30.11.07

Permalink 20:04:48, por Ricardo Schott Email   Portuguese (BR)
Categorias: Música

Entrevista: Marco Antonio Bart !

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Ele nasceu em São Gonçalo (RJ), já militou na imprensa musical underground, já foi DJ, já colaborou com dois dos melhores sites sobre música brasileira da web (o Cliquemusic, até hoje no ar, e o falecido - infelizmente - Jornal Musical), já publicou os e-mails indignados que recebia dos litores de suas críticas musicais (no célebre blog Chutem O Crítico) e está há séculos atuando como jornalista cultural do Jornal do Brasil. E agora ele está mantendo um blog, o Telhado de Vidro - nome de uma antiga coluna sua da revista Rock Press - no qual coloca boa parte de sua produção. Ele é Marco Antonio Barbosa, o popular Bart. Batemos um papo com ele para saber um pouco de sua carreira e do que ele está pretendendo com o blog. Fala aí, Bart!

Outro dia vi um jornalista escrever a seguinte frase numa comunidade do Orkut: "Não me peça de graça o que eu tenho pra vender". Como é pra você, que já tá há onze anos na área, estar fazendo um blog para colocar tua produção? Meu blog é mais uma forma de chegar ao público. Trabalho num jornal que ainda tem um certo nome, mas cuja repercussão & influência diminuem a cada dia. Por sorte, escrevo basicamente sobre o que me interessa. Mas sei que pouca gente tem a chance de ler minha produção (especialmente quando escrevo sobre música pop). Então, aproveito o blog pra republicar o melhor da minha produção falando diretamente a uma galera que vai entender do que estou falando, e que vai dar um feedback imediato sobre o que estou escrevendo. Ao mesmo tempo, não estou "dando" coisa alguma "de graça". Quase tudo o que sai ali já foi publicado em outros lugares, e já fui remunerado pelo o que fiz. O blog é um meio de divulgação pessoal. Ou um currículo eternamente atualizavel.

Acho que vi essa frase ("Não me peça, etc.") no Orkut, se não me engano foi na comunidade da revista Bizz. Concordo até certo ponto. A proliferação dos blogs banalizou uma atividade que, até 10, 15 anos atrás, era exclusiva de uma microtribo: o ato de poder publicar sua opinião. É compreensível que o camarada que ganha a vida vendendo sua opinião se sinta ameaçado quando surge um monte de gente opinando de graça por aí. Ao mesmo tempo, ninguém leva blog a sério, ao menos não no Brasil. A repercussão é ínfima. Então neguinho se melindra a troco de muito pouco. Em resumo, acho o seguinte: o jornalista tem que se garantir com a qualidade da informação que ele tem pra divulgar. Opinião sem informação não vale nada. Acho que aí está o pulo do gato do meu blog: (praticamente) só tem informação. Espero que nunca confundam o t.d.v. com qualquer outro desses blogs de achismos e confissões pessoais.

Você acredita que o blog pode servir de portfolio pro seu trabalho? A primeira resposta meio que cobriu essa pergunta. Tenho certeza que sim. O blog é um ótimo portfolio; já fiz contatos profissionais por conta do blog. Pessoas leram, gostaram e me convidaram pra fazer outras coisas.

Uma vez um amigo nosso, o André Mansur, me contou que você dava altas festas em São Gonçalo, que tinha muitos discos, etc. Como era essa época? Fala um pouco pro nosso leitor fã de NX Zero e My Chemical Romance como era garimpar música nesse período. Haha, era uma época manera (maneira?). Começo/meados dos anos 90. Eu coleciono discos e leio sobre música desde meus 12 anos, ou seja, desde 1986. Passei boa parte de minha adolescência em sebos de vinil, catando discos. As duas fontes de indicações eram a Fluminense FM e a Bizz. Quando sobravam uns trocados, comprava umas Melody Maker atrasadas no Plaza Shopping. Então eu passava as tardes ouvindo a Flu FM e gravando fitas e mais fitas, tentando reconhecer as bandas que as revistas diziam que eram boas. E o que pintava em disco por aqui eu ia comprando, conforme a grana (que era pouca) dava. Depois que surgiu a MTV, em 1990 (acho), ficou mais fácil conhecer as bandas, mas ainda assim os discos demoravam a sair por aqui. Quando saíam. Era tudo muito enrolado. Gostar de rock - ou, como os "entendidos" diziam, "curtir um som" - era complicado. Os discos importados eram caríssimos, mas dava pra achar algumas coisas baratas garimpando nos sebos. Entre 1994 e 1997 eu trabalhei como DJ, tocando rock em uma boate em Niterói, e passei também a armar festinhas pros amigos na casa da minha mãe e em clubes em Niterói também. Foi quando o CD começou a popularizar por aqui, durante o Plano Real. Uma época muito legal. Sou radicalmente contra nostalgia, mas acho que naquela época as pessoas se apegavam mais às bandas - mesmo porque a oferta de discos ainda era pouca, então só dava pra comprar um ou outro CD que a gente achava muito foda. (Ah, eu adoro My Chemical Romance.)

Você tem um tempo legal no mercado e já viu veículos surgindo, acabando, já esteve em um número bacana de redações, etc. Dá pra pensar em imprensa cultural (e em especial, a musical) num país que lê pouco e quase não consome bens culturais? Dá, mas num nível tão restrito e elitizado que chega a ser vergonhoso. Não era para ser assim. Em todo o mundo existe um descompasso entre a indústria cultural (que atrai a atenção de milhões de pessoas, que compram discos, vão ao cinema, assistem TV, etc.) e a imprensa cultural (que cobre essas áreas citadas). É natural que haja mais gente interessada em ouvir um CD do que em ler sobre o mesmo. Só que no Brasil é mil vezes mais complicado, porque neguinho não lê - porra, pensar que os maiores jornais do país tiram, sei lá, 400, 500 mil exemplares (no domingo!!!) dentro um povaréu gigante como o nosso é triste.

