Hoje tem showzinho do Caetano Veloso no Vivo Rio, a tal abertura do Obra em progresso. Segue aí a matéria que eu e Braulio Lorentz fizemos sobre o ensaio do show e que saiu hoje no B.
NÃO EXIJA ROCKS DE CAETANO VELOSO
O ‘JB’ assistiu a ensaio do show ‘Obra em progresso’; músicas novas fogem do som agressivo de ‘Cê’
Braulio Lorentz e Ricardo Schott
Em sua mais recente turnê, baseada no disco Cê, de 2006, Caetano Veloso angariou fãs que torciam o nariz para seus trabalhos anteriores – como A foreign sound, de 2004, dirigida em parceria com Jacques Morelembaum. Ao lado dos três jovens de sua banda de apoio, chamou a atenção de novos admiradores que pularam ao som das vibrantes Rocks e Odeio você, pediram Alegria, alegria e Tropicália nos shows e ficaram satisfeitos com as referências a Transa, disco folk-roqueiro de 1972, gravado em Londres. No show Obra em progresso, que estréia hoje no Vivo Rio e continua nas quartas de maio (exceto dia 21) e junho (menos dia 25), o cantor mantém a banda Cê, da turnê anterior, mas inclui a dupla de percussionistas gêmeos que tocou na turnê de Noites do Norte, Josino Eduardo e Eduardo Josino. Turnê marcada, por sinal, por ensaios abertos no Canecão.
– Em parte Obra é um ensaio aberto, porque vamos apresentar canções e versões novas. Mas esse nome pode dar a impressão errada de que vamos ensaiar em público – alerta Caetano, em entrevista ao JB pouco antes de ensaiar para a primeira apresentação. – O essencial é que não é um show de sucessos, nem de músicas do Cê. Eles não estão excluídos, mas serão minoritários.
Retorno a ‘Noites do Norte’
Quem espera para o novo trabalho algo que lembre Cê, vai se assustar ao ouvir as músicas novas. Mesmo mantendo a formação composta por Ricardo Gomes (baixo e teclado), Marcelo Callado (baterista) e Pedro Sá (guitarra), acrescida dos percussionistas, o som lembra Noites do Norte, com direito a mesclas de música baiana, pop e rock (a tranqüila Cor amarela) e a sons meditativos, baseados em percussão quase circular e em vocais em falsete (Por quem). Uma música que poderia estar em Cê, desde que rearranjada, é o samba baseado em estilingadas de guitarra e violão Perdeu – barulhenta (para os padrões de Caetano), que ganha distorções e ruídos de guitarra.
– Tem uma música do Gil da época do Tropicalismo que vou cantar, Pé da roseira – adianta Caetano. – O Pedro Sá, ouvindo a gravação, ficou maravilhado com o tratamento dado pelos Mutantes e pelo Gil. Vamos reproduzir mais ou menos o arranjo original, que é uma ciranda do Recife. É do período em que o Gil ficou na cidade e voltou de lá com essa proposta, além das primeiras idéias do Tropicalismo.
Se o anterior Cê ligava-se a Transa, Caetano diz ver relações entre este novo trabalho e o roqueiro Velô, de 1984.
– Na época, inverti o negócio: fiz uma excursão pelo Brasil todo e aí, só depois, gravei o disco – lembra Caetano, que traz de volta as longas temporadas que os artistas de MPB faziam nos anos 70 e 80, mas também nota diferenças. – É um show extenso, que vai durar dois meses. Mas são sempre espetáculos diferentes. Vou fazendo um repertório ao longo do ano e vejo como tudo soa.
Obra em progresso era para ter estreado há uma semana no Vivo Rio. Caetano diz que o atraso não partiu dele:
– Nós estávamos prontos. Foi um problema de produção mesmo. Retornamos mais brevemente do que pensávamos, o que foi melhor ainda. Não sabia se ia ser um atraso de uma semana, de duas, de quatro.
Além de músicas novas e do repertório em constante mutação, os fãs podem aguardar convidados especiais. Jorge Mautner, com quem Caetano já havia feito o show e o disco Eu não peço desculpas, de 2003, será o da primeira noite.
– Pensei na Tereza Cristina para cantar Gema (que ela gravou no disco Delicada). Aliás, pensei em cantar com ela em seu show e não pude. Gostei do fato de ela gravar e gostei da sua versão. Quero chamar o Arnaldo Brandão, que tocou comigo e de quem já gravei Totalmente demais e o Davi Moraes. Muito da inspiração do que a gente está fazendo vem de Pedro e Davi tocarem, nos ensaios de Noites do Norte, levadas de samba na guitarra.
A menção a Teresa Cristina anima Caetano a puxar a lista de nomes que tem ouvido, como Roberta Sá, Mariana Aydar e "o disco de samba da Maria Rita". Entre os artistas de rock, cita a banda baiana Cascadura. O cantor diz que o gênero o acompanha na estrada.
– Gostei também do disco do Radiohead, In rainbows – destaca, citando o disco da banda inglesa, disponível na internet pelo valor que os ouvintes quiserem pagar. – Estava na Europa fazendo shows e baixei as músicas pagando zero real. E recebi tudo. Todo mundo tem que inventar alguma coisa para se adaptar à situação tecnológica nova. Mas não passo muito tempo ouvindo música. Prefiro ler, e gosto de ouvir o que já ouvia, como João Gilberto.
Quando fez o show Cê no Canecão, Caetano deixou de gravar lá o DVD Cê – Multishow ao vivo, porque havia mesas na pista. Acabou optando por gravá-lo no despojamento da Fundição Progresso. Desta vez, mesmo que haja a possibilidade de sair um CD ao vivo com o repertório da temporada, diz nem ter se preocupado com o assunto.
– Nem perguntei se aqui vai ter mesa ou não vai ter. Eu venho aqui fazer meu trabalho. Fico indiferente se o público está sentado ou em pé, nem penso nisso – assegura o cantor, que, no entanto, ressalta não gostar muito do esquema de casa de show inspirado no Canecão. – Ali foi um acidente. Era uma cervejaria onde as pessoas iam comer, beber, dançar e tinha um pequeno show que durava 30 minutos num palquinho de lado. Depois é que ganhou esse status de casa de show.
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Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ. Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc. Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc. E-mail: rschott2004@gmail.com