08.04.08

Permalink 22:00:36, por Ricardo Schott Email   Portuguese (BR)
Categorias: Livros

Matéria minha do Idéias

Minha estréia no caderno Idéias deu-se com este textinho aí, sobre o livro A vida louca de Porfírio Rubirosa. O original do JB Onliné tá .

UM PLAYBOY ANATÔMICO E POLITICAMENTE CORRETO
Ricardo Schott

O lançamento de A vida louca de Porfírio Rubirosa: o último playboy, de Shawn Levy, mostra, antes de tudo, que o nome playboy, hoje em dia, virou algo sem força, que cai bem em garotos bem nascidos (e que cometem o pecado de trabalhar). De acordo com a definição do criador da revista Playboy, Hugh Hefner - reproduzida no livro - este era "um homem de inclinações sensuais, em geral com recursos financeiros, que transita de mulher em mulher, festa em festa, emoção em emoção".

Um perfil que tinha a ver com disposição, espírito de aventura e vocação para o bem-viver - algo que nem sempre caminha lado a lado com o dinheiro ou com o currículo de conquistador que vários playboys (ou tidos como tais) da atualidade ostentam.

Nascido em 1909 na República Dominicana, Porfírio Rubirosa era filho do governador de uma série de pequenas cidades do país caribenho - marcado por guerras e conflitos tribais desde sua fundação e libertado do poderio haitiano apenas 65 anos antes. A biografia ganha sentido não apenas pelo currículo como conquistador, mas também pelo fato da personalidade de bon vivant ter sido moldada entre os conflitos vividos pelo país, do qual seu pai participou ativamente. No linguagar domincano, seu pai - e Rubi, por herança - era um tíguere, personificação, elevada à enésima potência, do macho latino ideal: destemido, gracioso, calculista e sempre usando determinadas situações ou pessoas a seu favor.

Uma das lembranças mais vivas da infância de Rubirosa foi o fato de ter tido que fingir que tocava violino, a pedido de uma professora que o recebeu numa escola para a qual havia se transferido na infância - sua turma inteira participava de um ensaio e tinha familiaridade com o instrumento, ao contrário do pequeno Rubi. "Será que no mundo dos adultos as aparências são só o que importa?", ele lembra de ter pensado.

O nome de Rubi (apelido que passou a adotar após separar-se de sua primeira mulher, Flor de Oro, filha do ditador domincano Rafael Trujillo) ganhou os jornais entre os anos 40 e 50 por causa de seus casamentos com mulheres lindas e riquíssimas - as milionárias americanas Barbara Hutton, dona da cadeia de lojas Woolworth's (com quem ficou casado por menos de dois meses, lucrando ao final um avião e uma plantação de café) e Doris Duke, além da atriz francesa Danielle Darrieux, considerada a mulher mais bonita do mundo em sua época.

Por outro lado, seu envolvimento com Trujillo e com a política sul-americana sempre foi explorado. Graças ao cargo de tenente da guarda presidencial do ditador, Rubi foi ganhando um prestígio político mundial do qual - e devido também aos múltiplos contatos e ao trânsito no jet-set internacional - nunca se distanciou. No auge na badalação, praticou automobilismo e pólo (temas que tomam boa parte do livro, até pelo fato de ter falecido num acidente de automóvel, a 130 quilômetros por hora, em 1965), envolveu-se com estrelas como Ava Gardner e Marilyn Monroe e levou o estilo tíguere além das fronteiras das repúblicas das bananas.

Dentre os que o conheceram nesse período estão o brasileiro Jorge Guinle que, numa entrevista à Playboy em junho de 1993, revelou que Rubi, além de ter as mulheres mais maravilhosas do mundo, não dispensava nem as faxineiras dos bordéis que freqüentava. O livro releva que, para além do charme, o grande segredo do sucesso de Rubi era, digamos, anatômico - fato cultivado em declarações de ex-esposas e amigos.

Um dos casamentos mais conhecidos de Rubi foi com a atriz húngara Zsa Zsa Gabor, com quem ainda viveria casos clandestinos e experimentaria situações de invasão de privacidade e exploração pela mídia - que, comparadas às devassas nas vidas das celebridades atuais, podem até soar ingênuas, até por sempre serem enxergadas por Rubi e pela atriz pelo viés do bom humor ou até mesmo da autopromoção. O livro explora essa fase de Rubi com grande riqueza de detalhes, encerrando a carreira de conquistador do playboy com sua última esposa, Odile Rodin - que, após enviuvar, viveu 20 anos como colunável no Rio e chegou a casar-se com um brasileiro, o empresário Paulo Marinho, que posteriormente se casaria com a atriz Maitê Proença.

O lado politicamente incorreto do biografado não ficou de fora. Rubi agrediu algumas de suas esposas e uma briga física com Zsa Zsa Gabor foi explorada por ela como peça de marketing - ela adotou um tapa-olho para esconder as marcas, e até fãs e outros artistas, numa espécie de proto-elemento pop, adotaram a peça como referência. Mesmo que Rubi não seja exatamente o último playboy - Jorge Guinle o venceu - é um perfil fascinante, especialmente como documento de época.



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Comentários:


Comentário de: Fábio Butinholi

Ricardo,
A leitura do romance "A festa do Bode", de Mario Vargas Llosa é o filme "O Ditador" (adaptação do livro), são bons complementos para quem quiser conhecer um pouco mais sobre o ambiente político em que Porfírio Rubirosa viveu.

PermalinkPermalink 11.04.08 @ 23:17



Comentário de: Ricardo Schott Email

Vou ficar de olho no livro e no filme. Abção!

PermalinkPermalink 14.04.08 @ 09:29



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Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ. Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc. Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc. E-mail: rschott2004@gmail.com

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