Imprensa musical aqui precisa ter um caráter meio estóico, de "catequização" do povo. Pra se sustentar, tem que esquecer a idéia de "bom gosto" e abordar os artistas que o povão quer conhecer, e a partir daí, nas entrelinhas, apontar uma ou outra novidade bacana. É isso, ou então partir pros nichos. Mas aí ninguém vai ler.

Queria que você falasse um pouco da tua experiência como editor executivo do Jornal Musical, que, a meu ver, foi a melhor iniciativa no que diz respeito a falar de música brasileira na internet. Você crê que o site teve a repercussão merecida? Havia tanta gente interessada em um jornalismo realmnte bem feito sobre música brasileira? Por que, afinal, o site acabou? Não foi possível manter nem mesmo a pesquisa na internet? O JM foi uma ótima idéia pessimamente executada. Não chegou a ter nem um décimo da repercussão que merecia, por conta de inúmeros descompassos entre a redação e a direção do Instituto Memória Musical Brasileira, a entidade que geria e financiava o site. Acho que havia (e há) muita gente interessada em ler sobre música brasileira na internet, tanto no Brasil quanto no exterior. Mas falando francamente - sem ultrapassar os limites da discrição profissional - faltou pé-no-chão por parte da direção do site, e faltou interesse por parte do Instituto. A pesquisa na internet poderia ter continuado, não fossem os desentendimentos entre a chefia da redação e a direção do Instituto. Preferiram tirar tudo do ar a tentar chegar a um acordo. Enfim... é possível que a pesquisa volte ao ar. O site, acho difícil, ao menos nos moldes originais.

Você montou um blog, já editou sites, etc. Já te passou pela cabeça a idéia de montar uma revista ou um site próprio, alguma vez? Já, claro. Mas quando eu era jovem e ingênuo, hahah! Uma boa revista independente é impraticável, seja em termos de qualidade, seja em termos financeiros. Dá pra fazer uma revista barata (ruim) ou uma boa (cara demais). Conciliar os dois mundos é impossível. Site não dá dinheiro, a não ser que seja de pornografia.

Você criou um blog chamado Chutem O Crítico, só com os e-mails indignados que recebia dos leitores de suas resenhas no Cliquemusic. Quais foram os e-mails mais bizarros que você recebeu nessa época? Qual foi a maior lição que vc tirou desse lance de atender fãs irados de alguns artistas? Lembro que uma vez você comentou que achava que o que deixava alguns fãs mais indignados era o fato do crítico ter um espaço para escrever no jornal e eles, não... Outra época divertida. Os mais bizarros foram os dos fãs do Humberto Gessinger e do KLB (basta clicar aqui para conferir). Aprendi que os leitores tem uma relação meio sadomasoquista com a crítica. Eles dão um valor exagerado à opinião dos críticos, tanto para o bem quanto para o mal. Senti um recalque inesperado no público, explicável por meio de psicologia barata. Como o fã tem uma relação visceralmente pessoal com o ídolo, ele não entende como outra pessoa (o crítico), por dever de ofício, consegue abordar a obra do ídolo de modo frio e isento. E eventualmente negativo. Então levam os comentários para o lado pessoal. Nem passa pela cabeça do fã que o jornalista tenha considerado o disco de artista X ou Y ruim por critérios puramente artísticos. Não, o crítico só detonou porque é burro, mal amado, é invejoso, ou tem pau pequeno (já fui "acusado" disso). Se os fãs entendessem que se trata apenas de trabalho, de um lado e do outro (o trabalho do músico e o trabalho do crítico), aí a polêmica acabaria.

+ Falando nisso, Bart andou conversando com Chorão sobre o filme O Magnata - sobre cuja trilha sonora você lê aí embaixo. Leia aqui.

28.11.07

Permalink 14:40:30, por Ricardo Schott Email   Portuguese (BR)
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A volta dos que não foram

SONY OBRIGADA A PAGAR 5 MILHÕES DE DÓLARES EM DISPUTA POR MEAT LOAF

Calma, não é bem o que você está pensando. Eles fizeram um relançamento (mais um!) de Bat out of hell e esqueceram de colocar o logotipo de um selinho ao qual o disco pertence. Leia aqui.

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Opa, esqueci de postar algo sobre isso: Vocalista da banda Quiet Riot é encontrado morto em Las Vegas

Eu já tinha até jogado isso em algum canto escuro da memória, mas o primeiro disco de heavy metal que eu escutei na minha vida - fora os do Led Zeppelin, Black Sabbath, etc - foi um do Quiet Riot, Metal health. E eu adorava esse troço. Fazia tanto tempo que não ouvia falar deles, que nem sabia que eles tinham lançado disco novo ano passado (o nome talvez seja significativo: Rehab). Sempre escutei uma história a respeito do show deles no Brasil em 1985, de que os músicos da banda ficavam xingando a platéia de motherfuckers - sempre sob os aplausos da massa. Isso é que é roquenrol!

27.11.07

Permalink 08:55:13, por Ricardo Schott Email   Portuguese (BR)
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Sock it to me !

Já que falamos aí embaixo em black music e em 1967 - temas do nosso Freakast - o The Guardian tá com uma matéria interessante (o Zeca Azevedo, que foi nosso convidado no programa sobre os sons black, disse não concordar com alguns pontos dela) sobre o hit "Respect", de Aretha Franklin. Leia aqui.

Permalink 01:04:22, por Ricardo Schott Email   Portuguese (BR)
Categorias: Música

Freakast - e mais

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Eu estava esperando pra falar disso mais adiante - íamos fazer um lançamento melhor, com mais novidades, etc. Mas vamos lá: eu estou participando, junto com os camaradas Pablo Peixoto, Leonardo Bonfim e Rafael Saldanha, do podcast Freakast, sobre música. Fica difícil dizer qual o principal objetivo do podcast, mas a idéia é mais ou menos trazer todo cohecimento musical engarrafado para, como diz o Pablo na apresentação do programa, todos os "musicófilos e musicopatas". Já fizemos seis belas edições girando em torno de temas como música em geral, MTV, black music, Beatles (em duas partes) e o ano de 1967. E vem mais por aí - muita coisa já está prontinha esperando para ir ao ar.

