Matéria sobre o livro Sexo, drogas e Rolling Stones, que saiu onte,m (sexta) na capa do Caderno B.
MITOS E VERDADES
Ricardo Schott
No livro ‘Sexo, drogas e Rolling Stones’, José Emílio Rondeau e Nélio Rodrigues expõem a intimidade do grupo e revelam as conexões brasileiras
Hoje, dia do lançamento nacional do filme Shine a light, de Martin Scorsese – que mostra os bastidores de um show dos Rolling Stones em Nova York, em 2006 – outro retrato da legendária banda britânica toma as livrarias. Trata-se do livro Sexo, drogas e Rolling Stones(Agir), escrito pelo jornalista José Emílio Rondeau e pelo historiador Nélio Rodrigues, que revela casos íntimos do longevo grupo, com fotos inéditas e material raro coletado de revistas – incluindo antigos títulos nacionais, como a Revista do Rádio (que nos anos 60 fez uma pioneira reportagem sobre rockstars e drogas, com os Stones) e Geração Pop.
Rondeau, que conheceu Rodrigues quando preparava seu filme 1972, diz que a pesquisa para o livro seguiu o mesmo ritmo frenético da banda.
– Estamos pesquisando desde 1965, quando ouvimos (I can't get no) Satisfaction pela primeira vez – brinca. – Mas, a sério, tivemos que agir de outubro a fevereiro, embora já tivéssemos tudo que precisávamos à disposição para o trabalho.
Segundo livro de Rodrigues
Os autores têm relações com a história da banda no currículo. Rondeau entrevistou o guitarrista Keith Richards em 1989 para a revista Bizz, na época em que a banda lançava o CD Steel wheels
– Ele foi simpaticíssimo – recorda o jornalista, que não esteve com nenhum outro stone, mas pôde, no dia seguinte à entrevista, ver a gravação de um clipe da banda. – Ver e ouvir a guitarra de Keith ali bem perto foi uma sensação inédita para mim.
Nélio Rodrigues já escrevera em 2000 outro livro sobre a banda, Os Rolling Stones no Brasil – Do descobrimento à conquista (1968-1999), mostrando minúcias das visitas de Mick Jagger, Charlie Watts e Mick Taylor (guitarrista que substituiu Brian Jones nos Stones) ao Brasil, além dos shows da banda em turnê pelo país.
– A ligação deles com o Brasil nunca foi explorada pela mídia. Já vieram aqui várias vezes e compuseram uma música inspirada no candomblé, Sympathy for the devil. A capa do Black and blue, disco de 1976, foi feita por uma designer brasileira, a Bia Feitler – conta Rodrigues, lembrando que Jagger e sua então namorada, Marianne Faithfull, visitaram o Brasil em 1968 e conheceram o Rio, Salvador (onde o cantor participou de rodas de samba com pescadores) e até mesmo Matão, no interior de São Paulo. – O show dos Stones em Copacabana foi em frente ao mesmo hotel em que o Mick e a Marianne ficaram hospedados em 1968, o Copacabana Palace.
Sobre esse show, Rondeau gosta de imaginar que foi feito no lugar em que um stone "descobriu o Brasil".
– Muita gente não se dá conta disso, mas Mick Jagger conhece profundamente o Brasil. Nas vezes em que esteve aqui, viu cultos afro-brasileiros, tocou com nossos músicos e até tomou cachaça com operários. Ele não se comportou como um pop star fazendo turismo – define o autor que, com Rodrigues, coletou dados como o fato de o vocalista ter visitado uma favela da Zona Sul carioca e filmado tudo com uma câmera Super 8.
Entre o material inédito mostrado pelo livro, há várias fotografias de Mick e Marianne no Brasil em 1968, clicadas por Adger W. Cowans – fotógrafo americano que adorava jazz e, por conta disso, acabou engrenando uma conversa com um acuado Mick, perseguido pelos fotógrafos no Brasil e ciceroneado por ninguém menos que o jornalista Carlos Leonan e o cronista Fernando Sabino.
– Também pegamos um extenso depoimento do cantor Arnaldo Brandão, que morou com Mick Taylor na Inglaterra. Ele esteve no olho do furacão dos Stones, viu tudo de perto, até hospedou Taylor no Brasil – diz Rodrigues.
O pesquisador (que, antes de abraçar a história, se formou em biologia) diz que não precisou entrar em contato com a equipe dos Stones para editar seu livro, nem o que fez com Rondeau.
– Lá fora saem livros e mais livros sobre os Rolling Stones, isso é comum. Jamais aconteceria o mesmo problema que tivemos aqui com Roberto Carlos em detalhes, do Paulo César Araújo – garante.
Casos escabrosos
Num livro chamado Sexo, drogas e Rolling Stones, evidentemente o prato principal são os inúmeros casos envolvendo os integrantes da banda. Em especial Keith Richards, que enfrentou inúmeras prisões por porte de drogas e é o rei das declarações e atitudes irônicas.
– Keith é, de fato, o doidão, aquela pessoa da qual todo mundo sabe tudo, ao contrário de Mick Jagger, que é extremamente controlado e reservado. Agora, o menino levado da banda é mesmo Ron Wood (guitarrista que substituiu Mick Taylor), que chegava a levar bronca do Keith por estar sempre drogado nos ensaios – lembra Rondeau, que compreende perfeitamente o lado mais sombrio da banda. – Eles passaram como um trator por cima de tudo que os obstruísse. Que banda dura esse tempo todo? E, num mercado competitivo como o pop, você tem que ser um pouco cruel.
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Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ. Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc. Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc. E-mail: rschott2004@gmail.com