Que eu lembre, esse texto saiu no blog no finzinho de 2004.
"THE END OF SILENCE" - ROLLINS BAND (Imago/BMG, 1992)
" 'Estou puto da vida e me enchi de aturar essa joça toda'. Era o slogan de um dos personagens principais do filme Network, um locutor que pirava e se transformava num misto de profeta do apocalipse e agit prop de sua emissora. Desde os tempos do Black Flag, Henry Rollins tem uma postura semelhante: onde houver opressão, depressão, repressão ou mera pressão ele estará a postos defendendo o bicho urbano" (resenha do CD The end of silence, da Rollins Band, escrita por José Emílo Rondeau e publicada na BIZZ em julho de 2002).
Lançado pouco depois do estouro de Nevermind, do Nirvana, e no mesmo ano de Meantime, do Helmet, The End Of Silence mostrava que a nova década nem bem tinha começado e duas coisas já tinham ido longe demais: 1) a introspecção, a revolta e o clima down que surgia das letras de várias bandas norte-americanas do período; 2) o peso, as misturas com jazz e blues, e o andamento lento herdado do Black Sabbath. Enquanto foi capaz de produzir discos bons, a Rollins Band foi uma das bandas que mais resumiu o clima do começo dos anos 90. Com a vantagem de trazer bem a frente a figura de Henry Rollins, cantor, líder, letrista e doublé de poeta, além de colecionador de sofrimentos desde a infância. Para muitos fâs, era como se a angústia da era grunge fosse traduzida para o mito do herói norte-americano.
A banda de Rollins, influenciada por uma mescla de hardcore, heavy metal (via Black Sabbath, lógico, e Ted Nugent, ídolo de adolescência de Henry), jazz e blues, surgiu em 1987, quando o cantor já era uma espécie de lenda do hardcore, por ter cantado na banda norte-americana Black Flag - Rollins havia ido a um show do grupo, pedira uma música e acabaria sendo convidado a subir ao palco. O grupo torna-se grande influência no trabalho de vários artistas, como Kurt Cobain, do Nirvana. Após 1986, ano da separação do Black Flag, Rollins passou a se dedicar a vários projetos ao mesmo tempo: lançou discos solo, fundou uma editora, a 2.13.61 - sua data de nascimento - para lançar seus próprios livros de poesia (tão "pra baixo" quanto a própria música de sua banda, sempre falando de morte, depressão e de sua conturbada biografia), publicou LPs totalmente falados (também com poesias e alguns textos) e montou a Rollins Band.
Rollins e sua banda de formação variável lançaram seu primeiro disco em 1988, o independente Do it, e só foram contratados por uma gravadora de bom porte em 1992, quando saiu The end of silence. O álbum praticamente define toda a obra do grupo e de seu líder. Filho de mãe alcoólatra e de pai espancador, Rollins fez do quinto disco de sua banda quase uma sessão de terapia - daí o título, definido assim por ele: "as músicas desse álbum ficaram na minha cabeça, me acompanhando pelos sonhos adentro, me tirando o silêncio". Nas letras, essa catarse metálica se escancarava em dois lados distintos: o de poesias depressivas que relatam relações destrutivas e sonhos frustrados; e o de textos de auto-ajuda (e, conseqüentemente, de gosto duvidoso). Conceitualmente, Rollins Band era um combo que incluía a figura do líder Rollins (alto, fortão, todo tatuado, berrador contumaz e violento no palco), sua história, o peso da guitarra de Chris Haskett e da bateria de Sim Cain e uma idolatria que já vinha dos tempos do Black Flag.
O disco era ocupado por dez longas faixas, abrindo com o soul-metal "Low self opinion" (dos versos de auto-ajuda: "se você pudesse ver a si próprio como eu vejo você/você veria a si próprio de maneira diferente/acredite em mim") e o metal quase tribal de "Grip". O único hit potencial do álbum era o metalzão anos 90 "Tearing". De resto, as músicas eram repletas de improvisos e partes diferenciadas, além de versos criados quase na hora por Rollins - e não incluídos no encarte. "Obscene", uma das letras mais doentias de Henry ("estou tão confuso/não consigo encontrar o limte entre o que uso e o que abuso/sou tão irreal/o quanto eu minto e tento desprezar as coisas que sinto") ganhava uma sonoridade pesada e tribal, típica do som pesado dos anos 90. "Blues jam" era um blues distorcido e improvisado, de quase doze minutos, com Henry criando a letra quase automaticamente. Outros riffs pesados e composições intrincadas, como "You didn't need", o quase hardcore "Another life" e o metal setentista "What do you do", deixavam a Rollins Band com cara de encontro entre Black Sabbath e Jane's Addiciton (banda sempre elogiada por Rollins).