Agora, quero saber o que os leitores do blog - se é que eles existem, depois que passei um bom tempo sem atualizá-lo - acham do podcast. Mandem e-mails, sugiram temas, dêem opiniões, etc. Ficamos todos no aguardo. O Freakast vai ao ar toda quinta-feira e pode ser ouvido, por enquanto, neste endereço aqui.

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Aliás, falando em rádio na internet, a Rádio Cidade Web Rock desenvolveu uma outra estação on-line para só trabalhar com rock nacional. É a Cidade Rock Brasil. A idéia é tocar tudo o que houver de mais interessante no rock nacional. Vale dar uma escutada.

26.11.07

Permalink 01:11:57, por Ricardo Schott Email   Portuguese (BR)
Categorias: Música

Charlie Brown Jr.

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"RITMO, RITUAL E RESPONSA" - CHARLIE BROWN JR. (EMI)

Existem poucas coisas mais complicadas do que manter a máquina do mercado funcionando - e a coisa se torna ainda mais complexa quando, aparentemente, a razão de ser, viver e trabalhar de alguém passou a ser apenas essa. O Charlie Brown Jr, com o tempo, acabou se tornando uma máquina de cuspir discos com mais de setenta minutos e mais de vinte faixas (algumas delas, vinhetas absolutamente dispensáveis), letras que repetem frases, riffs parecidíssimos e surpresas dosadas. Em Ritmo, ritual e responsa, disco que tem a dupla função de ser o novo lançamento do grupo e de fazer a trilha de O magnata, "um filme de Chorão" (de péssima qualidade, segundo quem já viu), os santistas queimam o filme de cara com a bodeante e repetitiva "Pontes indestrutíveis", igual a 90% do que o quinteto já fez. Mas recuperam o fôlego em momentos subsequentes, mandando bala num CD nota sete - e recordista em termos de duração, já que são mais de oitenta minutos. Tudo para deixar satisfeito o mercado que exige um CD a cada dois anos, e fazer a vontade dos fãs que ainda compram discos da banda.

Ritmo, ritual e responsa mostra, em vários momentos, o Charlie Brown fazendo aquilo que de melhor sabe fazer - skate rock com toques de hardcore e metal (influenciadíssimo pelo Pantera, banda-matriz do lado metálico da banda). Costurado como um bom vídeo de manobras de skate, ou como um videoclipe, o disco revela momentos bacanas como o reggae de "Uma criança com seu olhar", a vinheta funky "Liberdade é tudo", o som à Helmet de "Curva de Hill", o instrumental "Quando tudo aconteceu", o funk-metal-tamborzão (!) de "Sem medo da escuridão" e a berraria de João Gordo em "Vida de magnata" e Marcão (da banda hardcore santista Lobotomia) em "Que espécie de vermes são vocês?". Com um filme recém-lançado, a banda arrumou a desculpa perfeita para entupir os fãs de vinhetas e narrações (Marcelo Nova aparece num trecho rápido). E pela primeira vez desde Preço curto, prazo longo, dá certo.

24.11.07

Permalink 01:18:41, por Ricardo Schott Email   Portuguese (BR)
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Atrasou!: Thom Yorke

Baixei esse disco há séculos e nunca comemntei aqui. Vai lá...

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"THE ERASER" - THOM YORKE (XL, 2006)

Por uma razão além da própria razão, In rainbows, disco novo do Radiohead, teve aquele fuzuê todo por causa do lançamento online, do "quer pagar quanto?" (que virou título de um sem-número de resenhas do disco pelo Brasil agora) e poderia ser um disco de fim de ano de gravadora grande, anunciado com toda pompa que tem direito - afinal boa parte da crítica concordou que se trata do melhor do Radiohead em muito tempo. The eraser, disco solo de Thom Yorke, lançado ano passado, ainda saiu de maneira convencional (por um selo independente, diga-se) e é tão mais experimental e atormentado que já poderia ter inaugurado a tal maneira "nova" de divulgação do Radiohead.

A Rolling Stone norte-americana afirmou que The eraser mostra apenas "um homem e seu lap-top", com poucas guitarras. E é verdade: o disco inteiro mostra uma mistura de teclados, batidas eletrônicas (leves) e canções belíssimas - algumas delas lembrando bastante a banda de Thom (caso de "Skip divided"), outras bem diferentes ("Black swan", o mais próximo que o disco chega ter um som "dançante", e olhe lá). O clima do disco lembra, às vezes, um pouco, o de discos como Computer world, do Kraftwerk, com batidões repetitivos (as últimas faixas meio que se interligam). Os diferenciais estão no clima deprê e quase aterrorizante - lembrando Kid A - de "And it rained all night" e, vá lá, uma musiquinha que, remixa daqui e dali, viraria uma boa dance track ("Harrowdown hill", que por sinal gerou o primeiro clipe do disco). Um disco legal, mas o que interessava mesmo já estava sendo preparado para o novo do Radiohead.

19.11.07

Permalink 16:39:02, por Ricardo Schott Email   Portuguese (BR)
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Sérvio Túlio

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Achei no meu material outra entrevista que fiz pro Nitideal com o músico e jornalista Sérvio Túlio. Além de produtor da rádio MEC, ele se notabilizou como metade da dupla de música eletrônica Saara Saara (que, apesar de ter feito algum barulho no Rio, durante os anos 80, só lançou disco há uns quatro anos, Sucessos que o mundo esqueceu) e também vem fazendo uma série de trabalhos interessantes, como o projeto que resgata canções de cabaré alemão dos anos 30 (leia aqui). Lembro que essa entrevista foi feita no final de 2004 - não faço idéia de em que mês foi isso.

O papo foi feito por telefone e deu quase uma hora de fita - ou seja: texto beeeeem grande. Leiam aí enquanto TENTO escrever coisas novas para essa semana.

