30.11.07

Permalink 20:04:48, por Ricardo Schott Email   Portuguese (BR)
Categorias: Música

Entrevista: Marco Antonio Bart !

tdv

Ele nasceu em São Gonçalo (RJ), já militou na imprensa musical underground, já foi DJ, já colaborou com dois dos melhores sites sobre música brasileira da web (o Cliquemusic, até hoje no ar, e o falecido - infelizmente - Jornal Musical), já publicou os e-mails indignados que recebia dos litores de suas críticas musicais (no célebre blog Chutem O Crítico) e está há séculos atuando como jornalista cultural do Jornal do Brasil. E agora ele está mantendo um blog, o Telhado de Vidro - nome de uma antiga coluna sua da revista Rock Press - no qual coloca boa parte de sua produção. Ele é Marco Antonio Barbosa, o popular Bart. Batemos um papo com ele para saber um pouco de sua carreira e do que ele está pretendendo com o blog. Fala aí, Bart!

Outro dia vi um jornalista escrever a seguinte frase numa comunidade do Orkut: "Não me peça de graça o que eu tenho pra vender". Como é pra você, que já tá há onze anos na área, estar fazendo um blog para colocar tua produção? Meu blog é mais uma forma de chegar ao público. Trabalho num jornal que ainda tem um certo nome, mas cuja repercussão & influência diminuem a cada dia. Por sorte, escrevo basicamente sobre o que me interessa. Mas sei que pouca gente tem a chance de ler minha produção (especialmente quando escrevo sobre música pop). Então, aproveito o blog pra republicar o melhor da minha produção falando diretamente a uma galera que vai entender do que estou falando, e que vai dar um feedback imediato sobre o que estou escrevendo. Ao mesmo tempo, não estou "dando" coisa alguma "de graça". Quase tudo o que sai ali já foi publicado em outros lugares, e já fui remunerado pelo o que fiz. O blog é um meio de divulgação pessoal. Ou um currículo eternamente atualizavel.

Acho que vi essa frase ("Não me peça, etc.") no Orkut, se não me engano foi na comunidade da revista Bizz. Concordo até certo ponto. A proliferação dos blogs banalizou uma atividade que, até 10, 15 anos atrás, era exclusiva de uma microtribo: o ato de poder publicar sua opinião. É compreensível que o camarada que ganha a vida vendendo sua opinião se sinta ameaçado quando surge um monte de gente opinando de graça por aí. Ao mesmo tempo, ninguém leva blog a sério, ao menos não no Brasil. A repercussão é ínfima. Então neguinho se melindra a troco de muito pouco. Em resumo, acho o seguinte: o jornalista tem que se garantir com a qualidade da informação que ele tem pra divulgar. Opinião sem informação não vale nada. Acho que aí está o pulo do gato do meu blog: (praticamente) só tem informação. Espero que nunca confundam o t.d.v. com qualquer outro desses blogs de achismos e confissões pessoais.

Você acredita que o blog pode servir de portfolio pro seu trabalho? A primeira resposta meio que cobriu essa pergunta. Tenho certeza que sim. O blog é um ótimo portfolio; já fiz contatos profissionais por conta do blog. Pessoas leram, gostaram e me convidaram pra fazer outras coisas.

Uma vez um amigo nosso, o André Mansur, me contou que você dava altas festas em São Gonçalo, que tinha muitos discos, etc. Como era essa época? Fala um pouco pro nosso leitor fã de NX Zero e My Chemical Romance como era garimpar música nesse período. Haha, era uma época manera (maneira?). Começo/meados dos anos 90. Eu coleciono discos e leio sobre música desde meus 12 anos, ou seja, desde 1986. Passei boa parte de minha adolescência em sebos de vinil, catando discos. As duas fontes de indicações eram a Fluminense FM e a Bizz. Quando sobravam uns trocados, comprava umas Melody Maker atrasadas no Plaza Shopping. Então eu passava as tardes ouvindo a Flu FM e gravando fitas e mais fitas, tentando reconhecer as bandas que as revistas diziam que eram boas. E o que pintava em disco por aqui eu ia comprando, conforme a grana (que era pouca) dava. Depois que surgiu a MTV, em 1990 (acho), ficou mais fácil conhecer as bandas, mas ainda assim os discos demoravam a sair por aqui. Quando saíam. Era tudo muito enrolado. Gostar de rock - ou, como os "entendidos" diziam, "curtir um som" - era complicado. Os discos importados eram caríssimos, mas dava pra achar algumas coisas baratas garimpando nos sebos. Entre 1994 e 1997 eu trabalhei como DJ, tocando rock em uma boate em Niterói, e passei também a armar festinhas pros amigos na casa da minha mãe e em clubes em Niterói também. Foi quando o CD começou a popularizar por aqui, durante o Plano Real. Uma época muito legal. Sou radicalmente contra nostalgia, mas acho que naquela época as pessoas se apegavam mais às bandas - mesmo porque a oferta de discos ainda era pouca, então só dava pra comprar um ou outro CD que a gente achava muito foda. (Ah, eu adoro My Chemical Romance.)

