Tava dando uma arrumada no meu material que está guardado em CD-Rs e achei essa entrevista que fiz com o Paulo Cesar Araújo, que escreveu Eu não sou cachorro, não e Roberto Carlos em detalhes, para o Nitideal, no final de 2004 (não vai me perguntar em que mês foi, porque isso é exigir demais da minha memória). Na época, ele tava lançando a versão em CD do Eu não sou cachorro, não. Como ele mora em Niterói - apesar de não ter nascido aqui - eu o entrevistei para a seção Personagem do site.
Contextualizando o brega
O historiador Paulo César de Araújo nasceu em Vitória da Conquista, no interior da Bahia, e mora em Niterói há vinte anos. É professor da rede pública da cidade (leciona há oito anos no Ensino Médio da Escola Técnica Henrique Lage, no Barreto) e autor de um dos mais inovadores livros sobre música brasileira, Eu não sou cachorro, não (Editora Record, 2002), que fala sobre os desdobramentos político-musicais da produção "brega" dos anos 70 - incluídos aí Odair José, Waldick Soriano, Benito Di Paula e outros. Agora, Paulo César está lançando a versão em CD da obra, pela Universal Music, com várias músicas citadas no livro, em gravações originais - todas comentadas no encarte - e um fonograma inédito de Odair José, censurado desde 1973. Fomos conversar um pouco com ele sobre seus trabalhos.
Fale um pouco sobre sua relação com Niterói. Você veio do interior da Bahia, não foi? Sim, eu vim de Vitória da Conquista e estou em Niterói há exatos vinte anos, desde 1984. Geralmente o baiano, quando sai da Bahia, vai para São Paulo - então primeiro fui para lá, morei cinco anos em São Paulo. Mas aí eu conheci uma menina que morava aqui em Niterói. A gente começou a namorar, ali por 1983... o namoro foi crescendo, crescendo e por causa dela, vim morar em Niterói. (risos) Foi por puro acaso... conheci ela num final de semana numa festa. Se não viesse para cá naquele dia, provavelmente não iria encontrá-la nunca mais.
E você acabou casando com ela? Não, namoramos uns três, quatro anos, mas não casamos. Mas o fato é que aqui eu fiquei. Gostei de Niterói por acaso, mas acabou sendo a minha cidade. E o fato concreto é que eu vivi mais em Niterói do que na minha cidade. Saí de lá com 13 anos, vivi cinco anos em São Paulo e estou aqui há vinte anos. É a cidade na qual eu mais morei até hoje. E pretendo continuar morando.
Como surgiu a idéia de você fazer um livro sobre a música chamada "brega", mas respeitando este estilo musical? Geralmente o gênero é visto por uma ótica mais trash, as pessoas escutam música brega para se divertir, mas não a levam à sério... O meu interesse se deu a partir da constatação da exclusão do repertório popular, chamado "brega", da historiografia da própria memória oficial da música popular brasileira. Quer dizer, quando eu me interessei pelo estudo da História do Brasil e particularmente pelo estudo da história da música brasileira, constatei que aqueles cantores populares que a maioria do povo brasileiro admira, que a maioria do povo brasileiro consome, gosta, ouve, compra os discos... não estava nos livros que tematizavam a música popular. Constatei uma exclusão desses artistas dos livros e teses acadêmicas feitos pelas elites.
Aquelas coleções do tipo Nova história da MPB, que saíam nos jornaleiros com LPs de vinil encartados, nos anos 70 e 80, também não tinham nada sobre música brega... Exato. E esses cantores fazem parte da memória do povo brasileiro, da memória afetiva de amplas camadas da população brasileira. Então a idéia do livro nasceu primeiro pra denunciar essa exclusão, esse apartheid... E num segundo momento, busquei explicar afinal que produção musical foi essa, que repercussão ela teve na época da ditadura militar, quais foram as conseqüências dela.
No livro, você pergunta para os artistas da primeira leva "brega" sobre o que eles estavam fazendo no dia em que foi declarada a ditadura militar e alguns artistas chegam a confundir o Golpe de 64 com outras situações políticas do país. Eles tinham algum conhecimento sobre política? Não. Veja bem: essa geração de cantores chamado "bregas" difere da geração da MPB contemporânea e da geração dos festivais... porque a geração da MPB é formada por pessoas de classe média, com formação universitária. Todos fizeram faculdade, o Chico, o Caetano, o Edu Lobo, o Geraldo Vandré, concluindo o curso ou não. Os cantores "bregas" são filhos do povo, todos na infância trabalharam de engraxate, de vendedores de picolé, de feirantes. Ou seja: não tiveram acesso a universidade, não tiveram acesso a uma educação de qualidade como a maioria do povo brasileiro não tinha - e não tem, ainda hoje. Então, essa geração que não era de formação universitária não tinha muita ligação com a temática política, como também acontece com a maioria dos brasileiros. Eu digo política num sentido formal, de interesse por partidos políticos, por política... Os acontecimentos que atingiram a classe média universitária, como o AI-5, a Passeata dos Cem Mil... essa geração de cantores e compositores não teve isso. Eles estavam sintonizados com outras questões, que não eram essas questões políticas dos setores mais organizados da sociedade. Haviam outras questões das quais eles falavam nas músicas deles: preconceito racial, preconceito contra os homossexuais...
E isso também é política... Se formos pegar num sentido mais amplo da política, eles estavam sintonizados, mas não com aquela política institucional. Só que eles também foram censurados, assim como Caetano, Gil, Chico Buarque, porque eles tocavam em questões cruciais da sociedade brasileira.
