25.10.07

Permalink 10:52:26, por Ricardo Schott Email   Portuguese (BR)
Categorias: Comportamento, Música

Tico Santa Cruz falando sobre drogas

A assessoria dos Detonautas mandou uma carta-resposta do vocalista Tico Santa Cruz para alguns jornalistas. Ele foi entrevistado pela revista M..., falou alguma coisa sobre drogas e propina e o assunto acabou sendo publicado sob a forma de notinha por alguns veículos, o que, segundo a produção da banda, deixou o assunto meio descontextualizado. Segue aí o texto do cantor da banda na íntegra.

"A notícia é verídica.
Já usei drogas, nem por isso deixei meus princípios e valores de lado e muito menos me tornei uma pessoa má ou desonesta. O fato é que por uma questão de responsabilidade e coerência resolvi parar, pois não posso lutar contra a violência e muito menos a favor de um debate honesto pela legalização estando comprometido com qualquer tipo de substância ilegal. Acho esse estardalhaço uma grande hipocrisia. Isso acontece ainda porque muitos usuários famosos, admirados e cultuados incluindo celebridades, jornalistas, artistas de todos os seguimentos, médicos, advogados, deputados, gente de todo tipo que faz uso de alguma droga ilegal não coloca a CARA para discutir o assunto.
Dessa hipocrisia não quero fazer parte.
Não precisei entrar em nenhum centro de tratamento para deixar de usar alguma coisa, simplesmente porque nunca fui seguidor e nem viciado. Meu único vício ASSUMIDO e pra quem escrevi inclusive a música "Só por hoje" foi com remédios para dormir que são perigosíssimos e vendidos em qualquer drogaria.
Drogas legais.
Acho que cada organismo reage de uma forma diferente. Por este motivo é que nunca vão ouvir da minha boca qualquer estímulo ou apologia ao uso. Pois não vou influenciar ninguém. Existem pessoas que não são capazes de discernir e qualquer exagero é prejudicial a saúde. Também NÃO pretendo algum dia fazer comercial de CERVEJA e nem estimular o uso de álcool embora seja uma droga legalizada que têm comerciais estrelados por grandes ídolos na TV.
A droga está inserida na sociedade e NUNCA conseguirão acabar com seu uso. Isso é milenar. Há quanto tempo os países combatem o tráfico de drogas e há quanto tempo que esse mercado só cresce e rende mais e mais lucros?
Hoje em dia, na situação de violência a qual estamos submetidos cheguei a uma conclusão RADICAL.
Para quem curte fumar maconha ou utilizar qualquer entorpecente.
Ou assume que faz uso publicamente e luta pela legalização ou então PARA. Pois ficar no escurinho se escondendo para não se comprometer e deixar milhares de trabalhadores e crianças morrendo nessa guerra suja é COVARDIA.
Alguns podem me acusar de só ter tomado essa iniciativa depois da morte do NETTO. Não deixa de ser verdade.
No entanto será que precisaremos TODOS passar por experiências tristes para amadurecermos idéias e tentarmos fazer uma transformação interna?

Quanto a propina paga ao guarda, posso dizer que foi um assalto.
Estava voltando com meu equipamento de som de uma festa na época em que trabalhava animando eventos e a policia me interceptou numa blitz. Meu carro estava com o IPVA atrasado há alguns anos por falta de dinheiro para pagar o imposto. O Policial ameaçou tomar meu equipamento se não colaborasse com sua "laje" como ele mesmo se referiu ao destino do dinheiro.
Me mandou colocar cinqüenta reais dentro da identidade e entregá-lo.
Entre perder meu ganha pão na época e subornar o guarda optei pela segunda. Não tem justificativa, é a realidade de um país que empurra constantemente seus cidadãos para o caminho da ilegalidade. Seja comprando um CD pirata, ou consumindo uma erva, subornando um guarda ou comprando um produto roubado. Todos estão em algum grau envolvidos com alguma contravenção.

Hoje posso dizer que luto completamente limpo pelo que acredito e acho um absurdo essa falsa moral vigente com relação à política de segurança, armas e DROGAS.

Quem por ai topa assumir publicamente que faz uso ou já fez?"

