração. Trabalhamos para acabar com esses problemas e, se conseguirmos, estou certo que poderemos chegar ao Mundial.”
Ele lamenta, na entrevista, o mau estado dos gramados cubanos e a impossibilidade de os jogadores atuarem em outros países. “Se houvesse essa possibilidade, o nível de nosso futebol aumentaria muito. Nosso sonho de Mundial ficaria mais perto”.
Triana aposta na mescla entre veteranos e jovens. Para a Copa de Ouro, convocou novamente o goleiro Molina (37 anos) e o atacante Lester More (29 anos). Procurou substitutos para eles, mas não conseguiu.
Entre os jovens, uma esperança é o ponta de lança Alain Cervantes. O jornalista Roddy Romo Seguí exagera na análise de seu futebol. “Move-se com incrível agilidade sobre o campo. Nem o ilusionista David Copperfield poderia competir com ele em um campo de futebol”, escreveu ao traçar um perfil de Cervantes.
Tem como metas no futebol ganhar o prêmio de melhor jogador cubano, ganhar algum título com a seleção e disputar algum dia um Mundial.
Há muito que fazer para que os sonhos de Triana e Cervantes se concretizem. Atualmente, Cuba está em 65 lugar no ranking da Fifa, à frente de Trinidad e Tobago, Jamaica, Peru e Venezuela, mas a falta de estrutura pode fazer o nível cair. Em março, Cuba era o 59º.
O campeonato cubano é disputado por 16 equipes, cada uma representado um estado. São divididos em quatro grupos. Os dois melhores de cada grupo se classificam para a segunda fase, juntamente com os dois melhores terceiros colocados. Os dez times jogam todos contra todos, em dois turnos.
No ano passado, houve uma tentativa de uma nova liga, com campeões e vice-campeões de cada província. Foi um vexame. A dificuldade de transporte é grande e 14% dos jogos terminaram com WO. Houve jogos que não terminaram porque equipes deixaram o campo indignadas com o que consideraram más atuações de arbitragem. Enfim, nada parecido com a liga de beisebol, que teve sua 46ª edição terminada em 24 de abril, com a vitória de Santiago de Cuba.
Mas isso é beisebol. O esporte do povo e não o esporte do laboratório.
Postado por Luís Augusto Símon, de Cuba
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