Sérvio Túlio

Você nasceu em Niterói? Não, sou de Bom Jesus do Itabapoana, no Norte do Fluminense, fronteira com o Espírito Santo. Eu vim pra Niterói aos 15 anos, em 1979, para fazer vestibular. Fui fazer vestibular pra Belas Artes no Fundão, onde fiz faculdade. E música eu fiz desde pequeno. Na minha família, desde os sete anos de idade, já tinha que ir pra aula de piano. É aquela coisa, criança, tem que fazer e tal, aí fiz no conservatório. Hoje em dia nem sei tocar muito. Me dou bem com pauta, sei ler música, mas tocar você tem que praticar. Na faculdade de Belas Artes eu também nunca deixei de querer cantar, de estudar... Mas profissionalmente, com música, eu comecei mesmo foi com o Saara Saara, em 1985. O Raul também era de Bom Jesus.

E ele tá na banda ainda? Ele tá com você? Tá, sempre foi a gente, né?

É uma dupla, não é uma banda... É, exatamente. Em Bom Jesus eu era vizinho do Raul, desde pequenininho.

Você sempre foi um pesquisador musical. Você já tinha esse dom desde pequeno? Tinha. Eu estava até conversando outro dia com um pessoal, porque hoje em dia está tão fácil você achar as coisas, né? Você vai na Internet e já acha tudo. Se por um lado é maravilhoso, por outro lado até perde um pouco da emoção, de você ficar garimpando as coisas. Porque lá em Bom Jesus não tinha nada disso. Então eram coisas que a gente ficava sabendo de amigos. Tinha um cara lá... na verdade duas figuras, o Guti e o Miguel, que trabalhavam no Banco do Brasil. Eles eram caras mais velhos, o Guti era casado, a filha dele já estava com 13, 14 anos. Mas ele sempre viajava e trazia tudo. Então no final de semana juntava aquela gurizada na casa do Guti (rindo).

Vocês ouviam mais rock? Eram que bandas, ou artistas? Tudo que acontecia naquela época de rock. Ainda mais porque no interior tinha muito aquela coisa da música progressiva... Conheci aquelas bandas progressivas todas, Guru Guru, Nektar, etc. Muita banda alemã. O Premiata Forneria Marconi também... E tinha as coisas mais pop que a gente ouvia, que a gente adorava também, David Bowie, Led Zeppelin, porque tinha uma loja de discos lá que tinha o trivial. Era uma loja chamada Paulinho Discos (risos), lá em Bom Jesus. E esse cara, o Paulinho, ele já foi no Jô Soares, eu acho que ele é um dos maiores colecionadores de filmes de faroeste. E ele era o dono dessa loja. E ás vezes ele também trazia alguma coisa, quando ele começou a descobrir que a gente ficava correndo atrás desses negócios. Foi a hora em que ele começou a descolar, mas aí também já estava saindo de lá, ou já estava pensando em outras coisas... Foi na loja do Paulinho que eu comprei o primeiro compacto dos Sex Pistols!

Edição brasileira? Edição brasileira, aquela capinha amarelinha (risos). Era compacto mesmo, com duas músicas, uma era "God save the queen" e a outra não me lembro. Então chegamos aqui em Niterói e continuou o mesmo movimento, porque ainda não tinha essa coisa de internet que revolucionou o mundo mesmo... Então era aquela história de filas enormes em frente á Modern Sound (loja em Copacabana).

Em Niterói tinha muito fâ de rock quando você veio? Quantos anos você tinha? Eu tinha 15 anos. Tinha muito fâ, porque Niterói sempre foi essa coisa "roqueira", mais o que eu sacava aqui é que tinha aquele pessoal, que, tirando aquelas lojas aqui, tipo a Zeit (famosa loja de discos usados daqui, especializada em rockl progressivo e velharias)... Tinha uma loja lá em que todo mundo fazia ponto, que era a Stop discos, mas isso já pra 80 e pouquinho. Mas quando eu cheguei o movimento era mais no Rio mesmo. Em Niterói sempre caiu mais para aquela coisa do rock tradicional, pro lado do blues, esse tipo de coisa. A gente é que foi procurando outra coisa, porque tinha mania de fuçar em tudo. Mas a gente gostava de tudo, não tinha esse negócio de "ah, eu gosto de eletrônico", "eu gosto de rock". Era bom porque todo mundo ouvia de tudo. Não existia esse ranço com estilos musicais. Eu lembro muito bem, todo mundo comentava tudo que saía. Eu achava bem interessante. Hoje é que eu acho que tá demais... eu olho às vezes na internet e fico abismado, até mesmo com coisas básicas, como eletrônico. Você vai no eletrônico e tem 500 estilos. É isso, é aquilo, é não sei o quê. Eu fico... (rindo)

Como foi que a música eletrônica apareceu na sua vida? Apareceu porque foi uma coisa que eu sempre gostei. Acho que na minha geração quem gostou de eletrônico teve a mesma base, que foi aquela turma alemã, o Kraftwerk e tal. E também porque eu me lembro... aí tem uma coisa engraçada: na minha época de Ensino Médio tinha uma professora de educação artística, dona Conceição, que ela fez uma coisa que o efeito surtiu bem depois. Ela levava discos de compositores de música concreta, eletroacústica, e tinha também a parte do rock e do eletrônico, a turma experimental da Alemanha. Essa ligação vem desde o progressivo, vem desde a música clássica, que meus pais ouviam em casa... Mas o eletrônico foi aparecer mesmo na minha vida com o Raul, que era tecladista, até o dia em que ele resolveu que a gente iria fazer alguma coisa juntos.

Ele sempre lidou com sintetizadores, a família dele toda tocava desde que ele era pequenininho. Um irmão era baixista, um outro era não sei o quê... Então desde pequeno ele sempre tocou em festival de música no interior, tinha banda de baile. O Raul, desde pirralho, com 10, 11 anos de idade, teve contato com música. Eu me lembro de um baile de uma banda lá em que os caras estavam com um mellotron, e o Raul tocando mellotron. Era fantástico, nunca vou me esquecer do dia em que vi um mellotron (risos), e tava ali pra gente mexer. Então vem daí, de um contato muito direto... e quando a gente começou a fazer a coisa eletrônica, foi super natural, porque foi uma conseqüência das coisas que a gente viveu desde pequeno. Para a gente sempre foi muito bacana, e cada coisa, cada "parafuseta" nova que surgia era brinquedo pra duas crianças (risos).