Para quem gosta da banda, segue abaixo uma entrevista que fiz com o cara há alguns meses por e-mail - que foi usada numa matéria do Nitideal sobre passeatas, lutas pela paz ou algo do tipo. Sobre esse "lado militante" do Tico, acho algumas coisas que ele faz interessantes, mas não tenho opinião formada. Mas eu, particularmente, sou do tempo em que os rockstars faziam merda, bebiam, cheiravam, quebravam hotel, mijavam em poltrona de avião (o John Bonham, falecido batera do Led Zeppelin, fazia isso tudo), entravam em contradição, as coisas não eram tão controladas, o mundo não era tão politicamente correto, etc. Até por isso, não dá pra deixar de concordar quando ele fala que os artistas fariam melhor se falassem abertamente sobre drogas. Se for pra fazer merda, que seja em público.

Você tem ficado satisfeito com a cobertura da mídia em relação aos atos do Voluntários da Pátria? Acho que a imprensa tem um papel fundamental com relação a mudanças de mentalidade do nosso povo. Sem a mídia nossos atos não chegariam ao conhecimento de tanta gente e como não contamos com uma adesão popular é através dos meios de comunicação que levamos nossos questionamentos tanto a sociedade quanto as autoridades.

Quando você começou a fazer este tipo de manifestação, teve medo de ser incompreendido? Tem muita gente que confunde as coisas. Acha que estou fazendo protestos para me promover. Então pergunto, mas isso não é o que todos nós deveríamos fazer? Lutar por nossos direitos, para que sejamos respeitados? Não estou tentando me promover, o que acontece é que sou uma pessoa pública e como tal acaba gerando uma atenção maior. De qualquer forma prefiro estar atrelando minha imagem a algo de útil do que desfilando em revistas de fofocas.

Como foi ter contato com pessoas que, como você, perderam também entes queridos (como os pais do João Hélio e da Gabriela)? Compaixão, unidos pela dor. Todos nós brasileiros estaremos muito em breve se não fizermos nada, unidos pela dor.

Como é conciliar a agenda da banda e do Voluntários? Consigo tempo para tudo que quero fazer, é uma questão de vontade e organização.Quem dá desculpa que não tem tempo é porque não tá afim de se mover. Tem muita gente com milhares de tarefas por ai, família, trabalho, tudo mais que consegue fazer o que deseja, quem não pode dia de semana, pode no fim de semana e assim cada um vai fazendo sua parte.

Você tem feito algo para conscientizar o público nos shows? Sempre fizemos embora alguns a princípio ignorassem e desdenhassem dessas iniciativas.

Os atos do Voluntários têm acontecido só no Rio ou em todo o país? No Rio de janeiro atuamos em protestos nas ruas, com performances lúdicas e chocantes. Realizamos nacionalmente um circuito de poesia, música e debates em faculdades e escolas públicas, visando estimular os jovens a expressar sua voz e discutir os problemas do país. Estamos montando bibliotecas em presídios, orfanatos e carceragens, levando cultura, ,literatura e educação a quem está fora dos planos da sociedade.

Uma vez você disse que não tinha vontade de ter uma banda pra só falar de coisas sérias ou só de putaria, que não queria se prender a um só assunto... Com o disco novo prestes a sair, não rola um certo medo da todo mundo achar que a banda vai vir só com assunto sério? Como você lida com isso? Toda esperança é frustrada sempre, só existe felicidade inesperada, portanto, não esperem nada, nossos discos nunca são iguais, vivemos fases e imprimimos a verdade de nossos sentimentos através da arte. Por isso nos recusamos a gravar um acústico agora.

Os Detonautas não estão mais na Warner. O que rolou para a banda sair e como o próximo disco deve ser lançado? Vocês pensam em voltar pro mercado indie ou a iéia é buscar uma nova gravadora? Saímos por uma questão artística. Eles queriam um acústico que poderia render bons lucros e nós queremos expressar o que estamos vivendo. Nosso próximo disco sairá no ano que vem. Não nos interessa o mercado Indie pois queremos usar a máquina a nosso favor, para que possamos atingir cada vez mais pessoas e públicos diversificados. No fim das contas esse negócio de ser indie ou não é uma grande bobagem que divide bandas que poderiam estar trabalhando juntas e que deveriam se preocupar mais com a música e menos com os rótulos. Se posso usar uma gravadora para bancar os gastos e fazer o que acredito, pra que vou ficar me matando para tocar em lugares ruins com estrutura de má qualidade e trabalhando num emprego alternativo para sustentar minha família ? Não que todos os indies sejam assim, existem bandas independentes que são grandes e que não precisam de ninguém, estão satisfeitas com o que têm. Nós queremos algo abrangente e dessa forma vamos usar as armas que temos. Não pelo dinheiro, mas pelo prazer de viver exclusivamente da nossa música.

