A assessoria dos Detonautas mandou uma carta-resposta do vocalista Tico Santa Cruz para alguns jornalistas. Ele foi entrevistado pela revista M..., falou alguma coisa sobre drogas e propina e o assunto acabou sendo publicado sob a forma de notinha por alguns veículos, o que, segundo a produção da banda, deixou o assunto meio descontextualizado. Segue aí o texto do cantor da banda na íntegra.
"A notícia é verídica.
Já usei drogas, nem por isso deixei meus princípios e valores de lado e muito menos me tornei uma pessoa má ou desonesta. O fato é que por uma questão de responsabilidade e coerência resolvi parar, pois não posso lutar contra a violência e muito menos a favor de um debate honesto pela legalização estando comprometido com qualquer tipo de substância ilegal. Acho esse estardalhaço uma grande hipocrisia. Isso acontece ainda porque muitos usuários famosos, admirados e cultuados incluindo celebridades, jornalistas, artistas de todos os seguimentos, médicos, advogados, deputados, gente de todo tipo que faz uso de alguma droga ilegal não coloca a CARA para discutir o assunto.
Dessa hipocrisia não quero fazer parte.
Não precisei entrar em nenhum centro de tratamento para deixar de usar alguma coisa, simplesmente porque nunca fui seguidor e nem viciado. Meu único vício ASSUMIDO e pra quem escrevi inclusive a música "Só por hoje" foi com remédios para dormir que são perigosíssimos e vendidos em qualquer drogaria.
Drogas legais.
Acho que cada organismo reage de uma forma diferente. Por este motivo é que nunca vão ouvir da minha boca qualquer estímulo ou apologia ao uso. Pois não vou influenciar ninguém. Existem pessoas que não são capazes de discernir e qualquer exagero é prejudicial a saúde. Também NÃO pretendo algum dia fazer comercial de CERVEJA e nem estimular o uso de álcool embora seja uma droga legalizada que têm comerciais estrelados por grandes ídolos na TV.
A droga está inserida na sociedade e NUNCA conseguirão acabar com seu uso. Isso é milenar. Há quanto tempo os países combatem o tráfico de drogas e há quanto tempo que esse mercado só cresce e rende mais e mais lucros?
Hoje em dia, na situação de violência a qual estamos submetidos cheguei a uma conclusão RADICAL.
Para quem curte fumar maconha ou utilizar qualquer entorpecente.
Ou assume que faz uso publicamente e luta pela legalização ou então PARA. Pois ficar no escurinho se escondendo para não se comprometer e deixar milhares de trabalhadores e crianças morrendo nessa guerra suja é COVARDIA.
Alguns podem me acusar de só ter tomado essa iniciativa depois da morte do NETTO. Não deixa de ser verdade.
No entanto será que precisaremos TODOS passar por experiências tristes para amadurecermos idéias e tentarmos fazer uma transformação interna?
Quanto a propina paga ao guarda, posso dizer que foi um assalto.
Estava voltando com meu equipamento de som de uma festa na época em que trabalhava animando eventos e a policia me interceptou numa blitz. Meu carro estava com o IPVA atrasado há alguns anos por falta de dinheiro para pagar o imposto. O Policial ameaçou tomar meu equipamento se não colaborasse com sua "laje" como ele mesmo se referiu ao destino do dinheiro.
Me mandou colocar cinqüenta reais dentro da identidade e entregá-lo.
Entre perder meu ganha pão na época e subornar o guarda optei pela segunda. Não tem justificativa, é a realidade de um país que empurra constantemente seus cidadãos para o caminho da ilegalidade. Seja comprando um CD pirata, ou consumindo uma erva, subornando um guarda ou comprando um produto roubado. Todos estão em algum grau envolvidos com alguma contravenção.
Hoje posso dizer que luto completamente limpo pelo que acredito e acho um absurdo essa falsa moral vigente com relação à política de segurança, armas e DROGAS.
Quem por ai topa assumir publicamente que faz uso ou já fez?"
Para quem gosta da banda, segue abaixo uma entrevista que fiz com o cara há alguns meses por e-mail - que foi usada numa matéria do Nitideal sobre passeatas, lutas pela paz ou algo do tipo. Sobre esse "lado militante" do Tico, acho algumas coisas que ele faz interessantes, mas não tenho opinião formada. Mas eu, particularmente, sou do tempo em que os rockstars faziam merda, bebiam, cheiravam, quebravam hotel, mijavam em poltrona de avião (o John Bonham, falecido batera do Led Zeppelin, fazia isso tudo), entravam em contradição, as coisas não eram tão controladas, o mundo não era tão politicamente correto, etc. Até por isso, não dá pra deixar de concordar quando ele fala que os artistas fariam melhor se falassem abertamente sobre drogas. Se for pra fazer merda, que seja em público.