E como era fazer música eletronica nos anos 80, uma época em que tinham várias taxas e leis que dificultavam a importação de aparelhos? Eu lembro que o Raul sempre teve um... aí é aquela coisa de "conhecimentos", né? Ele sempre teve um trânsito bem legal com instrumentistas, com o pessoal que trazia instrumentos. Então eram coisas que ele arrumava e que eu achava até melhor você perguntar a ele como é que ele conseguia (risos). Ele ganhava a grana dele fazendo shows e bailes, uma coisa que não tinha nada a ver com o Saara Saara e foi se aranjando. Eu me lembro que a primeira versão que a gente fez de uma música do Saara Saara, no final de 1985... nem foi aquela demo que rolou na Fluminense FM, foi uma demo que teve antes e se perdeu.

Nessa demo a bateria eletrônica não era bateria eletrônica, era um negócio chamado Poly Ritmo. E o aparelho estava com defeito, ele meio que soluçava (risos). Foi o que deu pra arrumar. Ele tinha um Poly Ritmo e um (sintetizador) Juno 106. Hoje em dia o Juno 106 já está até cult. A gente começou tocando com isso. Logo depois a gente ia juntando uma grana aqui e outra ali, e a gente rachava algumas coisas, tipo computador MSX... (Nota do editor: caralho!) Nós pegamos mesmo os primórdios. E o tempo passa e ele já conseguiu montar o estúdio dele. Hoje está tudo mais facilitado, tem sampler...

E como vai o Saara hoje? Vocês lançaram um disco agora. A gente lançou agora. Foi uma coisa meio maluca, porque no final de 1990 a banda nem acabou direito. O que aconteceu foi que todo mundo começou a ficar atolado com outras coisas - você tem que se virar um pouco pra ganhar um pouco mais de dinheiro pra pagar as contas (rindo) - e não dava muito tempo. O Raul fez um disco com outra banda, eu fui para a música de concerto. Participei de vários grupos de música barroca...

Você andou um tempo bem envolvido com música clássica.
Fiquei fazendo música clássica mesmo, durante os anos 90. Trabalhei com música de concerto, viajei, cantei com o grupo vocal Anonymus (que canta música renascentista), etc. Mas a gente nunca deixou de se encontrar, tanto é que algumas músicas desse CD foram feitas em 1996, 1997, era bom ter tempo de brincar um pouco.

Vocês não gravaram "O amor e o poder", não, né? Não (risos), isso surgiu de brincadeira. Mas depois virou tradição. Em todos os shows, o público pedia (o sucesso da cantora Rosana era tocado no fim dos shows deles nos anos 80/90). Bom, em 2001, comecei a ficar com saudade de fazer música eletrônica de novo. Fiz um treco para mim, sozinho, que eu chamei de Radio Elektrola. Hoje a Rádio Elektrola virou um endereço onde coloco tudo que eu faço. Agora estou até abrindo uma seção onde vão ter coisas de amigos, também. Mas na verdade ela começou porque fiz muita coisa no computador sozinho, quando eu tinha tempo, de hobby. Usando esses softwares vagabundos de computador. Nisso, conheci pelo Marcelo Schnell, que fez a capa do CD do Saara, e conhecia um pessoal que frequentava festas de música eletrônica na Nautillus (hoje Espaço Marun).

Naquela época eu já tinha colocado na Rádio Elektrola aquelas demos antigas do Saara, já que ninguém iria fazer mais nada com aquilo mesmo. Comecei a ter uma resposta muito maluca, tanto do pessoal da época quanto de garotos de agora, gente de 17, 18 anos pegando, escrevendo e-mail. Comecei a ir na Nautillus e vi que tinha gente bem nova que curtia o Saara. Na época, quem organizava as coisas todas lá era o Henrique, que fazia uma festa de música eletrônica lá chamada Muzik. Ficamos amigos, eu e o Henrique, e descobri que no meio desse pessoal tinha muita gente que tinha projetos de música eletrônica. E eu: "pô, Henrique, porque é que não bota esse pessoal pra tocar?". E ele: "ah, mas não tem nem um nome grande, pra chamar a atenção...". E eu: não seja por isso, se for pela causa, a gente (o Saara Saara) toca (rindo). E foi o primeiro show que a gente fez depois desse tempo todo, em 2001, numa festa Muzik com mais cinco bandas.

Lembro que o pessoal da MTV estava lá e perguntou: "ah, vocês voltaram?", e a gente: voltamos de onde, já que a gente nem foi a lugar nenhum? (rindo). Em 2002 teve outra edição do Muzik, mas eu não toquei com o Saara, toquei com a Rádio Elektrola, que era computador e duas guitarras. Foi um show que a gente chamou de Música eletrônica doméstica (rindo). Era uma coisa brincalhona, as músicas mais sujas, a coisa mais bagunceira. Em 2003 concebemos o disco, que saiu agora pela Astronauta, com distribuição da Tratore. Foi uma coisa rápida, gravamos o disco em casa mesmo, em duas semanas, levamos para o estúdio para remasterizar e saiu agora.

Já teve alguma recepção da crítica? Não, ainda não. Eu não sei como a Tratore está fazendo isso, mandaram poucos exemplares pra gente. Sei que está vendendo, mas foi muito recente. Está na Submarino, na internet, e no centro do Rio está na Musicland, chegou lá e acabou. Tive uma recepção legal de um pessoal de Berlim, que frequenta muito o site. Tem um cara que é radialista, trabalha com as rádios independentes lá e já tocou o Saara lá, em boates. No ano passado convidaram a gente para fazer um show lá, no aniversário de uma rádio universitária, mas a gente teria que pagar a passagem. Mas agora dia 24 vai ter um programa lá, em que vão tocar a gente junto com uma cantora chamada Asha Pudhli, uma cantora dos anos 70 que fazia uma coisa disco, mas completamente esquizofrênica, misturando coisas orientais. No mais, muito trabalho...