16.05.07

Permalink 23:32:54, por Ricardo Schott Email   Portuguese (BR)
Categorias: Blogosfera, Comportamento, Música

Papo com Lucas Santtana

festaDiginois1ano

Acima, você vê a filipeta da festa de um ano do Diginóís, misto de "netlabel, blog, site de música, ponto de encontro" do músico baiano Lucas Santtana. Aí tem o serviço todo da festa, que rola amanhã, quinta-feira, dia 17?05, no Cinemathéque, em Botafogo.

Lucas, para quem não conhece, já foi músico da banda de Gilberto Gil, lançou discos por gravadoras de porte considerável (seu CD EletroBenDodô saiu pela Natasha, selo de Paula Lavigne, ex do Caetano), teve música em novela... e hoje se dedica a fazer e acontecer num meio que precisa realmente de gente fazendo e acontecendo: a música na internet. Seu disco independente 3 sessions in a greenhouse foi lançado no suporte CD, mas também pode ser baixado completo do www.diginois.com.br - Lucas o disponilizou de acordo com a licença creative commons, que dá ao consumidor de determinada obra artística (dependendo do tipo de licença que for concedida) o direito de copiá-la sem fins lucrativos, ou de criar coisas em cima dela. Pois é: no caso do disco de Lucas, se você, após baixar as músicas, quiser dar vazão ao seu lado DJ, criando um remix em cima de alguma faixa do disco, é só pôr mãos a obra, fazer sua criação e mandá-la para o músico, que tem publicado algumas obras em seu site. Tudo a ver com os novos tempos e com as propostas de Lucas, que diz achar legal "a possibilidade de poder fazer uma resenha do show do Tom Zé no Circo Voador e não precisar ser jornalista para isso. Ou alguém que é jornalista poder baixar as faixas e fazer um remix. Na rede esses esteriótipos não fazem mais sentido, todo mundo quer é gerar conteúdo e compartilhá-lo", como diz.

Fomos bater um papo com Lucas - já repararam que estou periodicamente entrevistando algumas pessoas, certo? - e saiu isso aí embaixo. Confira, baixe o CD, vá ao show e divirta-se.

+ Fala um pouco da festa, o que vai rolar por lá, quem vai estar tocando por lá, etc? Vai ser a Seleção Natural na formação completa que fez o Tim percpan. O Mauro Zacharias (que toca com o Los Hermanos no trombone) e o Gustavo Benjão( que toca com o Flu e tem a banda Do Amor) na guitarra. O resto da banda é todo mundo que gravou o cd. Antes do show o Dj ChicoDub coloca sons com influência africana e jamaicana.

+ Queria saber se você ficou satisfeito com a movimentação causada pelo teu disco novo, devido ao fato dele ter sido lançado com a licença creative commons, etc? Fiquei bastante satisfeito. Nunca um cd meu tinha esgotado tão rápido mesmo tendo disponibilizado ele de graça para download no diginois.
A licença foi importante porque eu tenho um contrato de edição com a BMG publishing, uma major, então a licençå foi a ferramenta que eu queria para garantir meus direitos em relação a execução em rádio, tv, cinema, etc, e poder liberar de graça na rede.

+ Você tem recebido muitos remixes de fâs do disco? O que tem achado deles? Recebi alguns de pessoas que não são conhecidas no meio musical independente. Outros de pessoas que não trabalham com música, não sei se são fãs do disco...Ao todo já são 11 remixes nesse 1 ano. Acho pouco em relação aos 10 mil downloads nesse mesmo período de faixas no diginois.(contando faixas do cd e faixas abertas.) Gostei de todos, só o cara se dar ao trabalho e dar a sua versão já me satisfaz. Claro que tem o da rapaziada da música que são bem melhores mas só o de 1 cara não publiquei e disse a ele que tava tudo fora de compasso.