Você tem ficado satisfeito com a cobertura da mídia em relação aos atos do Voluntários da Pátria? Acho que a imprensa tem um papel fundamental com relação a mudanças de mentalidade do nosso povo. Sem a mídia nossos atos não chegariam ao conhecimento de tanta gente e como não contamos com uma adesão popular é através dos meios de comunicação que levamos nossos questionamentos tanto a sociedade quanto as autoridades.
Quando você começou a fazer este tipo de manifestação, teve medo de ser incompreendido? Tem muita gente que confunde as coisas. Acha que estou fazendo protestos para me promover. Então pergunto, mas isso não é o que todos nós deveríamos fazer? Lutar por nossos direitos, para que sejamos respeitados? Não estou tentando me promover, o que acontece é que sou uma pessoa pública e como tal acaba gerando uma atenção maior. De qualquer forma prefiro estar atrelando minha imagem a algo de útil do que desfilando em revistas de fofocas.
Como foi ter contato com pessoas que, como você, perderam também entes queridos (como os pais do João Hélio e da Gabriela)? Compaixão, unidos pela dor. Todos nós brasileiros estaremos muito em breve se não fizermos nada, unidos pela dor.
Como é conciliar a agenda da banda e do Voluntários? Consigo tempo para tudo que quero fazer, é uma questão de vontade e organização.Quem dá desculpa que não tem tempo é porque não tá afim de se mover. Tem muita gente com milhares de tarefas por ai, família, trabalho, tudo mais que consegue fazer o que deseja, quem não pode dia de semana, pode no fim de semana e assim cada um vai fazendo sua parte.
Você tem feito algo para conscientizar o público nos shows? Sempre fizemos embora alguns a princípio ignorassem e desdenhassem dessas iniciativas.
Os atos do Voluntários têm acontecido só no Rio ou em todo o país? No Rio de janeiro atuamos em protestos nas ruas, com performances lúdicas e chocantes. Realizamos nacionalmente um circuito de poesia, música e debates em faculdades e escolas públicas, visando estimular os jovens a expressar sua voz e discutir os problemas do país. Estamos montando bibliotecas em presídios, orfanatos e carceragens, levando cultura, ,literatura e educação a quem está fora dos planos da sociedade.
Uma vez você disse que não tinha vontade de ter uma banda pra só falar de coisas sérias ou só de putaria, que não queria se prender a um só assunto... Com o disco novo prestes a sair, não rola um certo medo da todo mundo achar que a banda vai vir só com assunto sério? Como você lida com isso? Toda esperança é frustrada sempre, só existe felicidade inesperada, portanto, não esperem nada, nossos discos nunca são iguais, vivemos fases e imprimimos a verdade de nossos sentimentos através da arte. Por isso nos recusamos a gravar um acústico agora.
Os Detonautas não estão mais na Warner. O que rolou para a banda sair e como o próximo disco deve ser lançado? Vocês pensam em voltar pro mercado indie ou a iéia é buscar uma nova gravadora? Saímos por uma questão artística. Eles queriam um acústico que poderia render bons lucros e nós queremos expressar o que estamos vivendo. Nosso próximo disco sairá no ano que vem. Não nos interessa o mercado Indie pois queremos usar a máquina a nosso favor, para que possamos atingir cada vez mais pessoas e públicos diversificados. No fim das contas esse negócio de ser indie ou não é uma grande bobagem que divide bandas que poderiam estar trabalhando juntas e que deveriam se preocupar mais com a música e menos com os rótulos. Se posso usar uma gravadora para bancar os gastos e fazer o que acredito, pra que vou ficar me matando para tocar em lugares ruins com estrutura de má qualidade e trabalhando num emprego alternativo para sustentar minha família ? Não que todos os indies sejam assim, existem bandas independentes que são grandes e que não precisam de ninguém, estão satisfeitas com o que têm. Nós queremos algo abrangente e dessa forma vamos usar as armas que temos. Não pelo dinheiro, mas pelo prazer de viver exclusivamente da nossa música.
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Jornalista, 32 anos, Niterói/RJ. Bizz, Nitideal, International Magazine, Rock Press, Jukebox, etc. Rock, MPB, samba de raiz, fusões, experimentalismos, rock nacional, indie rock, etc. E-mail: rschott2004@gmail.com