E shows, no Rio ou em Niterói? A gente já tocou no SESC, em dezembro do ano passado, quando o disco iria ficar pronto - e não ficou. Fizemos um também mês passado, já tem um clipe desse show no site da Rádio Elektrola. Em Niterói, não sei. Está marcado um show no dia 10 de junho na FNAC da Barra, vai ser um pocket show. Lançamento mesmo, só 3 de julho no Espaço Marun, comemorando um ano da festa DDK. Por enquanto é o que está marcado.

Falando um pouco do seu trabalho na rádio MEC, como é trabalhar numa rádio que é meio guerrilha, que toca música clássica? Ela era para ser uma rádio do governo, agora virou organização social. Ela pode captar verbas, mas é difícil isso acontecer. Eu não participo muito desse processo, fico na parte de produção e programação... Ou como eles chamam lá, de "líder". Tem o líder do AM, do FM. O que eu curto fazer é programação e produção, e com isso a gente fica bastante atolado. Mas tem que saber aproveitar, é a única rádio de música de concerto no Brasil atualmente. Você tem público legal pra isso, qualquer sala de concerto fica lotada. É um público fiel. Eu lembro que trabalhei na Opus 90 e tinha ela, a MEC, as duas mantinham audiência fiel. Na MEC é uma maravilha, porque teu compromisso é só com a qualidade. Para o radialista isso é o paraíso (risos). Por outro lado você não tem a coisa do investimento, como as rádios clássicas lá fora têm. Até porque as gravadoras aqui não lançam mais discos clássicos. É muito complicado, porque você tem o lado de realização total, de poder trabalhar por qualidade, mas você tem também essa coisa deficiente.

Você não tem uma discoteca, não ganha os lançamentos da gravadoras - até porque elas não lançam, mesmo - e lá fora não interessa a elas mandar coisas para cá, porque não tem representantes, praticamente. Você sabe de tudo que rola no mundo, fica ansioso para levar isso para o ouvinte e não pode. E às vezes você usa o artifício de recorrer ao próprio bolso. A gente compra pra gente e, por tabela pra rádio. Eu já fiz programas na MEC em que o material foi praticamente bancado por mim. É uma loucura, a gente está aguardando pra ver se muda isso um pouco. Mas quanto a trabalhar lá e não ter que lidar com jabá, é uma maravilha (Nota do editor: se alguém puder mandar um e-mail para rschott2004@gmail.com dizendo como vai a situação interna da MEC hoje...)

Como foi que o rádio surgiu na sua vida? Foi uma história muito legal. Em 1985 eu estava começando com o Saara e existia uma jornalista na UFF, Esther Lucio Bittencourt. Eles estavam tentando um convênio da rádio da UFF com a rádio Fluminense AM. Eles queriam viabilizar isso, o que significaria que de segunda a sexta a Fluminense AM teria uma parceria com a Escola de Comunicação da UFF. Um amgo em comum, o Sérgio, me apresentou à Esther. Ela precisava montar uma equipe para fazer um rádio experimental na UFF, que acabou ficando nove meses no ar. E nessa história, eu fiz programa de tudo quanto era tipo, fiz entrevistas na rua, entrava nos carros, fazia entrevista sobre tudo quanto era assunto. Foi uma faculdade de comunicação intensiva, uma escola de rádio fantástica. Quando tudo aquilo terminou, eu me virava super bem em qualquer coisa de estúdio. Eu fazia Belas Artes e pensei em transferir minha faculdade para a Escola de Comunicação da UFF. Eu até que consegui no começo, mas quando você está no pique, não consegue sentar e ficar ouvindo baboseira... (risos). Sentei e escutei cada coisa, aí achei melhor procurar emprego porque precisava trabalhar.

Depois fui para o Jornal do Brasil porque estava tendo um teste lá para produtor e me ofereci, na cara-de-pau. Era um programa na JB AM chamado Arte Final e Variedades, do Luis Carlos Saroldi. Fiz um teste e o Saroldi olhou pra cara da gente falou: "então vamos fazer o seguinte, cada um vai fazer um programa e botar no ar". Fui pra casa, fiquei me torturando ouvindo os programas dos outros candidatos, estavam ótimos... (risos). Mas quem ganhou a vaga fui eu. Aí fui para a AM, depois a AM acabou e depois o Antonio Ernani, que fazia os clássicos na FM... O Antonio Ernani era aquele crítico de jornal que os músicos tinham pavor! Ele sabia que eu gostava de música clássica e disse que ia me aproveitar na FM. Fiquei um tempão e logo depois veio a proposta da Opus 90, porque o Ernani estava no projeto, então ele me carregou junto. Depois a Opus 90 acabou, fiquei desempregado de rádio e mergulhei a cabeça em música clássica mesmo como cantor. Cheguei a viajar, fui cantar na Bósnia, na Croácia, e depois me chamaram para a MEC.

Como você vê Niterói hoje em dia, culturalmente? Eu acho que nossa cidade, até pela maneira dela ser organizada geograficamente, dá para se fazer um trabalho cultural fantástico aqui na cidade, com tudo interligado. O problema é que as pessoas aqui ficam muito presas em certas coisas, as pessoas têm que ter cabeça mais aberta, as pessoas que comandam o teatro, a secretaria de cultura. Tudo que acontece, as pessoas acabam indo para o Rio, porque Niterói é um fechado... O próprio Saara não teve projeção em Niterói, foi tudo no Rio. Agora, sim, eu acho que a UFF, no campo da música clássica, está fazendo bonito. O pessoal de música antiga está promovendo festivais. A prefeitura tem que entrar mais em cima disso. Culturalmente falando está tudo meio em marcha a ré, é uma burrice, porque tem muito artista em Niterói. Em termos de rock, eu acho ótimo você conhecer Black Sabbath, Led Zeppelin, tenho isso tudo, mas você não pode ficar parado.