+ Li uma vez numa matéria sobre discos que as bandas ainda encaram o suporte CD como sendo uma coisa bacana. No teu caso, seu disco foi lançado em CD mas pode ser baixado, e ainda por cima as pessoas podem criar outras coisas com ele. Queria saber como é lançar um disco cujo conteúdo não se esgota em sua elaboração e ainda vai ser aproriado, de certa forma, pelo consumidor... Acho que isso é o futuro. Não no sentido do que vai ser mas do que eu acho que deveria. Não é a toa que tanto o cinema como a música tem perdido espaço para os videogames. O que você vai preferir? Ser um consumidor passivo em frente a tv ou a caixa de som ou poder interagir com o que você está vendo e ouvindo? Nos jogos online as pessoas podem até modificar características do jogo na sua próxima edição através de chats de discursão. Acho que o cd terá que acompanhar essa evolução. Até porque o suporte dele também não é mais físico. Quer dizer, ainda é, mas já está deixando de ser.

+ Apesar de ótimas iniciativas como a sua, esse lance de creative commons não é algo que - creio eu - vá entrar fácil na cabeça nem das gravadoras, nem dos consumidores de disco. Você imagina que, um dia, a gravadoras vão encarar a apropriação do conteúdo de um disco por parte do consumidor - com o direito dele fazer o que quiser com aquilo - de forma natural? Deveria. Quando fui ao presidente da bmg dizer que queria disponibilizar na rede ele tomou um susto. Logo perguntei a ele quanto agente havia faturado com venda de faixas na rede. Ele viu que quase nada. Então mostrei a ele que continuariamos ganhando com rádio, tv, cinema, etc e ganhariamos por outro lado muito mais com ele de graça na rede. Não são coisas incompatíveis. Tudo depende de quem você quer que pague ou não. Se minha música tocar na novela da globo quero ganhar, se for baixada por você não quero. É simples.
As gravadoras ou vão entender e se reorganizar nesse novo cenário e propor novos modelos de negócios ou vão continuar como estão agora, agonizando.

+ Apesar da possibilidade do disco ser baixado, as pessoas têm comprado? O cd esgotou em 7 meses. Guardei 60 cópias em casa que estou segurando a muito custo para mandar para festivais lá fora, labels gringos, enfim, usar como cartão.

+ Diginóis é um selo? É um estúdio? Fale do trabalho que você desenvolve lá. é um netlabel, um blog, um site de música, um ponto de encontro, enfim, é onde concentro todas as minhas atividades. Acho legal essa possibilidade de poder fazer uma resenha do show do Tom Zé no circo voador e não precisar ser jornalista para isso. Ou alguém que é jornalista poder baixar as faixas e fazer um remix. Na rede esses esteriótipos não fazem mais sentido, todo mundo quer é gerar conteúdo e compartilhá-lo.

+ Uma pergunta que não poderia faltar: o Gil já ouviu teu disco? Para você, o Ministro da Cultura tem dado atenção a essa questão do creaitve commons? Ou ele é um típico ministro de um país em que, culturalmente, é natural que os discos tenham cópia controlada e venham com avisos do tipo "não empreste esse cd pra ninguém, por a obra gravada não está sob seu poder?" (rs) Não sei se ele ouviu. Não encontro ele já tem uns 2 anos. Acho que ao contrário do que o Caetano falou, que o ministério do Gil seria um Lula do Lula, ou seja, uma promessa da promessa, a gestão do Gil foi muito além do governo Lula. Não vamos nos esquecer que o Min.C sempre foi algo muito elitizado, com uma visão quase aristocrata da cultura. Cultura livre, pontos de cultura, samba como patrimônio histórico, editais de cultura descentralizados do eixo rio-são paulo só chegaram ao Min.C nessa gestão do Gil. Claro que há abusos como o caso Circo de soleil e o fato do Gil ministro não ser o Gil compositor que pertence a uma major e já tocou no rádio com jabá. Mas é notório a evolução no pensamento cultural do Min.C. Pensar por exemplo a economia da cultura. Isso é um tremendo avanço.



Discoteca Básica

Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ.Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc.Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc.E-mail: rschott2004@gmail.com

Novembro 2009
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