Você tem um tempo legal no mercado e já viu veículos surgindo, acabando, já esteve em um número bacana de redações, etc. Dá pra pensar em imprensa cultural (e em especial, a musical) num país que lê pouco e quase não consome bens culturais? Dá, mas num nível tão restrito e elitizado que chega a ser vergonhoso. Não era para ser assim. Em todo o mundo existe um descompasso entre a indústria cultural (que atrai a atenção de milhões de pessoas, que compram discos, vão ao cinema, assistem TV, etc.) e a imprensa cultural (que cobre essas áreas citadas). É natural que haja mais gente interessada em ouvir um CD do que em ler sobre o mesmo. Só que no Brasil é mil vezes mais complicado, porque neguinho não lê - porra, pensar que os maiores jornais do país tiram, sei lá, 400, 500 mil exemplares (no domingo!!!) dentro um povaréu gigante como o nosso é triste.

Imprensa musical aqui precisa ter um caráter meio estóico, de "catequização" do povo. Pra se sustentar, tem que esquecer a idéia de "bom gosto" e abordar os artistas que o povão quer conhecer, e a partir daí, nas entrelinhas, apontar uma ou outra novidade bacana. É isso, ou então partir pros nichos. Mas aí ninguém vai ler.

Queria que você falasse um pouco da tua experiência como editor executivo do Jornal Musical, que, a meu ver, foi a melhor iniciativa no que diz respeito a falar de música brasileira na internet. Você crê que o site teve a repercussão merecida? Havia tanta gente interessada em um jornalismo realmnte bem feito sobre música brasileira? Por que, afinal, o site acabou? Não foi possível manter nem mesmo a pesquisa na internet? O JM foi uma ótima idéia pessimamente executada. Não chegou a ter nem um décimo da repercussão que merecia, por conta de inúmeros descompassos entre a redação e a direção do Instituto Memória Musical Brasileira, a entidade que geria e financiava o site. Acho que havia (e há) muita gente interessada em ler sobre música brasileira na internet, tanto no Brasil quanto no exterior. Mas falando francamente - sem ultrapassar os limites da discrição profissional - faltou pé-no-chão por parte da direção do site, e faltou interesse por parte do Instituto. A pesquisa na internet poderia ter continuado, não fossem os desentendimentos entre a chefia da redação e a direção do Instituto. Preferiram tirar tudo do ar a tentar chegar a um acordo. Enfim... é possível que a pesquisa volte ao ar. O site, acho difícil, ao menos nos moldes originais.

Você montou um blog, já editou sites, etc. Já te passou pela cabeça a idéia de montar uma revista ou um site próprio, alguma vez? Já, claro. Mas quando eu era jovem e ingênuo, hahah! Uma boa revista independente é impraticável, seja em termos de qualidade, seja em termos financeiros. Dá pra fazer uma revista barata (ruim) ou uma boa (cara demais). Conciliar os dois mundos é impossível. Site não dá dinheiro, a não ser que seja de pornografia.

Você criou um blog chamado Chutem O Crítico, só com os e-mails indignados que recebia dos leitores de suas resenhas no Cliquemusic. Quais foram os e-mails mais bizarros que você recebeu nessa época? Qual foi a maior lição que vc tirou desse lance de atender fãs irados de alguns artistas? Lembro que uma vez você comentou que achava que o que deixava alguns fãs mais indignados era o fato do crítico ter um espaço para escrever no jornal e eles, não... Outra época divertida. Os mais bizarros foram os dos fãs do Humberto Gessinger e do KLB (basta clicar aqui para conferir). Aprendi que os leitores tem uma relação meio sadomasoquista com a crítica. Eles dão um valor exagerado à opinião dos críticos, tanto para o bem quanto para o mal. Senti um recalque inesperado no público, explicável por meio de psicologia barata. Como o fã tem uma relação visceralmente pessoal com o ídolo, ele não entende como outra pessoa (o crítico), por dever de ofício, consegue abordar a obra do ídolo de modo frio e isento. E eventualmente negativo. Então levam os comentários para o lado pessoal. Nem passa pela cabeça do fã que o jornalista tenha considerado o disco de artista X ou Y ruim por critérios puramente artísticos. Não, o crítico só detonou porque é burro, mal amado, é invejoso, ou tem pau pequeno (já fui "acusado" disso). Se os fãs entendessem que se trata apenas de trabalho, de um lado e do outro (o trabalho do músico e o trabalho do crítico), aí a polêmica acabaria.

+ Falando nisso, Bart andou conversando com Chorão sobre o filme O Magnata - sobre cuja trilha sonora você lê aí embaixo. Leia aqui.


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Comentário de: Gustavo de Almeida Email · http://www.interney.net/blogs/eclipse

Excelente entrevista com um extraordinário profissional da imprensa, alguém que destoa da mediocridade geral. Bart é mestre no que faz, e digo isto com a proximidade de quem dividiu o mesmo plantão. Só tem dois defeitos graves: acha que música eletrônica é música e torce por aquele time lá de São Cristóvão...

PermalinkPermalink 01.12.07 @ 02:44



Comentário de: EAD · http://www.ead.feuc.br

mto bom o blog é o melhor blog d música na rede!!
continue assim
parabéns

PermalinkPermalink 07.12.07 @ 16:05



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Discoteca Básica

Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ.Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc.Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc.E-mail: rschott2004@gmail.com

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