Aqui as pessoas amam até hoje Lynyrd Skynyrd, é uma coisa que passa de pai para filho... Pois é, Lynyrd Skynyrd, que é uma banda que eu acho que só Niterói conhece (rindo). Tem um clima de banda típica de Niterói, não tem? Isso evita de você ter um universo mais amplo até na questão do prazer, você corta possibilidades. Esse é o problema de Niterói, as coisas ficam meio numa bolha, fechadas para qualquer novidade, se realimentando só daquilo mesmo. Agora, tem um outro trabalho que eu estou fazendo que eu queria te falar, que eu tenho gostado muito. Eu comecei a pesquisar canções de cabaré alemãs do início do século XX. Dia 26 inclusive eu entro em estúdio com a Tula Cozac, a pianista, para gravar. É um trabalho de voz e piano, e estamos tendo força do consulado alemão. A gente já cantou na casa do cônsul e num show que a gente fez, o pessoal do consulado foi lá, levou os amigos. O repertório é de músicas que foram proibidas pelos nazistas. Foram cantores banidos da Alemanha depois da década de 30. Pegamos músicas dos anos 20, anos 30 e estamos conseguindo um acerfo fantástico, de partituras e gravações de época. Estamos pesquisando isso direto. Já conseguimos cantar ano passado no Festival de Inverno de Teresópolis, tem algo no site da Rádio Elektrola. A Tula, que toca piano, é cravista, toca num grupo de música barroca, todo mundo faz tudo. É um trabalho que está me deixando bem feliz, tive que entrar em aula, aprender alemão. Já queria cantar isso desde a década de 90, mas não estava preparado. Foi aprendizado, tive que entrar em cursos, sabendo que depois iria cantar uma música desse jeito, e tal.

16.11.07

Permalink 14:24:14, por Ricardo Schott Email   Portuguese (BR)
Categorias: Música

The Feitos / Seu Zé / Regra Zero / Martha V

thefeitos

"NA CABEÇA DA CHORONA" - THE FEITOS (Gravadora Discos / SMD)

O título do primeiro verdadeiro CD (opa, SMD) da banda niteroiense The Feitos já é piada pronta, e politicamente incorreta o bastante para fazer o grupo angariar mais fãs. O trio é uma das raras bandas cariocas a carregar a bandeira da mescla jovem guarda + punk, difícil de ser achada por aqui. Não por acaso, em vários momentos, dão a impressao de serem uma banda gaúcha, nada a ver com o Rio e muito menos com Niterói.

Para quem já conhece o grupo dos shows e da engraçada demo Eu não sei se vou continuar a ser esse cara bonito que você conheceu quando bebeu, o repertório - cheio de canções rápidas e barulhentas, e de um amontoado de frases bregas e irônicas nas letras - é à prova de decepções (er.. por outro lado, sem muitas novidades para quem já acompanha o grupo faz tempo). Tem os quase clássicos como "Disco do Roberto", "Feios, mas felizes", "Gente feiosa" e "Eu perdi o amor pelos meus dentes", além de acenos para o hard rock em "Trombetas" (do refrão-descoberta "Eu e ela gostamos de mulher / WOW!") e "Quero ser poser" e de um dos melhores títulos de músicas dos últimos anos, "Se sua irmã quiser, não há nada que você possa fazer". Conheça em www.thefeitos.com.

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"FESTIVAL DO DESCONCERTO" - SEUZÉ (Mudernage)

Para se diferenciar do mar de grupos de rock que misturam regionalismos em seu som, a banda potiguar SeuZé traz, em Festival do desconcerto uma grande queda para o blues e para o rock tradicional. Apesar de haver misturas com samba, baião e até umbanda (em "A viagem"), é o rock que dá o tom do disco e define a cara da banda. Ainda assim, inevitável não lembrar da MPB nordestina dos anos 70 em vários momentos do disco, seja pelas partes declamadas e certas músicas, seja pelos títulos e letras que lembram trechos de literatura de cordel (como em "Retrato de um traidor quando jovem" e "Plantando no céu e colhendo no inferno"). Entre as melhores faixas do CD, estão a quase teatral "O coroné", com suas diferentes partes, a balada "Fim da linha" e o forró-rock cachaceiro "Sai galada". Conheça - e faça também o download inteiro do CD - em www.seuze.net.

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"REGRA ZERO" - REGRA ZERO (Independente)

Se os cariocas do Regra Zero tivessem feito um disco com umas quinze (quinze!) músicas a menos, talvez tivessem se dado melhor. O CD dos caras - ou melhor, do cara, já que é o vocalista que cuida de praticamente tudo, das composições à produção - tem 21 músicas (isso mesmo: VINTE E UMA músicas), uma pretensão estranha nos arranjos (que inclui músicas com "parte I" e "parte II") e algumas idéias que talvez ainda precisassem de mais tempo para amadurecer, em especial nas letras. Já músicas como "As melhores coisas da vida", "Fortaleza" e "Amanhã é o agora", apesar de não trazerem um som lá muito novo, mostram uma cara interessante e radiofônica da banda, localizada entre o punk e as baladas com cara de anos 80. Conheça em www.regrazero.com.

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"MARTHA V" - MARTHA V (T-Rec/Tratore)

O disco da carioca Martha V por pouco não deixa de ver a luz do dia. Foi gravado entre 2003 e 2005 (!) era para ter sido lançado na primeira leva do T-Rec, quando o selo tinha uma parceria com a gravadora Indie Records. O atraso não fez com o que o material envelhecesse. O disco traz uma leva de onze faixas que apontam para o rock alternativo dos anos 90 e pra o pós-grunge da década atual, incluindo boas canções pop como a quase grunge "Não quero não dizer", as baladas pesadas "Clube dos 5" e "Super 8" e o hard rock "Enquanto", já presente numa das edições da coletânea Tributo ao inédito. Uma curiosidade é a presença de músicos que, na época da gravação, tocavam na tradicional "banda podre" carioca Zumbi do Mato. Conheça em www.marthav.com.br.