Recentemente você escreveu um artigo sobre Chico Buarque, no qual você comentou sobre a questão dele não atingir classes sociais menos favorecidas (o artigo saiu no Caderno B do Jornal do Brasil, num especial sobre os 60 anos do cantor). Você já soube de alguma repercussão desse artigo? Não, eu estou com problemas para acessar a internet, o artigo saiu no último domingo... Eu abordo nesse artigo essa questão mesmo, da produção do Chico Buarque e as camadas menos favorecidas. Falei de um cantor que, ao contrário desses cantores chamados "bregas", não atingiu a sensiblidade da população mais pobre do país, da maioria dos brasileiros. Mas atingiu a sensibilidade de uma elite intelectual, de uma formação de classe média. E nesse sentido eu digo que ele foi e é uma unanimidade entre os intelectuais. O que não é pouca coisa, porque só ele conseguiu ser!
Num outro artigo que saiu há pouco tempo, quando saiu o CD do livro, o Ruy Castro comentou que esse tipo de música considerada cafona - para ele, que é um cara que escreve sobre bossa nova e tal - "não tem nada a ver com o Brasil". Você chegou a ter alguma discussão com ele ou com outras pessoas sobre o livro? O que eu vi foi exatamente o que você viu, o que é publicado na imprensa. Nunca participei de um debate com eles, não. Aliás, eu tenho viajado muito pelo Brasil e feito palestras, mas sempre individual, nunca participei de debates com essas figuras. E o que eles têm falado é o que você viu, o que tem sido discutido na imprensa... Eu acho interessante a fala do Ruy Castro porque quando a bossa nova começou, os puristas do samba, os críticos da época, faziam exatamente essa acusação à bossa nova: que não tinha nada a ver com o Brasil, que era coisa de americano, que era jazz... Curioso que o Ruy Castro, que é historiador da bossa nova, venha fazer acusação semelhante ao repertório popular chamado "brega". Ele repetiu o mesmo discurso contra uma outra produção cultural. Isso sempre aconteceu, até com Pixinguinha, quando ele gravou o choro "Carinhoso", os críticos da época já dizia que o tema era americanizado. É uma questão que as elites culturais brasileiras têm, que é muito forte no Brasil, que é a preocupação com essa tal de "identidade nacional". A questão de ver o que pertence à tradição e à modernidade é um drama para as elites. Quando a tradição e a modernidade não são identificadas em algum cantor, eles são desprezados por elas, que cobram uma coisa nacional, de "identidade nacional". É um problema do Brasil, os estudiosos constatam que a literatura brasileira sobre identidade nacional é a maior do mundo, nenhum outro país tem uma literatura tão grande sobre esse assunto.
Eu vejo muita gente que nem é de elite repetindo esse discurso contra a música brega. Exato, porque têm esse discurso dominante introjetado. É o que acontecia com os negros durante muito tempo, deles terem preconceito contra eles mesmos, porque introjetaram o discurso do dominador. Muitos acreditavam nisso mesmo e repetem. Acho que isso também pode acontecer com o repertório chamado "brega", que é considerado lixo. E esse discurso é repetido, quando na verdade você vê música boa e música ruim em qualquer segmento musical. Fiz questão de provar isso no CD Eu não sou cachorro não, que está saindo. Tem muitas canções consideradas bregas que têm qualidade, são bem gravadas, têm participação de grandes músicos. Aquela visão de que "só porque é brega, é ruim" é puro preconceito. Existe muito samba ruim, tem muito samba que eu não gosto. E só porque é samba é bom? Só porque é de raiz é bom? Nesse universo chamado "brega" acontece a mesma coisa. O CD vem um pouco para mostrar isso. Traz músicas censuradas, proibidas, e músicas que estão entre as melhores canções feitas no Brasil nesses últimos tempos.
Você mesmo fez a seleção das músicas? Sim, eu mesmo, tendo como referência o repertório que aparece no livro, é a trilha sonora original do livro. Daquelas músicas que eu cito no livro, eu escolhi 14 faixas para compor o CD. Evidentemente faixas que traziam essa temática diversa da música brega, mostrando a diversidade do que é chamado brega. Primeiro, tem a diversidade de ritmos. Então tem samba do Benito di Paula, tem bolero do Waldick Soriano, soul music do Marcus Pitter. Tem diversidade de ritmos e principalmente a diversidade de temas. Tem músicas que falam de drogas, de sexo, de racismo, de suicídio, de homossexualismo, de prostituição, de exclusão social. Para cada tema desses eu escolhi uma música.
Você chegou a discriminar os temas na contra-capa? O CD tem um encarte explicando a história de cada faixa, contextualizando cada faixa, como foi feita, porque foi feita e o que significava na época. Então, o CD vem com um encarte muito rico em informações. Eu até optei por não transcrever as letras das músicas e apenas explicá-las. Trouxe muitas músicas censuradas na época, inclusive uma do Odair José que não foi lançada na época porque a censura não deixou, a balada "Em qualquer lugar". Essa balada ficou arquivada nos arquivos da gravadora Universal durante 31 anos e eu a recuperei agora. Ela foi proibida em 1973, o Odair José recorreu em Brasília, a censura continuou vetando, ele tentou novamente e não teve jeito de ser lançada. O público vai conhecer agora, é uma das mais proibidas canções da época da ditadura.
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Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ. Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc. Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc. E-mail: rschott2004@gmail.com