No final, rolava uma das experiências mais assustadoras do álbum. A quilométrica "Just like you", com seus quase onze minutos, era uma desomenagem de Rollins a seu odiadíssimo pai, que reencontrara havia pouco tempo. Dominada por riffs pesados, jams barulhentas e versos rancorosos ("agora eu assisto a minha própria explosão/meu corpo está assustado pela idade/e você tem que provar a minha revolta"), a música explodia em uma sessão de ódio puro, com a banda expelindo distorções e Rollins virando monstro, berrando "rage!" feito um alucinado. O resultado final era um dos álbuns mais catárticos e pesados que se podia escutar naquele ano de 1992.
The end of silence, para muita gente, é até hoje o melhor disco da Rollins Band. Em 1994, a banda viria com um álbum bem mais pop (na medida do possível) e conciso. Weight era quase um disco de soul, contendo alguns namoros com rap (os hits "Disconnect" e "Liar") e dois sacolejantes funk-metal ("Divine object of hatred" e "Shine"), além de alguns sons que lembravam a época do Black Flag ("Alien blueprint" e "Icon"). Já Come in and burn, de 1997, foi recebido com frieza por crítica e público, graças a uma série de músicas repetitivas. Posteriormente, Rollins decepcionaria boa parte de seu público, dispensando seus músicos e recrutando uma banda de hardcore chamada Mother superior - com a qual gravou o fraco Get some go again, em 2000. Mas foi The end of silence que passou para a história, não só por sua qualidade, como também por ter ajudado a projetar a imagem de Henry Rollins e por ter sido um dos discos mais significativos do rock dos anos 90.
WELL...
Alguns detalhes sórdidos (e outros nem tanto) sobre Henry Rollins:
+ Em dezembro de 1991, pouco antes do lançamento de The end of silence, Rollins sofreu o duro golpe da morte de seu roadie e melhor amigo, Joe Cole. Joe era também amigo do pessoal do Sonic Youth (que o homenageou no álbum Dirty, de 1992, nas faixas "JC" e "100%") e foi assassinado bem na frente de Henry, por duas pessoas, na porta da casa que os dois amigos dividiam. Rollins fez diversas homenagens a Cole, lançando em 1993 o livro See a grown man cry e recitando poesias sobre a perda de Joe. Weight, disco de 1994, trazia nos créditos a inscrição "Joe Cole 4.10.61 - 12.19.91".
+ "Houve um tempo em minha vida que eu não tinha esse físico avantajado. Era desajeitado, magrelo e motivo de piadas dos caras fortes e professores da minha escola. Estudei em uma escola militar. Não foi uma época feliz, mas me marcou e me tornou o que sou. Aprendi a controlar meu corpo e minha mente pela disciplina. O levantamento de pesos foi o maior antidepressivo que conheci na vida". Isto é Henry Rollins, em depoimento a Marcel Plasse (BIZZ, julho de 1993).
+ Entre as perfomances de palco de Henry Rollins estavam um agachamento com reboladinha, com a bunda virada para a platéia. Quem viu o show da Rollins Band no Woodstock 94 (transmitido no Brasil pela Band, na época) pôde presenciar isso durante a música "Fool".
+ De 1992, quando saiu The end of silence, Rollins foi envolvido em diversos boatos sobre sua sexualidade. Em 1995, deu uma desastrada declaração dizendo que não tinha namorada desde 1988. Também já declarou: "Eu não tenho muito tempo para as mulheres. Eu até já me esqueci como se faz para ser íntimo de uma".
+ Frase atribuída a Renato Russo, encontrável num site da internet: "Você acha que Michael Stipe (R.E.M.) e Henry Rollins vão dizer que são gays numa sociedade machista como a norte-americana?"
+ Durante os anos 90, Henry Rollins apresentou alguns programas na MTV americana. Foi colunista, por exemplo, do MTV Sports, onde chegou a aparecer dando dicas de briga de rua (!).
+ A ilustração da capa de The end of silence é o desenho de uma tatuagem que Henry Rollins tem nas costas.
+ O lay-out do disco foi todo baseado em fotos de shows da Rollins Band, que ocupam várias páginas do encarte. Na contra-capa, Rollins é flagrado em ação no palco, fazendo uma careta que o deixa parecido com um Jim Carrey sarado - enquanto isso, sua tatuagem das costas é observada com estranhamento por um segurança. No verso do encarte, todos os membros da banda aparecem com o dedo indicador em riste, meio curvado (como se dissessem: "vem!"). Eu, hein?
+ The end of silence saiu em CD no Brasil com o encarte todo mutilado - e também em vinil, com todas as músicas espremidas num disco só.
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Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ.Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc.Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc.E-mail: rschott2004@gmail.com
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