13.11.07

Permalink 09:46:31, por Ricardo Schott Email   Portuguese (BR)
Categorias: Música

Dia do rock em Niterói !

Essa notinha já tem um tempo, mas estou colocando para pelo menos não deixar passar em branco.

"Niterói ganha Dia do Rock

Foi aprovado, dia 06 de novembro, na Câmara Municipal de Niterói, o projeto do vereador Leonardo Giordano (PT) que institui o Dia do Rock na cidade. A data de comemoração, 4 de dezembro, é a mesma da fundação do grupo Araribóia Rock, que incluiu no roteiro cultural do estado as bandas de Niterói.

'Esta é mais uma grande vitória das bandas, dos patrocinadores e de todo mundo que prestigia os eventos de rock aqui e em São Gonçalo', comemorou o jornalista e cartunista Pedro de Luna, idealizador do movimento em dezembro de 2004 ao lado dos amigos Marcelo Blau Blau Holanda e Mauricio Machado. 'Foi um grande presente para o Araribóia Rock, às vésperas do seu aniversário, quando completaremos três anos de muita luta e nenhum apoio do poder público e do grande empresariado da cidade'."

Para conhecer o trabalho do pessoal do Araribóia Rock, entre em www.arariboiarock.com.br.

05.11.07

Permalink 22:23:02, por Ricardo Schott Email   Portuguese (BR)
Categorias: Egotrip, Música

The best of Discoteca Básica: Blue Cheer

Estou em total exílio de blog por causa dos trabalhos da faculdade e por causa de uns lances que estou armando. Como andei ouvindo bastante essa banda nos últimos dias, segue aí um textinho sobre eles, que publiquei no Discoteca Básica no final de 2002 - dei uma atualizada com algumas informações.

bcheer

"GOOD TIMES ARE SO HARD TO FIND" - BLUE CHEER (Mercury, 1994)

"Quantas vezes você já ouviu um acorde de guitarra passar por dentro de um pedal de distorção e brotar num alto-falante como uma mistura de raiva e futurismo?", perguntava Waldir Montanari num número (hoje empoeirado) da antiga Rock stars, nos idos de 1984. A frase em questão apareceu numa matéria sobre o Steppenwolf - outro grande pioneiro da distorção, aliás - mas serve bem para definir o que é o som dos norte-americanos do Blue Cheer, que têm a primeira fase de sua carreira dissecada nessa coletânea, Good times are so hard to find.

Misturando guitarras ultra-distorcidas, bateria estilo homem-das-cavernas, baixo cheio de fuzz, psicodelia, jazz-rock e rebeldia, os caras (uma formação mutante, sempre girando em torno do vocalista-baixista Dickie Peterson), nos primeiros anos, foram a verdadeira definição do termo power-trio. Em seu primeiro disco, Vincebus Eruptum (Philips, 1968), Dickie, Paul Whaley (baterista) e Leigh Stephens (guitarra) transformavam o rock numa manifestação de violência sônica. Isso ficava claro na histórica versão que a banda fez de "Summertime blues", clássico de Eddie Cochran. Comportando-se como uma banda de jazz-tribal (há espaço até para solinhos de cada integrante), o BC transformou a famosa historinha do garoto que queria dinheiro para as férias de verão num verdadeiro ato de rebeldia. Conseguiu superar até a versão do Who para a mesma música.

Eletrificando e pesando o blues até as últimas conseqüências, o grupo foi inserindo um bom punhado de psicodelia (não por acaso, "blue cheer" é o nome de um tipo devastador de ácido) no rock básico. No segundo disco, Outsideinside, também de 1968, o som do Blue Cheer estava cada vez mais lisérgico, quase próximo do progressivo devido a improvisos e a criações cerebrais-descerebradas, como a suingada e berrada "Babylon" - aberta com verdadeiras ondas de guitarra. Um ano antes do Led Zeppelin entrar em estúdio para gravar seu primeiro disco, o BC havia gravado "The hunter", clássico blues de Albert King que Page & Plant chuparam na cara dura para compor "How many more times" ("they call me the Hunter/that´s my name...", etc). Já as duas faixas pinçadas do terceiro disco, New! Improved! mostravam um mergulho ainda mais arrojado no pré-prog e na psicodelia. Esse mergulho foi traduzido num tom mais calmo (que incluiu até a mudança do vocalista: Dickie ficaria só no baixo e os vocais passariam a ser feitos pelo guitarrista Randy Holden) e em melodias mais trabalhadas, como a sintomática "Peace of mind" e "Fruits and icebergs".

As várias mudanças de guitarrista acabaram por descaracterizar o som da banda. Em 1970, o grupo já tinha abandonado a psicodelia e havia passado a fazer um rock mais tradicional. O disco Blue Cheer mostra isso em faixas como "Hello L.A, bye-bye Birmingham" e na animada "Saturday freedom", sons ensandecidos, mas sem o brilho e a selvageria dos discos anteriores. A partir daí, o grupo foi praticamente transformando-se numa banda pop amena. A música "Good times are so hard to find", do disco BC5: The original human beings, mostra isso claramente. Em Oh pleasant hope, último LP dessa fase, as faixas escolhidas para a coletânea ("Hi-way man" e "I'm the light") mostram um Blue Cheer imerso novamente em psicodelia, embora totalmente amenizado. Depois disso, a banda entraria num longo hiato.

Good times are so hard to find é um bom resumo (nunca lançado no Brasil) da primeira fase do grupo. A banda voltou em 1984 com o disco The beast is back. Hoje, considerado um precursor do stoner rock, o grupo - com Dickie, Paul Whaley e Andrew "Duck" Donald na guitarra - está de volta, com site novo, turnê nova e um CD novo, com o sintomático nome de What doesn't kill you....



Discoteca Básica

Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ. Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc. Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc. E-mail: rschott2004@gmail.com

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