Saiu um almanaque das Frenéticas, As tais Frenéticas - Eu tenho uma louca dentro de mim, pela Ediouro. Bati um papinho com a ex-frenética Sandra Pêra, autora do livro. Segue aí o texto, publicado no JB, no B, esta semana.
IMPORTANTE: Amanhã sai na Domingo - e na capa - uma matéria que fiz com Seu Jorge. Ele não costuma dar entrevista e recebeu o JB em seu camarim, segunda passada, no Teatro Rival. Falou pra caralho, recebeu amigos, a mãe (uma senhora super engraçada) e me atendeu com a maior simpatia. Leiam amanhã.
Drogas, dinheiro ralo, mas muita diversão na era ‘disco’
Biografia das Frenéticas, de Sandra Pêra, mostra lado bom e ruim do sucesso
Ricardo Schott
Nos anos 70, no pop nacional, não houve nada igual às Frenéticas. É verdade que, no quesito "mulheres no pop" já havia muita coisa desde os anos 50, mas o grupo vocal inovou por levar ao mercado fonográfico um cardápio que incluía disco music, rock, MPB e até teatro de revista, além de garantir mais pontos para a presença feminina na música. A curta existência da formação clássica do grupo está nas livrarias, graças a As tais frenéticas – Eu tenho uma louca dentro de mim (Ediouro), escrito pela ex-frenética Sandra Pêra.
– Nossa importância se deu também pelo lado comportamental – define Sandra, que, na época, chegou a posar com as Frenéticas, em revistas, vestindo apenas camisolas. – Além de sermos um grupo de mulheres, havia um clima antiditadura da beleza. Tínhamos cada uma seu tipo físico, e uma de nós, a Leiloca, era uma gordinha de bem com seu corpo, sempre de maiô.
Leiloca, Sandra, Lidoka, Dudu, Edir de Castro e Regina Chaves tiveram sua carreira discográfica aberta pela auto-afirmativa Perigosa, de Rita Lee, Roberto de Carvalho e Nelson Motta, cuja introdução ("Eu sei que eu sou bonita e gostosa/e sei que você/me olha e me quer") virou moda em 1977, quando o primeiro álbum do grupo foi lançado. Um ano antes, as Frenéticas eram um grupo de atrizes contratadas pelo agitador cultural Nelson Motta (então casado com a atriz Marília Pêra, irmã de Sandra) para trabalhar como garçonetes na boate que ele montaria por meros três meses no Shopping da Gávea, o Frenetic Dancin’ Days. Motta sugeriu que elas cantassem "umas três ou quatro músicas lá para a meia-noite" e a brincadeira acabou virando trabalho, com discos, turnês e estrutura própria.
– Nenhuma de nós havia cantado profissionalmente, só a Dudu – recorda Sandra. – Não havia pretensão. Depois daquele trabalho, iríamos procurar outro. Só que naquela época o Rio era um grande point, e a boate virou uma febre, o que chamou a atenção para nós.
A recém-instalada Warner brasileira acabou dando abrigo às meninas. Quem tem ótimas recordações da época é Liminha, que, após ser "diretor de estúdio" em álbuns de Carlos Dafé e Banda Black Rio, estreou como produtor no primeiro disco delas.
– Foi aí que consegui meu primeiro disco de ouro, e o primeiro da Warner – diz o produtor. – As Frenéticas eram geniais. Mesmo sem background musical, tinham muita personalidade. Muitos tentaram imitá-las, eu até fui chamado para montar um "Frenéticas 2" em outra gravadora. Claro que não aceitei.
No começo, as Frenéticas moravam juntas e contavam com a ajuda de amigos-irmãos, como Ney Matogrosso. Depois, tudo mudou, mas Sandra revela que, mesmo com o êxito da estréia e de singles posteriores, como Dancin' days (tema da novela referente à boate de Nelson Motta), a sorte não esteve do lado das garotas no quesito finanças.
– A Marília me dizia para poupar, mas gastávamos tudo o que entrava – lembra. – E nunca ganhamos nada equivalente àquele sucesso todo.
Escrito em formato de almanaque, com fotos e memorabília raras, As tais Frenéticas toca em temas delicados, como o relacionamento de Sandra com o cantor Gonzaguinha (que gerou Amora Pêra, cantora do grupo feminino As Chicas), as brigas e o desgaste do grupo (que existe até hoje, só com Dudu, Edir e Lidoka) e assuntos como sexo e drogas, vividos numa era pré-Aids.
– Na época, a droga era tratada de jeito especial. Era diversão, não havia maldade – crê Sandra, assustada até hoje com o alcance do grupo. – Algumas músicas ainda são quase hinos. Um amigo meu esteve na Alemanha e ouviu Dancin' days numa festa lá.
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Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ. Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc. Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc. E-mail: rschott2004@gmail.com